Falar de Exu nunca foi simples, e parte dessa complexidade nasce da profundidade simbólica e filosófica que envolve sua presença dentro das religiões de matriz africana. De acordo com Prandi (2001), Exu é o orixá responsável pelo movimento, pela comunicação e pela ligação entre os mundos. Ele atua como mensageiro, guardião dos caminhos e princípio dinâmico que faz a vida fluir. Já Lévi-Strauss (1976) aponta que figuras como Exu representam forças estruturantes do pensamento simbólico, operando nas zonas liminares entre ordem e desordem, estabilidade e transformação. Nessa perspectiva, Exu não é caos, mas o organizador da possibilidade, a energia que permite que as coisas aconteçam.
Dentro da filosofia afro-brasileira, Exu não é entendido como bem ou mal, mas como movimento. Ele representa a dualidade que compõe o mundo, lembrando que toda escolha tem consequência e que o caminho se transforma conforme nossas ações. A visão demonizada de Exu, construída historicamente pelos processos coloniais e cristianizantes, distorce a realidade desse orixá que, na tradição nagô-yorubá, é o agente da comunicação e da vitalidade. Assim, compreender Exu é compreender a própria estrutura da vida, que exige escolhas, aberturas e constante adaptação.
Autoras como Sodré (2017) reforçam que Exu simboliza a energia vital que liga o humano ao sagrado. Ele é o princípio da encruzilhada, lugar onde mundos se tocam e onde decisões se tornam destino. Na Umbanda e no Candomblé, Exu se apresenta como força ética, pois reforça que sem responsabilidade e clareza de intenção, nenhum caminho se abre. Já na Umbanda, figuras como Exu Mirim e Pomba Gira representam aspectos da personalidade humana como irreverência, inteligência, sensibilidade, desejo e liberdade. Suas atuações desmistificam preconceitos e ressaltam que o sagrado também ensina através do riso, da vivacidade e da quebra de padrões.
Filosoficamente, Exu pode ser entendido como o princípio da transformação contínua. Ele é o tempo que se movimenta, o impulso que rompe a estagnação, a metáfora viva de que nada existe isolado. Em um mundo fragmentado por desigualdades e narrativas hegemônicas, Exu ressurge como símbolo de resistência cultural, preservação ancestral e reencantamento do cotidiano. Ele ensina que o caminho só existe quando caminhado e que cada escolha gera consequências capazes de alterar o curso da própria existência.
Paralelamente, a presença de Exu nas práticas religiosas contemporâneas reforça a necessidade de reinterpretar o sagrado a partir das próprias raízes afro-brasileiras. Ele convida à reflexão sobre liberdade, responsabilidade, ancestralidade e movimento, mostrando que a vida ganha sentido quando se reconhece a força que habita nas encruzilhadas. Reafirmar Exu é reafirmar também a cultura, a memória e a espiritualidade que moldam a experiência de um povo que continua resistindo, reconstruindo e se reinventando.
Com esse movimento de ressignificação e retomada, surgem também discussões importantes sobre identidade, racismo religioso e o lugar da espiritualidade africana no Brasil contemporâneo. O fortalecimento da imagem de Exu, agora amparado por pesquisas acadêmicas, produções culturais e manifestações populares, se torna uma maneira de enfrentar séculos de apagamento e preconceito. A presença dele nos debates atuais funciona como instrumento de educação e combate à intolerância, apontando para a urgência de compreender o sagrado a partir de suas próprias lógicas culturais.
Além disso, as novas gerações têm desempenhado um papel essencial nessa reconstrução simbólica. Jovens pesquisadores, artistas, líderes religiosos e comunicadores vêm trazendo Exu para o centro das discussões sobre diversidade religiosa, memória afro-brasileira e valorização da ancestralidade. Essa atuação coletiva não apenas amplia o conhecimento sobre o orixá, mas cria pontes entre o passado e o presente, fortalecendo uma compreensão mais justa e coerente da espiritualidade africana. Assim, Exu se afirma como força viva que atravessa o tempo, preserva histórias e inspira novos caminhos.
A ampliação do interesse acadêmico pela figura de Exu também impulsiona pesquisas que buscam desconstruir o olhar colonial que marcou os primeiros registros sobre as religiões afro-brasileiras. Obras de estudiosos como Verger e Prandi abriram espaço para novas interpretações, mas pesquisas recentes vêm aprofundando ainda mais a compreensão sobre Exu como figura filosófica, cosmológica e social. Essa produção intelectual ajuda a reposicionar Exu não como personagem folclórico ou figura controversa, mas como pilar estruturante de sistemas de pensamento complexos e sofisticados.
Nos meios culturais, o simbolismo de Exu também tem sido resgatado de forma positiva. Artistas, escritores, músicos e cineastas utilizam referências ao orixá para questionar padrões estéticos coloniais e fortalecer narrativas afro-centradas. Nessas produções, Exu aparece como símbolo da criatividade, da ruptura e da potência transformadora, aproximando o público de sua verdadeira essência. Esse processo tem ampliado o repertório simbólico das novas gerações, que passam a enxergar Exu com orgulho, consciência histórica e respeito.
Por: Emilly Geremias e Giovana Baldan
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.