SOFIA

Por: Gabrielle Rudolf

Um sorriso no rosto e uma presença que se anunciava antes mesmo de qualquer palavra. Nas noites de luzes baixas e músicas altas, Sofia já garantia sua comissão vendendo bebidas e fichas de sinuca, era ali que ela se apresentava.

Sofia, seu nome da noite, sabe como puxar assunto até com os mais tímidos, usa saltos brancos, um mini short preto e top decotado da cor da paixão. Mas o que realmente chama atenção são os detalhes: unhas longas e bem extravagantes, cílios produzidos e o tom alaranjado vibrante do cabelo.

Para conquistar os clientes, ela usa uma arma sutil, os apelidos carinhosos. “Amor”, “vida”, “querido”. Uma performance treinada para a arte da ilusão. Aos 19 anos, é irmã mais velha de oito e já fala com a postura de quem carrega muito mais. Vive entre duas rotinas: na casa da mãe, em Governador Celso Ramos, apenas às segundas e terças; no restante da semana, se divide entre os dormitórios compartilhados e o salão da casa noturna onde trabalha e onde também mora.

Mas Sofia tinha um diferencial das demais meninas: seu vínculo com a dona da boate, conhecida popularmente como Estrelinha. A relação de tia e sobrinha parecia, de fora, oferecer vantagens. Na prática, o cenário era outro.

Estrelinha é uma ex-detenta, presa por tráfico de drogas, e tem histórico de comportamentos agressivos e abusivos com as meninas do local. Impunha multas e dívidas como forma de manter as garotas sob controle, além de demonstrar crises de ciúmes ligadas ao mais novo namorado. No entanto, durante as noites que se fazia presente no salão, interagia com os clientes e mantinha uma imagem controlada.

Em uma de nossas visitas à casa, Estrelinha se aproximou enquanto jogávamos sinuca, orgulhosa ao comentar o talento da sobrinha no jogo. Falou também sobre o filho de 16 anos, que trabalhava no bar e aprendeu a jogar em duas semanas com Sofia. Em tom de segredo, cochichou ao meu ouvido o “truque” da garota para vencer os adversários: a arte de “sinucar” — termo usado por ela para descrever o jeito sedutor de distrair o oponente.

Apesar da familiaridade, a relação entre Sofia e Estrelinha teve um fim conturbado. Sofia, que costuma circular entre diferentes casas em busca de melhores lucros, rompeu com a “Casa 7 Mulheres” após um episódio tenso. A tia, por ter liberdade maior, insinuou que Sofia “fugia” dos serviços de limpeza. Em um ambiente onde as garotas acumulam funções e são responsáveis por manter os banheiros e o salão limpos (muitas vezes em condições precárias), a cobrança soou como desrespeito. Sofia, já irritada com as constantes reclamações das colegas, retrucou: “estavam ali para se prostituírem, não para serem faxineiras”. A discussão escalou. Houve troca de gritos, e há relatos de possíveis agressões não confirmadas. Foi a gota d’água! Sofia esperaria a garantia de receber o pagamento que era dela de direito, e se despediria do prostíbulo.

Hoje, o futuro de Sofia ainda é incerto. Atualmente, atua como gerente em uma casa noturna de sua cidade natal, mas sonha em seguir na área do Direito. Nas redes sociais, ela se expõe com cautela, vendendo sua imagem, seus pensamentos e detalhes da rotina. Entre as colegas, é lembrada como conselheira, alguém que encontra as palavras certas mesmo nos dias difíceis. Seu otimismo, dizem ser sua maior arma nessa rotina nem sempre fácil.

E assim, entre saltos altos, fichas de sinuca e pequenas conquistas silenciosas, Sofia segue escrevendo a própria história. O que vem depois? Só ela pode dizer.