Apenas na região do Vale do Itajaí, nas cidades de Itajaí, Blumenau, Navegantes, Balneário Camboriú e Itapema, estima-se que haja cerca de 3,9 mil haitianos
As histórias que contamos até aqui são apenas algumas que fazem parte das estatísticas da imigração haitiana no Brasil. No Vale do Itajaí, os primeiros imigrantes haitianos chegaram para trabalhar na construção civil, na cidade de Navegantes, em fevereiro de 2012. Em franco desenvolvimento econômico, causado, principalmente, pela abertura do Porto, o município catarinense passou a ter, também, um intenso crescimento no setor imobiliário. Este desenvolvimento provocou grande oferta de emprego na construção civil. Em contrapartida, havia pouca mão de obra para suprir a demanda, o que motivou empresas da cidade a buscarem trabalhadores haitianos que, na época, chegavam no Acre.
Dona de uma construtora em Navegantes, a empresária Karin Dias foi a primeira da cidade a viajar mais de quatro mil quilômetros até Brasiléia, no Acre, em busca da mão de obra haitiana. Em entrevista à Deutsche Welle Brasil à época, ela afirmou que ficou sensibilizada com uma reportagem sobre a situação dos haitianos na fronteira do Brasil com a Bolívia. Aliando a necessidade de trabalhadores para a empresa da qual é dona, a Inbrasul, Karin foi de avião até Rio Branco, capital do Acre, e depois percorreu mais 5 horas de carro até chegar ao destino final. Desta viagem, trouxe 17 haitianos.
Inspirados pela ação de Karin, outras empresas da região foram em busca da mão de obra haitiana. Uma delas foi a Multilog, empresa de Logística Portuária de Itajaí. A empresa trouxe, em 2012, 26 haitianos que estavam em Manaus — Amazonas. Na época, eles trabalharam nas áreas operacionais, copa e etiquetagem. Passados sete anos, ainda há funcionários haitianos no quadro de colaboradores da Multilog.

Estes 43 haitianos que chegaram, inicialmente, foram a porta de entrada para os outros milhares que vieram para Santa Catarina. Apenas na região do Vale do Itajaí, nas cidades de Itajaí, Blumenau, Navegantes, Balneário Camboriú e Itapema, estima-se que haja cerca de 3,9 mil haitianos. Os dados foram fornecidos pelas associações de haitianos das cidades, visto que as prefeituras não possuem número oficiais.
De acordo com a Secretaria da Assistência Social, Trabalho e Habitação de Santa Catarina, dos cerca de 5,7 mil imigrantes no estado — que constam no Cadastro Único para programas sociais —, 3,3 mil são imigrantes haitianos. Nas escolas catarinenses, há 3,1 mil haitianos, entre eles crianças, jovens e adultos estudando. Os dados são da Secretaria de Educação de Santa Catarina.
De acordo com dados da Secretaria de Educação de Santa Catarina, há 3,1 mil haitianos, entre crianças, jovens e adultos, estudando nas escolas catarinenses.
Entre 2011 e 2018, segundo o Resumo Executivo de Migração e Refúgio no Brasil, do Observatório das Migrações Internacionais, cerca de 106 mil imigrantes entraram no País, sendo 21,5% da parcela total de imigrantes originários do Haiti. Os haitianos figuraram, em 2018, como a principal nacionalidade no mercado de trabalho formal no Brasil.

Santa Catarina como rota de imigração
A imigração haitiana é considerada o maior fenômeno migratório do século XXI em Santa Catarina. A rota de imigração começou quando os portugueses-açorianos chegaram na região, em janeiro de 1748, depois de 90 dias de viagem. Foram 461 açorianos que deixaram a Ilha Terceira no arquipélago português. Era a proposta da Coroa Portuguesa de ocupar o Brasil Meridional. Entre 1748 e 1756, segundo o Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina, 6 mil açorianos desembarcaram em Desterro, hoje a capital do Estado, Florianópolis, e também no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, eles se espalharam para toda a costa catarinense composta, atualmente, por 45 municípios, incluindo Itajaí, porta de entrada para o Vale do Itajaí.
O jornalista Rogério Pinheiro, autor do livro “A Nova Ericeira”, fruto de seu trabalho de conclusão de curso (TCC), defende que uma nova leva de portugueses, desta vez do continente, também foi responsável por povoar a região de Porto Belo — outra cidade do Vale do Itajaí. Pescadores provenientes de Ericeira, cidade a 48 quilômetros de Lisboa, chegaram na região em 30 de setembro de 1819, três anos antes da independência. Ao todo, 400 imigrantes atravessaram o Oceano Atlântico, convidados pela Corte Portuguesa — que havia se instalado no Rio de Janeiro — em 1808. Vieram com a promessa de terras e casas, ajuda de custo e barcos para pesca em alto mar, mas foram iludidos.

O movimento migratório alemão também tem duas fases distintas em Santa Catarina, ressalta a historiadora Sueli Petry, diretora do Patrimônio Histórico de Blumenau. Os primeiros alemães que chegaram no Vale do Itajaí vieram já como migrantes se deslocando de outras regiões catarinenses, estimulados pela política econômica de Dom Pedro I.
Chegaram em 1824, na região do Vale do Rio dos Sinos no Rio Grande do Sul e, depois, em 1829 em São Pedro de Alcântara, atualmente região pertencente à Grande Florianópolis. Na época, era uma área íngreme e infértil para o plantio e forçou os alemães a procurarem lugares melhores dentro do estado. Num primeiro momento, se instalaram em terras onde, hoje, é o município de Gaspar. Os belgas também tentaram fundar uma colônia na região de Ilhota, mas partiram para o Vale do Itajaí em busca de minério, principalmente ouro. O projeto não deu certo.
Em 1846, o químico e farmacêutico alemão Hermann Bruno Otto Blumenau fez a primeira viagem ao Brasil para visitar a colônia do Vale do Rio dos Sinos. Enviado por uma empresa alemã de proteção aos imigrantes, sua missão era investigar as condições de vida dos colonos, que estavam escrevendo a parentes reclamando das condições de vida no Brasil.
Hermann Blumenau conheceu o Vale do Itajaí e se interessou pela região. Voltou para a Alemanha com a intenção de trazer 250 imigrantes. Em agosto de 1850, chegou com 17 alemães — 11 homens, quatro mulheres e duas crianças. Houve um choque cultural, incluindo conflitos sangrentos com os xoklengs e kaingangs, indígenas pacíficos mas que, para defender suas terras, tiveram que lutar com os novos habitantes. Em 1860, a colônia foi vendida ao Império brasileiro sob o comando do jovem Pedro II. Hermann Blumenau continuou à frente da administração.
Os italianos começaram a chegar em grande massa no Vale do Itajaí, em dezembro de 1874, após um mês de viagem. Eles vieram da região do Trento, e rumaram até à Colônia Blumenau. “Chegaram em torno de mil italianos na região, o que causou um impacto por falta de lugar para acomodar tanta gente e por causa dos conflitos culturais e religiosos entre alemães protestantes e italianos católicos”.
“Chegaram em torno de mil italianos na região, o que causou um impacto por falta de lugar para acomodar tanta gente e por causa dos conflitos culturais e religiosos entre alemães protestantes e italianos católicos”
Começou, então, o processo de interiorização do Vale do Itajaí para povoar lugares onde, atualmente, são os municípios de Rodeio, Ascurra e Apiúna. Outra leva de imigrantes italianos chegou, entre 1875 e 1876, e povoou também a Picada Tiroleses, formando a base do atual município de Rio dos Cedros no médio Vale do Itajaí. Em 1892, começaram a chegar novos imigrantes alemães que ocuparam a região de Ibirama.

Na segunda metade do século XX, a Guerra Civil Angolana também trouxe mais imigrantes para o Vale do Itajaí na condição de refugiados. No total, 53 pessoas de oito famílias, a maioria crianças, viajaram em quatro barcos de pesca até Itajaí. Eles saíram de Baía Farta, na cidade angolana de Benguela em 5 de novembro de 1975, e, cinco dias depois, aportaram em Walvis Bay, na Namíbia, saindo de lá em 31 de dezembro de 1975, numa viagem que durou 19 dias até o litoral catarinense.
João de Deus Peixoto Brito (58) saiu de Angola com 14 anos. “Na minha idade foi muito difícil deixar o país onde nasci, pois tive que largar meus estudos, deixar meus amigos, minha casa, meu canto. Durante o dia da nossa saída, a tensão era grande, todos correndo de um lado para o outro, nervosos, com medo porque a cidade estava cheia de tanques de guerra e tropas de guerrilhas. Mas, ao anoitecer, o plano para fuga traçado pelos nossos pais deu certo”, relata. João voltou 30 anos depois à terra natal e, hoje, preside a Associação dos Naturais e Amigos de Angola (Anang) em Itajaí.

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Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog
Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen




