“Os desafios já vêm desde que eu nasci”, afirma Marcelo Benite, 32 anos, quando um dos alunos da E.E.F. Brilho do Sol, de Tijucas, pergunta se ele precisou passar por provas para se tornar o cacique da Aldeia Tava’i, localizada no Rio da Dona, bairro rural de Canelinha. Faz doze anos que esse grupo Guarani vive na região, a maioria vindos de Palhoça, depois de conseguirem a área junto à Funai.

Quinta-feira, 25 de abril, foi um dos três dias de programação cultural que a aldeia promove anualmente em comemoração ao Dia do Índio, celebrado no dia 19. Durante esses dias, escolas da região visitam a comunidade para conhecer mais de perto, ainda que rapidamente, um pouco da cultura indígena.
Marcelo, como cacique, é o responsável por organizar as atividades, coordenar os índios que demonstram os jogos, a música, a dança e por conduzir os alunos. Está acostumado. Na hierarquia da tribo, assumiu o posto sucedendo ao pai, André Benites Vilalba, liderança indígena desde os anos oitenta e atualmente um dos líderes da aldeia Wy’a, de Major Gercino.
Na cultura indígena, o nome representa muito. É considerado parte indissociável do ser, que encarna seu significado e determina sua personalidade e função, inclusive, na tribo. Em cerimônia de batismo realizada na Casa de Reza, o pajé, em estado de inspiração divinal, o recebe do Grande Espírito. Isso acontece, geralmente, quando a criança tem cerca de dois anos de idade.
Um dos onze filhos de André e Joana, o cacique da Aldeia Tava’i recebeu a alcunha de Kuaray Papá. Numa tradução simplista significa “brilho do sol”, mas pode estender-se para alguém com capacidade de clarear os caminhos para sua gente e de exercer uma posição de liderança.
Desafios desde cedo
Antes mesmo de se dar conta disso, o pequeno Kuaray estava sendo preparado para ser cacique, de forma natural. Em 1994, sua família migrou de São Miguel das Missões (RS) – conhecida pelo sítio arqueológico São Miguel Arcanjo, em que se encontram ruínas de uma das reduções jesuíticas da Região das Missões – para a Aldeia Tekoá Itaty, no Morro dos Cavalos, em Palhoça.
Ali, presenciou o dilema da passagem da Rodovia BR-101 – e sua posterior duplicação – pela terra indígena, dividida em três aldeias. A dimensão simbólica de uma estrada que representa o avanço da sociedade branca sobre os indígenas passando pelo meio de uma aldeia pode ser apenas imaginada. Os piores efeitos disso, porém, são fáceis de mencionar: Marcelo perdeu um irmão e a avó atropelados enquanto atravessavam de um lado para outro da aldeia.

Longas discussões com a Funai levaram à liberação de parte do dinheiro de um fundo para a aquisição de uma área para onde os aldeados migrariam. A partir daí, Marcelo saiu pelo estado na companhia do pai, membros da fundação e outros índios para encontrar o lugar ideal. Percorreram cidades do oeste, grande Florianópolis e do sul do estado até tomarem conhecimento de uma fazenda de leite desativada que estava à venda.
“Aqui é Tava (templo, lugar sagrado, morada de sacerdotes)”, foi o que o pai de Marcelo disse quando chegaram à propriedade onde hoje está a aldeia. O sufixo “í” – Aldeia Tava’i – representa uma dimensão divina e o sentimento de afeição pelo lugar. “Sentimos que tinha um espírito bom”, lembra. Era abril de 2007 quando cinco famílias se mudaram para o local. Arraigados ao chão das aldeias de Palhoça, muitos não aceitaram a mudança. A família Benite, por exemplo, dividiu-se no processo. Atualmente, a comunidade é formada por 60 pessoas de 16 famílias.
Na mitologia indígena, eles sempre estiveram em busca da terra sem males, o que explica suas migrações constantes ao longo do tempo. Marcelo não acredita mais que se possa encontrá-la, diante da dominação da modernidade. Crê, portanto, que a adaptação é inevitável e que o melhor a ser feito é proteger a essência inalcançável do espírito do índio e o lugar protegido em que vivem, dando melhores condições de vida ao seu povo. “O meu legado é estruturar a aldeia”, assegura.






