Lyalòrisá Evelise de Oyá, sacerdotisa responsável pela condução ritual, administração religiosa e preservação doutrinária de seu terreiro, afirma que “o Candomblé vai muito além de uma filosofia religiosa”. A declaração resume de forma objetiva o caráter estrutural da religião, baseada em normas, práticas e fundamentos que organizam a relação entre seres humanos, natureza e divindades. Sua fala reforça que o Candomblé não opera como reflexão abstrata, mas como um sistema religioso completo, com regras próprias, funções hierárquicas definidas e rituais que sustentam a manutenção do axé e da comunidade.
O Candomblé é uma religião de matriz africana consolidada no Brasil durante o período colonial. Segundo o artigo “O Candomblé e a cultura afro-brasileira”, de Neide dos Santos Rodrigues (UNICENTRO), sua formação decorreu da resistência cultural dos povos africanos trazidos à força para o país. Mesmo sofrendo perseguição jurídica, policial e social, mantiveram práticas, liturgias e organização comunitária, preservando elementos centrais de suas nações de origem. No campo teórico, o Candomblé estrutura-se pela relação direta entre natureza, ancestralidade e mundo espiritual, compreendendo que todos os elementos — ar, fogo, terra, água e seres vivos — constituem uma rede de interdependência que regula o equilíbrio do axé e o funcionamento ritual.
Dentro dessa estrutura religiosa, Exu ocupa uma função de caráter técnico e indispensável. Conforme demonstram Barbosa, Barbosa e Vasconcelos (2018), Exu é o responsável pela comunicação ritual entre o aiyê (mundo material) e o orum (mundo espiritual). Seu papel é garantir que qualquer procedimento litúrgico aconteça de forma correta, sem obstruções energéticas. Por isso, é o primeiro a ser saudado e o último a ser encerrado nos rituais. Cada casa mantém um assentamento específico de Exu, entendido como ponto físico e ritual onde sua energia é estabilizada. Através desse ponto, o axé pode circular e alcançar os demais orixás, permitindo que obrigações, oferendas e rituais se desenvolvam conforme o fundamento da tradição.
A presença de um assentamento próprio de Exu em cada terreiro não é um detalhe simbólico, mas um elemento operacional indispensável. O assentamento funciona como um ponto de fixação energética, estabelecido por meio de materiais específicos, dispostos conforme o fundamento da casa e da nação à qual o terreiro pertence. É por meio desse ponto que o fluxo ritual se organiza: ele recebe, distribui e estabiliza as energias envolvidas nos processos litúrgicos. Assim, Exu não é compreendido como figura moral ou mítica, mas como mecanismo estrutural que garante a comunicação entre planos e o funcionamento adequado das práticas religiosas. Sem ele, nenhum rito pode ser iniciado, conduzido ou finalizado.
A hierarquia do Candomblé também se articula a partir desse princípio organizativo. Cada função — seja de iyawô, ogã, ekedi, babalorixá ou ialorixá — possui responsabilidades específicas que contribuem para a manutenção da ordem ritual. Essas funções não são decorativas: integram um sistema de trabalho contínuo que envolve preparo técnico, domínio de fundamentos, leitura correta das obrigações e conhecimento dos ciclos rituais da casa. A atuação de cada membro influencia diretamente o fluxo do axé; portanto, disciplina, constância e observância das regras são requisitos essenciais. Essa estrutura reforça o caráter não improvisado do Candomblé: ele opera segundo procedimentos estabelecidos, armazenados na tradição oral e replicados rigorosamente ao longo das gerações.
No contexto interno do terreiro, a relação entre orixás, ancestrais e comunidade se sustenta por meio de ritos precisos, como oferendas, obrigações, rezas, liturgias de abertura e fechamento, toques de tambor e manipulação de elementos naturais. Cada um desses procedimentos tem função técnica definida e não pode ser substituído por adaptações arbitrárias. O uso de folhas, por exemplo, segue critérios rígidos: cada espécie possui um axé específico e uma função energética particular, o que torna o conhecimento botânico sagrado uma área fundamental de atuação ritual. Do mesmo modo, cada toque de atabaque corresponde a um orixá e é executado conforme fundamentos musicais transmitidos pela tradição.
Assim, ao afirmar que o Candomblé “vai muito além de uma filosofia religiosa”, Lyalòrisá Evelise de Oyá sintetiza o entendimento de que essa religião se estrutura como sistema técnico, normativo e ritualístico, organizado por fundamentos que regulam a vida religiosa e comunitária. Longe de qualquer interpretação abstrata, o Candomblé se mantém pela precisão de suas práticas, pela continuidade de seus saberes e pelo compromisso com a preservação de suas tradições. É essa base teórica e estrutural que permite que a religião permaneça viva, coerente e tecnicamente organizada ao longo dos séculos.
Por: Emilly Geremias
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.