Tremor de terra no ano de 2010 deixou país devastado. Hoje, estima-se que 98% dos quase 11 milhões de habitantes da ilha vivam em situação de pobreza
Quando o avião tocou o solo do Aeroporto Internacional Toussaint Louverture em Porto Príncipe, a capital do Haiti, o professor de idiomas, Leonel Joseph, sentiu tristeza. Estava voltando para o país de origem depois de nove anos. A volta foi para sepultar o pai, mas ele teve que enfrentar muito mais do que perder um ente querido. O sentimento se misturou com a decepção ao se deparar, nove anos depois do terremoto, com um país pior do que aquele que havia deixado para trás.
A falta de saneamento básico, de energia elétrica, de emprego, ainda marcam o cotidiano das pessoas, a maioria, segundo Joseph, vivendo abaixo da linha da pobreza. A verdade é que a vida nunca mais foi a mesma depois do dia 12 de janeiro de 2010 num país destruído e marcado pela miséria crônica que levou milhares de haitianos, assim como Leonel, a deixar tudo para trás e partir para o exterior.

O tremor de terra que destruiu o Haiti chegou a sete pontos na Escala Richter. Considerado um sismo de médio a grande impacto, provocou mais destruição porque atingiu parte de Porto Príncipe, onde tem a maior concentração populacional do Haiti. Pelos dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o saldo foi de 220 mil mortos e um milhão de desabrigados. Metade da capital, Porto Príncipe, ficou destruída pelo abalo sísmico.
O terremoto no Haiti encerrou um capítulo de uma história de dedicação ao próximo. A médica catarinense Zilda Arns Neumann, indicada três vezes ao Prêmio Nobel da Paz e responsável por fundar em 1983, junto com Dom Geraldo Magela, a Pastoral da Criança ligada à Igreja Católica, foi uma das vítimas fatais. A médica estava na capital haitiana, dentro de uma igreja falando sobre a Pastoral da Criança, quando os abalos começaram.

A morte de Zilda Arns na tragédia fortaleceu o projeto no Haiti. No último levantamento, em julho de 2019, a Pastoral da Criança atendeu mais de 3,5 mil famílias e mais 4,2 mil crianças além de 483 gestantes naquele país. O coordenador internacional do projeto, o médico Nelson Arns Neumann, filho da médica, avalia a presença do projeto no país como positiva. “No Haiti, optamos por uma estratégia de começar a Pastoral da Criança numa diocese de Fort-Liberté, que é mais na fronteira com República Dominicana. Há alguns anos, o trabalho foi estendido para a capital haitiana. Se percebe muita necessidade e, ao mesmo tempo, muita solidariedade entre as pessoas, o que facilita demais para a Pastoral da Criança”. Zilda Arns é homenageada no Haiti com o nome do hospital comunitário em Porto Príncipe.
“No Haiti, optamos por uma estratégia de começar a Pastoral da Criança numa diocese de Fort-Liberté, que é mais na fronteira com República Dominicana. Há alguns anos, o trabalho foi estendido para a capital haitiana. Se percebe muita necessidade e, ao mesmo tempo, muita solidariedade entre as pessoas, o que facilita demais para a Pastoral da Criança”
Segundo o doutor em Geociência, José Gustavo Natorf de Abreu, professor do curso de Oceanografia da Universidade do Vale do Itajaí, o Haiti é um país suscetível a terremotos e tornados. É o mesmo que acontece na Indonésia, no Peru, no Chile, regiões em cima de placas tectônicas (responsáveis por formar a crosta terrestre). Elas são entrecortadas como um quebra-cabeça e são todas encaixadas, mas, às vezes, podem se afastar ou se aproximar. “Quando há um encontro das placas, o terremoto é mais intenso porque provoca um choque”.

Abreu ainda esclarece que, justamente, na borda da placa tectônica do Caribe, onde estão ilhas como o Haiti, essa placa está entrando por cima de outra, o que gera terremotos. “A questão é que as cidades não estavam preparadas, e quando isso acontece, o dano é maior. No Japão, por exemplo, há tremores fortes, mas a tecnologia da construção civil é avançada para suportar os abalos. Há técnicas para evitar o desabamento. Nos países mais pobres essa não é a realidade”.
História que se repete
A história de lutas do povo haitiano atravessa séculos. O Haiti foi uma colônia francesa e o primeiro país da América a conquistar a independência através de uma revolução de negros. Também foi o primeiro a libertar os escravos. De acordo com o professor de história Paulo Mello, do curso de Relações Internacionais da Univali, os indígenas que habitavam a região foram exterminados ou levados para o continente para ajudar na extração de minerais. Posteriormente, a ilha foi habitada por escravos africanos. Em 1780 se inicia um conjunto de revoltas dos escravos, liderado pelo militar haitiano, Toussaint Louverture. Em 1804, o Haiti foi transformado numa república. Napoleão Bonaparte tentou uma invasão, mas sofreu uma derrota nas praias de Porto Príncipe. A vitória haitiana, segundo Mello, foi esquecida pela história.
Convidado a ir à França, Louverture foi traído, trancado e levado para uma prisão nos Pirineus, local em que morreu de frio. Depois da morte de Louverture, segundo o analista internacional e professor do curso de Relações Internacionais da Univali, Ricardo Boff, os líderes haitianos que deram prosseguimento à revolução não tiveram sabedoria e estrutura para conduzir o país. O sistema de latifúndio fez a população ficar nas mãos das elites que dominam as terras. As principais riquezas do país são produtos primários como a cana, o algodão e frutas.

Devido à pobreza e pouca representatividade, o Haiti é um país que sofre a influência de países mais desenvolvidos como os Estados Unidos. Esta influência se justifica não só porque o Haiti fornece produtos primários relativamente baratos, mas porque a região é um importante ponto de defesa geopolítica.
O país também passou por uma ditadura que começou na época da Guerra Fria, ressalta Boff. Entre as décadas de 1950 até 1980, o médico François Duvalier (Papa Doc) foi eleito presidente. A família ficou no poder após a morte do ditador com domínio do filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc. Anos depois, começou uma tentativa de se instalar uma democracia após a eleição de Jean Bertrand Aristides em 1986. Na época, ele sofreu um golpe de Estado. Em 1990, retornou ao poder na tentativa de redemocratização. O país ficou dividido. A Organização das Nações Unidas (ONU) e a França decidiram fazer uma missão de paz em 2004, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH).

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, na tentativa de projetar o Brasil e buscando uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, se ofereceu para assumir a missão que acabou em 2017. Para Boff, ainda não há uma democracia estável no Haiti. As eleições do presidente atual, Jovenel Moïse podem ter sido idôneas, mas há atuação de grupos paramilitares e a institucionalidade é fraca. Como a maioria da população é pobre, inviabiliza uma grande arrecadação de impostos, o que torna difícil manter serviços públicos como educação e saúde. Calcula-se que 98% dos quase 11 milhões de habitantes da ilha vivem em situação de pobreza.
Para melhorar a situação do Haiti, a formação de um bloco econômico com outros países centro-americanos e caribenhos pode ser uma solução, segundo Boff. “Se os países ao redor do Haiti começarem a se integrar e criarem laços maiores, podem dar um salto econômico. Por outro lado, é complicado porque há vertentes políticas diferentes, como, por exemplo, Cuba”.

A entrada de capitais através de remessas de dinheiro de quem está no exterior é uma das fontes mais importantes de renda, tanto para as famílias quanto para o governo, que cobra 1% de taxa sobre o valor que entra no país. De acordo com a estatística do Banco Central, transferências pessoais do Brasil para o Haiti somaram 45 milhões de dólares no primeiro semestre de 2019.
A ajuda humanitária da comunidade internacional também é uma forma de amenizar a carência em serviços básicos como a saúde. A dentista Mariele de Paula já participou duas vezes com a missão profissional da Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus em Porto Príncipe. A missão presta atendimento à saúde e distribui alimentos em um bairro da capital haitiana. Atende 400 crianças por dia no café da manhã e todos os sábados é feita a distribuição de almoço para 500 pessoas. O projeto também tem uma padaria onde as mulheres do bairro trabalham e ganham como pagamento parte dos mil pães que produzem por dia, levando para vender na comunidade em que vivem.
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Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog
Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen




