Parte 1 – Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses

Desde 2012, haitianos chegam na região do Vale do Itajaí, Santa Catarina, em busca de melhores condições de vida

Falando somente crioulo, um dos idiomas oficiais do Haiti — o segundo é o francês — e sem conhecer a língua portuguesa, haitianos deixam o país de origem em busca de melhores condições de vida em Santa Catarina. O Estado, localizado no Sul do Brasil, já viveu intensos fluxos imigratórios de diversos povos, como açorianos, alemães e italianos desde o século XVIII e, atualmente, vivencia a chegada de imigrantes haitianos. No novo lar, apesar das poucas políticas públicas dos municípios, os imigrantes encontram uma rede de apoio formada pela comunidade haitiana e, também, por brasileiros. Mas, mesmo em melhor situação do que a vivenciada em seu país de origem, na nova realidade os haitianos enfrentam, diariamente, várias barreiras:  dificuldade de inserção social, a saudade de casa e, a principal delas, a falta de domínio do português que dificulta a integração com a comunidade local e a inserção no mercado de trabalho. O preconceito também é um desafio a ser vencido, não só nas comunidades onde vivem, mas, algumas vezes, nas empresas contratantes. Há falta de cumprimento das leis trabalhistas, por exemplo, em caso de demissão. “Se contratarmos o advogado para pedir todos os direitos do haitiano, o chefe nos chama e diz que vai demitir todos os haitianos que trabalham na firma”, relata o professor brasileiro João Edson Fagundes, diretor da Associação dos Haitianos de Navegantes — litoral catarinense. 


“Se contratarmos o advogado para pedir todos os direitos do haitiano, o chefe nos chama e diz que vai demitir todos os haitianos que trabalham na firma”

A bandeira do Haiti foi criada durante a revolução dos haitianos contra os franceses e passou a ser adotada como símbolo do País em 1986

As poucas oportunidades de emprego no Haiti ­— país caribenho distante cerca de seis mil quilômetros do Brasil, são notadas mesmo antes do terremoto ocorrido em janeiro de 2010. Desde a independência, em 1804, o Haiti enfrenta diversos problemas políticos e econômicos — consequência da má administração pública e de conflitos internos. A situação afeta diretamente as classes mais pobres, que vivenciam, no cotidiano, a fome e a falta de recursos básicos como saúde e educação. E são justamente essas dificuldades enfrentadas no país de origem que estimulam os haitianos a buscarem outros lares, mesmo diante das baryè, que traduzida do crioulo significa ‘barreiras’.

A maior das barreiras, o idioma, além de dificultar na busca por trabalho, se torna obstáculo para a comunicação, o que provoca o isolamento dos imigrantes, limitando-os a seu próprio grupo. Marie Lourdes, Monica Lucien, Jodelain Luzard, Magdala Pascal e Morantus Juanas são apenas algumas haitianas que chegaram ao Brasil no último ano e não conseguiram trabalhar por desconhecerem a língua portuguesa. Desde que chegaram ao País, as imigrantes estudam português na Associação de Haitianos de Blumenau semanalmente. Ainda assim, não ultrapassaram a barreira do idioma.

O idioma é a principal barreira enfrentada pelos haitianos que chegam no Brasil | Foto: Artur Bezerra

Professores viram operários em obras, costureiras viram faxineiras, engenheiros trabalham limpando peixe. Estes são imigrantes que, mesmo tendo formação em uma profissão, acabam aceitando empregos em empresas de limpeza e conservação, construtoras, supermercados e na indústria de manufatura de pescado que, apesar de não atender as expectativas ao chegarem no novo lar, possibilitam uma renda. Além da subsistência no novo país, parte do dinheiro que ganham é enviada para ajudar a sustentar as famílias que ficaram no Haiti ou comprar passagens para trazê-los ao Brasil. “O sonho é sempre maior e melhor do que a realidade. Embora a fortuna, muitas vezes, não é alcançável, a vida aqui é melhor do que a deixada na terra natal”, diz o professor Luiz Nilton Corrêa, Doutor e Mestre em Antropologia pela Universidade de Salamanca na Espanha. 

Família Reunida

Após quatro anos, Sylvie Auguste e Kenold Noelcius reuniram novamente a família, trazendo as filhas para viver no Brasil | Foto: Artur Bezerra

Depois de trabalhar mais de quatro anos para juntar dinheiro, Sylvie Auguste e Kenold Noelcius finalmente trouxeram as filhas, Kednaylande (15) e Djouberkie (10), do Haiti para o Brasil. Mas, isso só foi possível devido à ajuda de pessoas que moram na região do Vale do Itajaí e se sensibilizaram com a história do casal, que foi divulgada nas redes sociais e em reportagens feitas por veículos de comunicação locais.

Para ajudar Sylvie e Kenold, foram feitas ações beneficentes para arrecadar recursos, como a vaquinha eletrônica feita por alunos do curso de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Com a ajuda, o casal, que ficou longe das filhas por mais de quatro anos, pode abraçá-las novamente. A família ainda ganhou mais uma integrante, uma das sobrinhas de Sylvie, Chenica Constance (22).

Uma data que ficará na história da família é 8 de outubro de 2019, quando as meninas chegaram em Itajaí. Mas, até aterrissarem no Aeroporto de Navegantes, o mais próximo de onde a família vive, foi preciso ainda percorrer um longo caminho e muitos desafios. Encarregado de buscar as filhas no Haiti, Noelcius conta que, ao chegar no antigo lar, viu o país de origem em mais um conflito que dificultou a viagem. As manifestações se intensificaram na sexta-feira, 10 de outubro de 2019, três dias depois da saída da família do Haiti. De acordo com a agência Associated Press, os manifestantes intensificaram os protestos por causa do atentado a um jornalista. A população ainda quer a renúncia do presidente Jovenel Moïsi por causa corrupção, inflação de 20% ao ano, escassez de combustível e alimentos. Até o fechamento desta reportagem, os conflitos continuavam no Haiti

Noelcius encontrou as filhas e a sobrinha em Cabo Haitiano e, juntos, seguiram para Porto Príncipe, capital do Haiti. Devido aos conflitos internos, demoraram dois dias para percorrer a distância de 240 quilômetros entre as cidades, trajeto que se faz, normalmente, em quatro horas. Para chegar ao aeroporto de Porto Príncipe e pegar o voo até a Cidade do Panamá, a família teve que ser escoltada por policiais na rua de acesso ao terminal de passageiros. No caminho, viram pessoas com armas e pedras protestando contra o governo.

Da Cidade do Panamá voaram para Georgetown, na Guiana, de onde partiram de ônibus até Boa Vista ­­— Roraima. Foi em território brasileiro que, pela primeira vez durante a viagem, se sentiram seguros. No embarque em Boa Vista, Noelcius soube que a empresa aérea havia antecipado a conexão de Guarulhos para Navegantes em seis horas. Logo, estavam aterrisando no litoral de Santa Catarina e, depois de quase cinco anos, a família estava unida novamente. Agora, Sylvie e Noelcius vão ter novos desafios, como procurar cursos de português e vagas em escolas para as meninas.

Sylvie Auguste é funcionária de uma empresa que presta serviço de limpeza para a Univali. A haitiana sonha em voltar a estudar | Foto: Juny Hugen

Auxiliar de serviços gerais, contratada por uma empresa que presta serviço de limpeza à Univali, Sylvie sonhava todos os dias em ter a família reunida. De sorriso cativante e olhar atento, ela ainda almeja poder sentar em uma carteira escolar para continuar os estudos, compreender melhor o idioma oficial do Brasil e ter mais oportunidades. Por enquanto, a mulher só se dedica ao trabalho.

Sylvie nasceu em Cabo Haitiano, uma cidade litorânea banhada pelo mar do Caribe, destino de férias para as classes abastadas do Haiti. É a segunda cidade mais importante do país e, embora tenha grande potencial para o turismo, oferece poucas oportunidades de trabalho para os moradores. Isto porque não há investimentos no setor — principalmente depois do terremoto no Haiti —, o que acaba impossibilitando a abertura de vagas de emprego e invalidando o potencial turístico da cidade.

As recordações de Sylvie em relação ao local refletem a miséria e a fome, que vivenciou ao longo de sua vida, consequência da situação econômica e política do Haiti. O país enfrenta problemas sociais graves, principalmente, devido à desigualdade econômica em que mais de 90% da população é pobre e não têm uma vida financeira estável. Uma das lembranças recordadas pela haitiana é a de seus pais tendo que caminhar por horas para conseguir comida. “Minha maior aflição era pensar que não teria o que comer à noite”, afirma.

“Minha maior aflição era pensar que não teria o que comer à noite”

A saga de Sylvie em busca de uma vida melhor começou em 2006. Na época, ela partiu da localidade onde morava com a filha Kednaylande, então com dois anos de idade. A vontade de mudar de realidade foi motivada pelas difíceis condições em que vivia e a falta de recursos básicos para criar um filho, como saúde e educação. O destino da haitiana foi a República Dominicana, país que faz fronteira com o Haiti e primeira parada dos haitianos que deixam tudo para trás em troca de um novo lar. Sylvie escolheu Nagua, apenas 360 quilômetros de distância de Cabo Haitiano, cidade em que poderia viver melhor e ainda visitar os familiares quando quisesse devido a pouca distância da sua cidade de origem (veja a localização no mapa abaixo). Para o sustento da família, ela vendia roupas. Logo, nasceu a segunda filha do casal, Djouberk.

Nagua é uma cidade litorânea da República Dominicana, foi a primeira cidade que Sylvie escolheu para viver ao sair do Haiti

Apesar das melhores condições, a vida ainda poderia ser mais confortável. Foi por isso que, em 2015, Sylvie deixou as filhas com a sogra e a mãe em Cabo haitiano. Ela veio encontrar o marido, que já estava no Brasil junto de outros parentes. Sylvie demorou seis dias até chegar ao destino. Veio para o Brasil de ônibus, passando pelo Chile e Argentina, antes de desembarcar em Itajaí.

A haitiana ficou desempregada por quatro meses. Neste tempo, Noelcius manteve financeiramente ambos no novo lar. A dificuldade em conseguir um emprego foi ainda maior porque Silvye não sabia português. Finalmente, conseguiu vaga em uma empresa prestadora de serviços. Ela ganha pouco mais de um salário mínimo e, até conseguir trazer as filhas para o Brasil, mandava para as meninas, mensalmente, $150,00, o equivalente a R$ 600,00. Com a chegada das filhas no Brasil, a quantia em dinheiro ainda será enviada todos os meses, desta vez para a mãe de Sylvie que está doente. 

Apenas com o seu salário e o de Noelcius, não seria possível trazer as filhas para o Brasil. Mas, a aflição de Sylvie foi notada por uma professora da Univali que iniciou, no final de 2016, uma campanha nas redes sociais e na universidade. A professora de Educação Física, Kátia Cruz, é presidente da Associação Cultural e Esportiva da instituição de ensino, próxima do setor em que Sylvie faz limpeza.

A ação de Kátia sensibilizou colegas de trabalho, algumas pessoas de fora da instituição, a imprensa local e também os alunos do curso de Relações Internacionais. Os estudantes, inclusive, cuidaram dos pedidos de visto de Kednaylande e Djouberkie, além de fazer a vaquinha online (crowdfunding), na qual 95 pessoas ajudaram. Em dois meses, mais de R$ 10 mil foram arrecadados, completados com a quantia da campanha da professora, outras doações pessoais e uma poupança de R$ 6 mil de Sylvie e Noelcius. O casal conseguiu R$ 22 mil, montante necessário para os custos da documentação, vistos e passagens aéreas das filhas, da sobrinha e de Noelcius, que saiu do Brasil para buscá-las.

Ainda adaptando-se com a língua e questionada sobre preconceito por ser negra e imigrante, a servente afirma que nunca passou por situações em que enfrentou preconceito. Sylvie também tem se acostumado com a facilidade do acesso a recursos básicos como a água encanada, que sai em abundância da torneira, e com os supermercados abastecidos. Agora a vida é só momentos a se comemorar e, de preferência, com o prato brasileiro que ela mais gosta, um bom churrasco.

Acesse a matéria completa na versão flip clicando aqui.

Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog

Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen

Destaques