Representatividade: qual a importância desse conceito nas eleições?

Arte Espelho Meu

Plataforma interativa ajuda a discutir a importância de um perfil mais diverso entre os representantes políticos

Se pudéssemos colocar lado a lado o perfil da sociedade brasileira e o perfil dos nossos representantes em assembleias e no Congresso Nacional, o resultado seria uma imagem distorcida. Isso porque a política brasileira sofre constantemente com o desafio de espelhar a sociedade civil na representação política. A palavra-chave dessa discussão é justamente “representatividade”.

“Do ponto de vista da representação do espaço político que é ampliado ou reduzido para determinados setores da sociedade, o que se vê hoje é que partidos políticos ainda têm uma limitação na participação de mulheres, de negros, de trabalhadores, da população, da sociedade que não se vê representada na maior parte dos partidos políticos.” Essa é a perspectiva que aponta o professor do mestrado em Gestão de Política Públicas da Univali Eduardo Guerini.

Guerini aponta que estruturalmente o jogo político favorece uma manutenção do status quo, que é representado por candidatos da elite, normalmente homens brancos e com um poder financeiro, o que pode influenciar o processo eleitoral.

“De modo geral, a representatividade política de grupos numa sociedade bastante diversa como a brasileira é importante para que se evite que determinados setores sociais tenham ascendência e preponderância na construção da agenda política, da agenda de demandas, que necessariamente atenderão apenas um ou poucos grupos”, completa o professor.

Além disso, a comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa constatou que falta representatividade dos negros na política brasileira nas quatro esferas de poder, mesmo com o aumento do percentual de candidatos negros nas eleições de 2018 em relação às eleições anteriores.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram um total de 28,1 mil pessoas inscritas para concorrer em outubro aos cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente. Desse total, 52,7% são brancos. De acordo com TSE em Santa Catarina, dos 766 políticos que apresentaram pedidos de candidatura a algum cargo nas eleições, apenas 33 são negros.

Segundo o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os negros são mais da metade da população (54%) e mesmo assim a corrida presidencial, por exemplo, ainda é a mais desigual em relação à divisão racial da sociedade brasileira. Dos 26 candidatos a presidente e vice-presidente, apenas três são negros.

O candidato negro ainda tem dificuldade de chegar ao patamar de uma elite mais competitiva, pois se elege quem mais arrecada e o elevado custo de campanha, que não cabe no bolso, impede que grupos mais vulneráveis representem no parlamento.

Outra questão também é a falta de representatividade das mulheres na política. Os partidos, mesmo obrigados a reservar 30% de suas candidaturas às mulheres, raramente conseguem fazer com que elas sejam protagonistas nos partidos. Na época da eleição a luta é apenas para preencher a cota.
A fundadora do coletivo Frente Negra do Vale do Itajaí, Monike Eva, formada em Direito, analisa a questão da falta de representatividade de mulheres e negros na política e defende o fato de que negros e mulheres participando podem criar políticas públicas direcionadas para grupos mais vulneráveis. Analisando os números da participação política nas últimas eleições, ela diz que o aumento foi muito baixo para ser considerada uma evolução, isso porque os estereótipos são um dos principais desafios a ser superados. Visualizando os candidatos da região de Santa Catarina para governador, não temos nenhum negro (a) e apenas uma mulher. Para senador, nenhum negro (a) e apenas três mulheres.

O grupo MARIAMA de Itajaí é formado por mulheres negras que buscam empoderar as mulheres em diversos espaços. A participação na política é um assunto que está sempre em debate nas reuniões do grupo, inclusive uma das participantes se arriscou a se candidatar duas vezes para o cargo de vereador.

A coordenadora do MARIAMA, Graziela Cristina Gonçalves, aborda a falta da representatividade do negro e da mulher na política e fala sobre a importância de ter questões debatidas por representantes que já vivenciaram as mesmas situações. Se os governantes olhassem para as particularidades da população, as criações de políticas públicas seriam mais funcionais. Analisando o quadro recente da política, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, representando a maior nação de força política, trouxe um empoderamento político para os negros, uma confiança para que as pessoas votassem para outros negros, quebrando assim muitos estereótipos, trazendo uma atribuição positiva para imagem do negro na representatividade política mesmo que sendo a minoria.

Para o professor Eduardo Guerini, a democracia prevê que através da alternância de poder e da liberdade de escolha, a população possa eleger representantes que busquem o interesse público e social. “Isso significa, em outras palavras, que um congresso nacional que tenha uma diversidade, que tenha uma capilaridade nos diversos setores da sociedade, ele vai representar melhor, vai refletir o que é a sociedade e vai construir uma agenda mais plural”, finaliza.

Como funciona o Espelho Meu?

O projeto de extensão Proa Media Lab, do curso de Jornalismo da Univali, em parceria com o Jornal-laboratório Cobaia, criou a plataforma Espelho Meu, uma ferramenta interativa que busca comparar o perfil do eleitor com o perfil das candidatas e candidatos a deputado federal e estadual.
Através do banco de dados fornecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que registra o perfil dos candidatos a partir de aspectos como idade, patrimônio, raça e gênero, foi desenvolvida uma plataforma que apresenta ao eleitor quantos candidatos de determinado perfil concorrem nas eleições de 2018.

Por exemplo, o eleitor pode descobrir qual a porcentagem de candidatas mulheres, negras, na faixa etária de 36 a 45 anos concorrem em Santa Catarina. As características levadas em consideração na ferramenta são: faixa etária; gênero; raça; escolaridade; ocupação; e patrimônio. O usuário pode filtrar todos os aspectos ou escolher apenas alguns deles.

A ferramenta busca ser um ponto de partida para a discussão da importância da representatividade na política. Obviamente que não existe nenhuma garantia de que um candidato com um perfil muito similar ao seu será um bom representante dos seus interesses. Ainda assim, a plataforma ajuda a demonstrar algumas disparidades do jogo político em relação ao perfil da sociedade e servir como um incentivo à população pesquisar mais sobre seus candidatos.

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