As asas de foguetinho

Susana

Ex-atleta de dardos, Susana agora é goleira da seleção paralímpica de handebol

Susana Cristina da Silva nasceu em Blumenau – Santa Catarina e, aos 3 anos, devido à separação dos pais, se mudou para Itajaí. Se interessou desde a infância por esportes. Ainda na 5ª série, representava a escola em diversas modalidades esportivas, como corrida, handebol, basquete e voleibol. Também competia pela Combemi (Comissão do Bem-Estar do Menor de Itajaí), que frequentava no contraturno escolar.

Em 1999, Susana teve contato com o esporte que fez carreira até 2004, depois de um remanejamento de atividades por iniciativa do professor – lançamento de dardos. Nessa época, ficou em terceiro lugar na competição, sem entender quase nada do esporte. Após esse campeonato, foi chamada para uma iniciativa da Fundação Municipal de Esportes de Itajaí que tinha o objetivo de descobrir novos atletas para representar o município.

A atleta conta que essa foi a primeira lição de que ficar em primeiro não significa ter a melhor oportunidade, já que nesse projeto ela recebeu a oportunidade mesmo ficando em terceiro. “O que eles buscavam era alguém com potencial e vontade para desenvolver isso”, explica ela.

A partir daí, dedicou-se totalmente ao esporte. Ia a pé para os treinos até ganhar bolsa atleta. Com o valor simbólico, pôde comprar uma bicicleta parcelada para ir aos treinos, na chuva ou no sol. No terceiro ano do ensino médio, chegou a mudar o turno das aulas para noturno para poder se dedicar integralmente aos treinos. Nessa época, Susana já havia evoluído muito e pensava em ascender profissionalmente. Havia ficado em primeiro lugar na categoria adulto, na categoria juvenil era a melhor do estado, tinha ido duas vezes para a competição mais importante da modalidade: o Troféu Brasil de Atletismo.

No ano em que sofreu o acidente, foi a primeira atleta do estado a fazer o índice para ser chamada pela terceira vez para essa competição. Estava no auge, colhendo os 5 anos de treino e determinação. Susana relembra que ia na biblioteca, ao longo dos anos de treino, estudar livros de psicologia para aprender a lidar com as derrotas e pensar de forma positiva, pois não bastava treinar apenas o físico.

E aí o acidente aconteceu. “Foi muito difícil lidar com o acidente porque ele quebrou todo um ciclo. Eu estava com 19 anos, preparada fisicamente e psicologicamente e havia encontrado a minha técnica de lançamento. Então, era questão de colher os frutos”, conta Susana.

O acidente que deixou a atleta paraplégica foi durante o treino na academia, fazendo um exercício de agachamento. Com 192 kg em uma barra apoiada nos ombros, ela foi terminar os exercícios e colocar a barra de volta no suporte, mas os ganchos travaram. Susana estava sozinha no momento e não conseguiu soltar o equipamento, então caiu. O peso quebrou sua coluna em várias partes, lesionando a medula, que causou a paraplegia.

Descobrir que existia uma vida após a paraplegia não foi fácil, ainda mais para quem dedicava a vida ao esporte. A aceitação foi uma parte complicada e demorada. “Foi como se eu tivesse que começar do zero, que descobrir, reinventar a Susana”. Depois de ter passado pela turbulência, de ter negado, se desesperado e pedido para morrer, percebeu que ia ter que viver o resto da vida na cadeira de rodas e se preocupou principalmente em ser independente, não ser um fardo para ninguém.

A partir desse momento, Susana quis saber como ter uma vida depois do acidente e foi até o hospital referência em reabilitação em Belo Horizonte, Hospital Sarah Kubitschek. Lá, aprendeu muitas coisas, mas o que ajudou Susana a retomar sua vida foi quando aprendeu a empinar. “Empinar te permite subir meio fio, passar por buracos. Caí alguns tombos, faz parte, mas realmente aceitar que eu estava paraplégica e que existia vida após esse processo foi mesmo na transição de aprender a empinar”.

“Foi como se a vida tivesse ganhado brilho novamente. A gente precisa de liberdade, nem sempre quem anda é uma pessoa livre. Muita gente acha que quem está preso numa cadeira de rodas está preso, quando na verdade é mais livre do que uma pessoa que tem o pensamento preso”.

DE VOLTA AO MUNDO DO ESPORTE

Depois do acidente, ela conta que não gostava nem de ouvir falar em esporte, nem em paradesporto (esporte paralímpico). Apenas em meados de 2006 que sentiu falta do esporte na sua vida e decidiu encarar a modalidade adaptada do lançamento de dardos. Gostou, mas foi um pouco decepcionante, pois estava acostumada a usar 100% do seu corpo, e a falta disso resultava em um desempenho inferior. “Foi muito difícil aceitar lançar daquela maneira, não ter mais aquela explosão que tinha antes. É uma coisa mais parada, mais contida”.

O dardo não tocava mais Susana. Então iniciou a busca por um esporte que a completasse. Fez arremesso de peso, experimentou disco, além do dardo. Resolveu que não queria mais participar de esportes em competições e deu uma pausa. Foi para a academia de musculação e decidiu experimentar uma série de modalidades: raft, vôlei de praia, mergulho, salto de parapente, corrida… “O que eu precisava que o esporte sempre me proporcionou: essa liberdade do corpo, de se sentir, de viver, era disso que eu gostava”.

Foi nessa vida de experimentar tudo que se deparou com o handebol no início de 2018. Nas redes sociais, descobriu a professora de educação física Gevelyn Almeida, que é paraplégica e técnica da Fundação de Esportes de Balneário Camboriú. Elas se conheciam e Gevelyn já havia convidado Susana para competir na modalidade de atletismo na época e Susana havia rejeitado. Então, se deparou com um vídeo que a técnica havia postado do time jogando: “Eram uns meninos em quadra treinando, mandei uma mensagem inbox no Facebook dela falando que queria experimentar, se eu podia ir. Ela aceitou”.

Susana só havia experimentado o handebol na escola, antes de ter contato com o atletismo. Quando experimentou o esporte na cadeira de rodas, achou dinâmico e estratégico. “Parece um jogo de xadrez na cadeira de rodas”, destaca a atleta. Conheceu o esporte em um sábado de manhã e não faltou a mais nenhum final de semana. Quando estava com mais ou menos dois meses de treinamento, foi inscrita na equipe de Balneário e no ICED (instituto Catarinense de Esportes para Deficientes), seu clube do coração. Logo na primeira competição que disputou, no Paraná, foi destaque como 3ª melhor atleta do campeonato, treinando durante apenas 2 meses aos finais de semana.

O treino continuou e então a Federação de Handebol decidiu trazer o treinamento feminino da seleção brasileira para Balneário Camboriú em setembro. Nesse treinamento, aperfeiçoou técnicas, aprendeu coisas novas e até foi orientada a se posicionar como goleira. “Só que não era simplesmente defender o gol, eu sou goleira, mas também trabalho para fazer gol no adversário. Entro como uma estratégia surpresa, chego numa hora que ninguém espera porque eu sou uma atleta veloz”.

Susana já havia passado pelo treinamento de goleira junto com a técnica e tinha detestado, justamente por ficar parada esperando algo acontecer. Mas na seleção seria algo diferente. A seleção deixou claro: “A gente vai trabalhar em você como goleira porque a gente precisa dessa velocidade e a gente precisa também que você faça gol, mas que você volte também para defender”.

Susana destaca sua luta e dedicação, mas jamais imaginou assumir a posição de goleira e ainda por cima se destacar nessa função. “Foi um momento de aprendizagem muito importante, conhecer outros atletas, profissionais extremamente capacitados, competentes, que conseguem observar onde você precisa melhorar. Foi uma experiência muito gratificante”.

Depois desse treinamento, Susana conseguiu uma vaga para a Seleção Brasileira de Handebol. A vaga vai permitir representar o Brasil nos Jogos Para-Pan que serão em 2019 na cidade de Lima, no Peru, e no Mundial em 2020, que ainda não tem sede definida. Essa vaga não é permanente, precisa ser mantida. Serão feitos treinos itinerantes para observar o progresso de cada atleta. Se não houver evolução, é possível perder a vaga para outro atleta. “Eu estou bem feliz em estar de volta ao esporte em uma modalidade diferente e competitiva”.

Fazia mais de uma década que Susana não competia. Agora, tem uma vaga na seleção. Ter sua vida marcada pelo esporte, seja da forma convencional como estava acostumada ou depois do acidente, com um novo olhar, novas possibilidades. Susana sempre teve dentro de si uma alma esportista, um jeito atlético de ser e, mesmo que tentasse se esquivar disso por um período, no fundo ela sabia que havia nascido para voar em quadra.

Toda sua história e trajetória, a maneira de lidar com tudo que passou ela nos conta ser baseada no princípio de Stephen Covey, que diz: “Os 10% da vida estão relacionados com o que se passa com você, os outros 90% da vida estão relacionados com a forma como você reage ao que se passa com você. O que isto quer dizer? Realmente, nós não temos controle sobre 10% do que nos sucede. Não podemos evitar que o carro enguice, que o avião atrase, que o semáforo fique no vermelho. Mas, você é quem determinará os outros 90%”.

Baseando sua vida nesse princípio, Susana encara bravamente os 10% que lhe foram destinados, mas faz de seus 90% uma lição de vida. Dia após dia se permite viver, aprender e ensinar tudo que já lhe foi mostrado. Se deixa levar pelas oportunidades que aparecem e mostra que você não é só mais um. Graças ao esporte, hoje ela possui várias facetas que a permitem colorir a vida como bem entender. “Não é a cadeira que vai me limitar, pelo contrário, eu voo junto com ela. Foi por isso que ganhei o apelido Foguetinho”.

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