Parte 3 – Além das barreiras: a saga do professor

Fluente em oito línguas, Leonel Joseph foi contratado para ensinar português aos seus conterrâneos

Em pouco mais de um mês, Leonel Joseph aprendeu a língua portuguesa. O haitiano chegou, no Acre, em março de 2011. Pela facilidade em aprender idiomas, bastou o convívio com brasileiros para conseguir compreender o português. Ele é professor de linguística e fluente em oito línguas.

Em fevereiro de 2012, onze meses depois de chegar ao Brasil, Joseph foi contratado como professor de português para outros 17 conterrâneos que vieram trabalhar na construção civil em Navegantes — cidade localizada no litoral catarinense. Foi na empresa que conseguiu ajuda para procurar emprego nas escolas de idiomas da cidade. Formado na República Dominicana, atualmente o haitiano é contratado por uma editora de Missouri, nos Estados Unidos, para a tradução de livros do inglês para o português. A renda é complementada com as aulas particulares de inglês ministradas por ele. 

Leonel Joseph é fluente em oito línguas e sonha em constuir um futuro melhor no Brasil | Foto: Artur Bezerra

Questionado sobre preconceito, Leonel diz não ter vivenciado situações assim, mas quando presidia a Associação dos Haitianos de Navegantes recebeu muitos relatos de casos de racismo cometidos contra seus conterrâneos e que, infelizmente, ainda são comuns. Um fato recente aconteceu com um amigo durante entrevista de emprego. “Quando ele chegou na entrevista, falaram: se você é negro, não. Falaram na cara dele. Ele não sabia o que fazer e deixou passar”. A associação tem um advogado e  presta apoio jurídico em casos como esse.


“Quando ele chegou na entrevista, falaram: se você é negro, não. Falaram na cara dele. Ele não sabia o que fazer e deixou passar”

O sonho do diploma

Formado em Engenharia de Telecomunicação na República Dominicana, Claudin Jacques conta que veio ao Brasil com o objetivo de fazer um mestrado, na mesma área, na Universidade Regional de Blumenau (Furb). A chegada no país apresentou barreiras. Jacques não conseguiu recursos para pagar o tradutor juramentado do diploma, que cobrava em torno de R$ 1 mil, e nem para a revalidação do título de graduação, que custa cerca de R$ 2,5 mil. A revalidação é uma exigência do Ministério da Educação e feita por universidades públicas como a Furb. O engenheiro conseguiu apenas o reconhecimento do diploma do ensino médio. Dessa vez, recebeu ajuda de uma amiga que não cobrou pelo serviço de tradução.  Em 2014, começou o curso de Relações Internacionais da Univali.

Claudin é um dos primeiros haitianos a se formar em uma universidade catarinense | Foto: Artur Bezerra

Para conseguir se manter financeiramente e pagar os estudos, trabalhava em um supermercado. Mesmo falando inglês e espanhol, mas sem fluência em português à época da graduação, enfrentou dificuldades na busca por estágios. Nos últimos dois anos do curso, recebeu uma bolsa carência de 50% oferecida pela universidade. Também foi nesse período, que Jacques conseguiu materializar um sonho. Com R$ 3 mil, da rescisão do contrato de trabalho no supermercado, resolveu empreender. 

Imagem: Reprodução site NSC Total

Em 2016 abriu uma agência de viagens que atende, principalmente, haitianos em uma pequena sala comercial com dois computadores, duas mesas, cadeiras e cartazes com fotos do Haiti e frases em crioulo. Também é correspondente de uma empresa que faz remessas de dinheiro de imigrantes para os familiares no Haiti. No fim de 2018, empresário e já casado, Jacques concluiu a graduação e viu sua conquista estampada em importantes meios de comunicação de Santa Catarina. Em uma das manchetes, publicada no portal do maior veículo de comunicação do Estado, a NSC, afiliada da Rede Globo, Jacques foi reconhecido como o primeiro haitiano a se formar em uma universidade particular em território catarinense.

Sonhos interrompidos

Foi preciso se mudar de Navegantes para não esbarrar, mais uma vez, com um dos assassinos do marido. Morando em Itajaí, a paraense Vanessa Nery Pantoja revive, diariamente, o dia 17 de outubro de 2015. Já era noite quando o marido, o haitiano Fetiere Sterlin, foi morto com facadas. O casal, que aproveitava o sábado de lazer, estava junto com três primos de Sterlin e caminhavam para a inauguração de um bar no bairro onde moravam.

Fatiere foi assassinado em 2015. A maioria dos homens que participaram de seu assassinato estão em liberdade | Foto: Arquivo pessoal

Os planos foram interrompidos por três jovens menores de idade, um deles autor do crime. Na medida em que Vanessa, o marido e os outros haitianos andavam eram seguidos e xingados. Ela lembra dos gritos provocantes e de frases que ainda ecoam em sua memória. “Voltem para a terra de vocês, vocês não são daqui”. “Vocês são macici”. Traduzido do crioulo, macici significa homossexual.

No caso de Sterlin, por alguns momentos, os insultos pareceram ter fim quando os jovens se afastaram. Mas, a história não poderia ter terminado pior. Depois de algum tempo, Vanessa conta que eles voltaram em dez adolescentes e um maior de idade, e continuaram com as provocações. O embate verbal partiu para o físico e resultou em nove golpes de faca. Sterlin, que se tornou o alvo dos onze homens, morreu nos braços da esposa.

Além de vivenciar o crime, os dias seguintes foram difíceis para Vanessa, responsável pela liberação do corpo e pelo enterro, trâmites que necessitavam autorização de um parente de primeiro grau. Os dois não eram casados no civil, por isso a família de Sterlin, que mora nos Estados Unidos, precisou enviar uma autorização. O sepultamento só aconteceu depois de uma semana. A empresa onde o haitiano trabalhava se mostrou prestativa por conta de sua boa conduta como funcionário e custeou o sepultamento.

O júri popular ocorreu em 3 de julho de 2017, e o denunciado, maior de idade, foi reconhecido por Vanessa e condenado à pena de vinte e três anos, um mês e dez dias de reclusão, em regime inicial fechado. De acordo com o Ministério Público de Santa Catarina, o processo tramitou em segredo de justiça. Segundo o promotor público à época, André Braga de Araújo, que hoje atua em Joinville, a denúncia foi oferecida como furto. Os menores de idade que participaram do crime, incluindo o responsável por esfaquear o haitiano, foram recolhidos para cumprir medidas socioeducativas e estão em liberdade.

Vanessa lutou para que o crime fosse qualificado como racismo e xenofobia. Pela repercussão nacional, Dilma Rousseff, presidente à época, o Ministério da Justiça e a Embaixada do Haiti no Brasil manifestaram notas de pesar. Hoje, ainda abalada com a morte do marido, Vanessa lembra de Sterlin como um homem feliz, cativante e responsável. “Torço para casos como esse não se repetirem e que a intolerância racial seja uma barreira a menos para os haitianos.”



“Torço para casos como esse não se repetirem e que a intolerância racial seja uma barreira a menos para os haitianos.”

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Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog

Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen

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