Organizações oferecem serviços para auxiliar os imigrantes e se preocupam com a vida social, baseada na igreja e no trabalho
Associações compostas por haitianos e pessoas que querem ajudar os imigrantes são comuns no Vale do Itajaí. Na região, considerando as cidades com maior número de haitianos, três delas possuem associações: Balneário Camboriú, Navegantes e Blumenau. Os grupos são responsáveis por oferecer suporte àqueles que chegam em território brasileiro.

Em Balneário Camboriú, a associação de haitianos auxilia os imigrantes de diferentes maneiras, indicando as vagas de trabalho, orientando em relação ao comportamento e esclarecendo sobre documentações. Atualmente, o presidente da associação é Wismick Joseph, pastor que apresenta o programa Amigos do Haiti. “Caso não saibam em que local devem ir para tirar algum documento, por exemplo, a gente indica”, diz. Na associação, também são realizadas festividades típicas do Haiti, momentos que unem ainda mais os que deixaram o seu lar em busca de melhores condições de vida. A associação ainda apoia cursos de português para os haitianos. “Temos curso de português na Univali todos os sábados”.Joseph , que já participou da formação, explica que também participam venezuelanos, argentinos e imigrantes de outras nacionalidades.
Entre os serviços, segundo o presidente, o mais procurado é o que oferta vagas de emprego. “Nós não temos ajuda de governos para tentar diminuir o desemprego dos imigrantes haitianos no Brasil. Este é o nosso principal desafio”, explica Joseph. A demanda por trabalho é tão comum que a associação busca firmar parcerias, por exemplo, com o Serviço Nacional de Empregos (Sine) de Balneário Camboriú. O Sine envia vagas para serem compartilhadas com os haitianos. Sem sede própria, os encontros da associação são realizados em uma igreja.
“Nós não temos ajuda de governos para tentar diminuir o desemprego dos imigrantes haitianos no Brasil. Este é o nosso principal desafio”
Na cidade de Navegantes, a Associação de Haitianos conta com o apoio de um professor da Rede Municipal de Ensino, João Edson Fagundes. Desde que os primeiros haitianos começaram a chegar, ele ficou curioso para saber quem eram as pessoas andando pelas ruas de bicicleta e falando uma língua que ninguém entendia. A curiosidade despertou no professor a vontade de conhecer mais o perfil dos imigrantes e, junto com alunos do 9º ano, ele elaborou uma pesquisa socioeconômica para traçar o perfil dos imigrantes.

O professor brasileiro também foi o responsável por perceber que o idioma era a principal barreira de inserção dos haitianos, por isso começou a dar aulas de português. Depois, estimulou o professor de linguística, Leonel Joseph, e outros haitianos a procurar a prefeitura para conseguir uma sala de aula em uma escola pública. Na cidade, a demanda pelo curso é tão alta que, segundo João Edson, há necessidade de pelo menos três professores para atender todos os alunos. “O certo seria dividir os cursos e fazer um básico, um mais avançado e outro para as crianças”. Apesar da intenção, por enquanto essa é uma realidade distante.
Na parceria com os haitianos, Fagundes também estimulou a fundação da Associação dos Haitianos de Navegantes (Ashan), da qual é diretor executivo. A associação tem como meta prestar serviço de assessoria jurídica, apoiar os pais haitianos em busca de vaga nas escolas para as crianças, visitar as empresas para possibilidade de contratação, além de acompanhar os haitianos nos sindicatos para negociar rescisões de contrato. “Tem uma empresa de pescado, a que mais emprega haitianos na região, cerca de 80, que só registra a metade deles. Os outros, eles pagam por diária. A gente tenta amenizar e negociar, pois cada rescisão pode chegar até R$ 50 mil, aí eles pagam uns R$ 8 mil”.
Outro aspecto indicado por Fagundes é sobre o preconceito contra os haitianos que, apesar de ter diminuído um pouco em Navegantes, depois do assassinato de Fetiere Srtelin em 2015, não foi suficiente para facilitar a vida do imigrante na região, principalmente no mercado de trabalho. “Em Navegantes tem empresários que os são xenófobos e não contratam haitianos. Também têm donos de empresas que não contratam mulheres haitianas, pois dizem que elas ficam grávidas com muita frequência”.
“Em Navegantes tem empresários que os são xenófobos e não contratam haitianos”
Além dos direitos dos imigrantes, a associação se preocupa com a vida social dos haitianos, que têm como cotidiano o trabalho e a igreja. Por isso, o professor estimulou também a criação de um time de futebol, denominado Galaxy Futebol Clube. Neste ano, o time passa pela segunda divisão e, atualmente, faz alguns jogos amistosos. A associação de haitianos também organiza festas típicas que recordam a cultura haitiana. A diretoria ainda possui parceria com uma empresa de plano funerário e comprou três terrenos em um cemitério do município para assistência em caso de morte.

Já em Blumenau, os serviços oferecidos são semelhantes aos da associação de haitianos de Balneário Camboriú e Navegantes. Na cidade, a principal demanda que chega para o presidente Webster Fievre é relacionada às questões jurídicas. Por isso, há uma mobilização para atender os imigrantes. Vagas de trabalho também são buscadas pelos haitianos.
Com pouca estrutura e apoio dos órgãos municipais, Fievre conta que há risco da associação perder o local em que são realizadas as reuniões semanais. “Se isso acontecer, vamos ter que procurar outro lugar”. Mesmo com as dificuldades, o presidente diz que o trabalho feito é importante para os imigrantes. Em Itajaí a associação de haitianos está desativada.
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Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog
Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen




