Quando o luto vira criação

Mulheres que transformam a dor em arte

Introdução

A perda de alguém importante costuma deixar marcas que vão muito além da saudade. Para algumas mulheres, no entanto, a arte e os trabalhos manuais acabam se tornando uma forma de reorganizar a rotina e encontrar um novo significado para a dor. Entre linhas, tintas, tecidos ou materiais recicláveis, elas descobrem um espaço para expressar sentimentos que, muitas vezes, não conseguem traduzir em palavras.

Embora cada pessoa vivencie o luto de maneira diferente, especialistas apontam que atividades criativas podem contribuir para esse processo ao ajudar a direcionar a atenção para o presente e aliviar a sobrecarga emocional. Em histórias marcadas por perdas, a criação artística deixa de ser apenas um hobby e passa a representar um caminho de reconstrução, sem apagar a ausência de quem partiu, mas tornando possível seguir em frente.

Robôs Adoráveis no ateliê

Por que falar de mulheres?

O luto não pertence a um gênero. Mas a forma como ele é vivido, falado e acolhido também passa pela cultura.

Esta reportagem escolhe olhar para mulheres não porque elas sofram mais, nem porque os homens não vivenciem perdas profundas. O recorte nasce das histórias encontradas durante a apuração: mulheres que transformaram a ausência em criação, que buscaram no trabalho manual uma forma de ocupar as mãos, reorganizar a rotina e dividir a dor com outras pessoas.

Na escuta com a psicologia, o luto aparece como uma experiência singular. Cada pessoa sente de um jeito, a partir da própria história, dos vínculos e das crenças que carrega. Ainda assim, muitas mulheres conseguem expressar as emoções de maneira mais aberta e procuram redes de apoio, como amigas, familiares, grupos e acompanhamento psicológico.

“Não é porque a mulher se expressa e o homem não, que o sofrimento dela é maior e o dele é menor. Todo sofrimento é um sofrimento.”

Os relatos abaixo não medem o luto diretamente, nem resumem a dor de ninguém. Eles ajudam a entender o contexto em que muitas mulheres buscam atendimento, acolhimento e formas de expressar uma dor que, muitas vezes, não cabe em palavras.

O luto que virou robô

Mônica Turato transforma restos de obra, memórias e saudade em arte

História

Foto da matéria
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O luto que virou robô

Depois de perder a mãe e a irmã, Mônica Turato encontrou nos Robôs Adoráveis uma forma de continuar

Mônica Turato queria fazer alguma coisa que fizesse as pessoas sorrirem quando entrassem na casa dela. Não pensou, de início, em projeto, oficina ou exposição. Pensou em um boneco. Talvez um Frankenstein. Quando terminou a peça, feita com restos de materiais que tinha por perto, percebeu que aquilo se parecia mais com um robô.

Foi assim que nasceu o primeiro Robô Adorável.

A criação veio em um momento em que Mônica tentava atravessar a morte da mãe. Ela tinha se mudado de São Paulo para Itapema há pouco tempo, carregando a esperança de trabalhar com arte, sustentabilidade e educação ambiental. Mas as oportunidades não vieram como imaginava. Enquanto isso, acompanhava o marido na construção civil, recolhendo fios, madeiras, pregos, vidros e pedaços de materiais que sobravam das obras.

“Eu vim com a esperança de dar aula sobre os materiais que eu já trabalhava em São Paulo, que eram sobre sustentabilidade. E encontrei todas as portas fechadas.”

Seis meses depois da chegada a Itapema, a mãe de Mônica teve um AVC. Foram meses entre hospital, idas e vindas, tentativas de tratamento e medo. Depois da morte, ela voltou para o litoral catarinense com uma culpa difícil de carregar.

“A culpa, a morte sempre te traz uma culpa. Independente de como isso aconteça, você sempre acha que poderia ter feito mais.”

Para não ficar sozinha com a dor, Mônica passava muito tempo dentro das obras. Ali, cercada por um ambiente quase sempre masculino, começou a olhar com mais atenção para aquilo que seria descartado.

“Era uma mulher dentro de uma obra completamente masculina. E esses objetos eu falava: ‘Que coisa, né? Vou jogar tudo isso no lixo?’”

Aos poucos, o que era sobra virou matéria-prima. Uma mangueira rachada, um pedaço de madeira, fios, pregos e objetos encontrados na praia passaram a ser guardados. Não havia ainda um destino certo para tudo aquilo. Até o dia em que ela quis criar algo para a própria casa.

“Eu queria fazer algo que as pessoas entrassem na minha casa, olhassem para o objeto e sorrissem.”

Depois do primeiro robô, Mônica mandou uma foto para uma amiga artista plástica. A resposta veio como incentivo.

“Ela falou: ‘Meu Deus, você descobriu algo muito diferente, muito bacana que vai encantar as crianças’.”

Mônica continuou. Um robô puxou outro. Depois outro. O trabalho manual passou a ocupar as mãos e a cabeça. Não apagava a perda, mas dava algum lugar para ela existir.

“Cada robô foi como uma etapa de cura. Era o que eu precisava pra continuar.”

Com o tempo, os Robôs Adoráveis ganharam nome, corpo e espaço. Durante a pandemia, a produção cresceu ainda mais. Sem a rotina de antes, Mônica passou horas no ateliê criando personagens. As peças começaram a aparecer no Instagram, chegaram as encomendas e o projeto ficou mais conhecido.

Mas a relação dela com os robôs nunca coube só na venda.

Cada peça nasce de um resto, mas também de alguma lembrança. Alguns materiais ficam guardados por meses até encontrarem seu lugar. Outros parecem indicar o caminho sozinhos. Para Mônica, a criação acontece assim, sem pressa, como se cada robô fosse montado também por dentro.

“Às vezes, é o lixo que inspira”, diz.

Na Casa Secreta dos Robôs Adoráveis, no bairro Morretes, em Itapema, os robôs ocupam prateleiras, paredes e cantos do ateliê. Têm olhos, expressões, pequenas marcas. À primeira vista, parecem brinquedos. Mas, quando Mônica começa a contar as histórias, fica claro que eles falam sobre coisas mais fundas.

Uma das peças mais importantes é a robô Pan, criada durante a pandemia. A cabeça presa em uma gaiola representa o confinamento daquele período e também a vida dos animais em cativeiro. No corpo, aparecem elementos ligados à natureza.

“Aqui está a natureza livre, como tem que ser”, explica.

Outra criação marcante é Teresa, uma manequim feita com materiais reaproveitados. O nome homenageia a madrinha de Mônica, que dizia, quando ela ainda era criança, que um dia ela seria artista. A peça mistura plástico, embalagens, rede de pesca e memória.

No ateliê, Teresa também representa uma presença. Mônica fala das mulheres da família que já partiram como quem ainda conversa com elas de alguma forma. A mãe, a irmã, a tia, a madrinha. Todas aparecem, direta ou indiretamente, no que ela cria.

O luto voltou a atravessar a vida de Mônica com a morte da irmã. Dessa vez, a dor veio de outro jeito. Ela se fechou no ateliê por três meses e produziu quase 30 robôs, um número alto para peças que costumam demorar muito tempo até ficarem prontas.

“A primeira semana você acha que está sonhando, a segunda semana você nega, a terceira semana você chora que a dor não cabe no peito. É um processo longo, dolorido e que precisa de muito respeito.”

Mônica também entendeu que criar ajudava, mas não resolvia tudo. Procurou acompanhamento psicológico e começou a escrever sobre o que sentia. Escreveu o que não conseguiria dizer para ninguém, os detalhes da dor, as perguntas sem resposta, a culpa.

“Escrever foi uma coisa muito importante para mim. Colocar isso realmente no papel.”

Ela não fala sobre luto como algo que passa. Fala como algo que muda de lugar. Em alguns dias, pesa mais. Em outros, deixa caminhar. A criação não aparece como cura milagrosa, mas como uma forma de continuar vivendo com aquilo que ficou.

“O luto nunca vai embora.”

Hoje, os Robôs Adoráveis também chegam às escolas. Mônica leva materiais reaproveitados, orienta as crianças na montagem das peças e, no fim, organiza pequenas exposições com o que elas criaram. A educação ambiental está presente, mas entra pelo encantamento. A criança começa brincando e, quando percebe, já está pensando sobre lixo, descarte, praia e cuidado com o mundo.

“Levo as oficinas, as crianças criam seus próprios robôs, cortam, montam… Eu levo todo o material. No final, a gente faz uma mini exposição. É uma diversão.”

O projeto, que começou dentro de um processo íntimo de dor, hoje também virou uma forma de deixar uma marca. Mônica quer que os robôs falem sobre meio ambiente, mas também sobre permanência. Sobre o que pode nascer mesmo depois de uma perda. Sobre o que ainda pode ser feito com aquilo que parecia não ter mais lugar.

“Eu quero que a morte me encontre viva”, diz.

Talvez seja isso que os robôs guardem de mais forte. Eles são feitos de coisas deixadas para trás, mas não terminam no abandono. Ganham corpo, nome, expressão. Continuam.

Como Mônica.

“Porque é lixo, mas é arte também. É transformação.”

Quando a dor vira criação

Mulheres que transformam luto em arte

Imagem do grupo de trabalhos manuais

A dor não escolhe endereço, mas no Centro de Atenção Psicossocial, ela encontrou um espaço de acolhimento e transformação. Foi lá que a psicóloga Angela Rech, técnica responsável pelo projeto Trabalhos Manuais, viu a oportunidade de transformar a própria vivência de luto em uma ferramenta de cuidado coletivo.

“Foi uma forma de extravasar o sentimento em relação à perda do meu pai e transformar a realidade de vida de muitas pessoas.”

Para as pacientes do CAPS, que muitas vezes chegam em momentos de intenso sofrimento e quadros depressivos severos, as agulhas e os fios oferecem mais do que uma distração. O trabalho manual devolve a elas a autonomia e a capacidade de enxergar beleza naquilo que são capazes de produzir. É um processo de materializar a superação.

“O paciente vê o resultado do trabalho dela, daquilo que ela fez, do tempo que ela se dedicou, e consegue transformar o sofrimento, a dor, a perda, o luto em algo palpável, visível.”

As histórias de evolução dentro do projeto provam que o impacto do artesanal vai muito além das peças finalizadas. Angela relembra a trajetória de Marcela, nome fictício, uma paciente que chegou ao serviço com depressão gerada por traumas no ambiente de trabalho. Em vez de se prender aos tradicionais tapetes, Marcela desafiou a si mesma criando flores e plantas de crochê. O orgulho pelas próprias peças ajudou no seu processo de alta, e hoje ela não apenas mantém sua saúde mental equilibrada, como exibe sua arte em feiras locais.

Ainda mais profunda é a história de uma senhora de mais de 60 anos que buscou o CAPS após uma tentativa de suicídio, motivada pela perda trágica do neto mais velho. Imersa no luto, ela duvidava de que conseguiria aprender algo novo. No entanto, com a ajuda e a paciência de outra paciente do grupo, dominou os fios de malha e o barbante.

Mais do que decorar sua casa com as novas peças, ela teceu uma nova rede de apoio. Ao adquirir confiança, passou a ensinar o ofício a uma vizinha adoecida, provando que o cuidado, assim como a arte, pode ser compartilhado.

O projeto mostra que o ambiente compartilhado é, por si só, parte do tratamento. Entre uma laçada e outra, as pacientes conversam, trocam experiências e encontram apoio em quem também carrega dores difíceis de nomear.

“O grupo veio com o objetivo de ensinar algo às pacientes, ocupar a mente, ocupar as mãos e proporcionar a troca, a convivência com as outras pacientes.”

No fim das contas, entre laçadas, erros e recomeços, essas mulheres descobrem que o trabalho manual é um reflexo da própria vida. E que, mesmo diante da ausência e da dor, é possível construir algo novo, ponto por ponto.

O que a psicologia diz sobre o luto

Francielly Inocêncio explica como a rotina, a criação e o acompanhamento emocional podem ajudar nesse processo

A perda de alguém costuma reorganizar completamente a rotina de quem fica. O luto não é vivido da mesma maneira por todas as pessoas e pode provocar mudanças físicas, emocionais e sociais que interferem na forma como cada indivíduo enfrenta esse processo. Em meio às transformações provocadas pela perda, atividades manuais como crochê e artesanato ganham espaço nos dias de quem enfrenta esse processo, não apenas como hobbies, mas também como ferramentas que auxiliam a lidar com as fortes emoções despertadas neste momento.

A psicóloga Francielly Inocêncio explica que o luto é uma experiência profundamente individual, influenciada pela história de vida, pelas crenças, pelos vínculos afetivos e pelo contexto social de cada pessoa. Embora homens e mulheres possam sentir a dor da perda com a mesma intensidade, ela observa que a forma de expressar esse sofrimento costuma ser diferente.

Segundo a psicóloga, fatores culturais ainda fazem com que muitas mulheres se sintam mais à vontade para compartilhar suas emoções e buscar apoio de familiares, amigos ou profissionais, enquanto muitos homens são socialmente incentivados a demonstrar força e autocontrole. Para ela, isso não significa que um sofra mais do que o outro, mas que cada pessoa aprende, ao longo da vida, maneiras distintas de vivenciar e manifestar seus sentimentos.

Durante o período de luto, sintomas como alterações no sono, dificuldade para se alimentar, falta de concentração, ansiedade, culpa, tristeza e irritabilidade são comuns. Em meio a essas mudanças, manter uma rotina pode trazer estabilidade. Para a especialista, definir horários para atividades simples do cotidiano ajuda a direcionar a atenção para o presente e reduz a sensação de desorganização provocada pela perda.

“Quando você estabelece uma rotina, você consegue organizar aquilo que está um pouco bagunçado dentro de você. Quando você traz o pensamento para o presente, consegue se sentir parte daquele momento. Não quer dizer que, ao ocupar o seu tempo, você vai deixar de gostar daquele ente querido que partiu ou vai deixar de se importar com a situação que está acontecendo. Ao contrário: você está aprendendo a lidar com essa ausência.”

É nesse contexto que os trabalhos manuais podem desempenhar um papel importante. Ao exigir concentração, coordenação motora e repetição de movimentos, essas atividades favorecem estados de atenção plena e diminuem os níveis de ansiedade, permitindo que a pessoa encontre momentos de pausa em meio ao sofrimento.

Os benefícios das atividades manuais para o bem-estar também aparecem em pesquisas recentes. Um estudo de doutorado desenvolvido em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, pela psicóloga e pesquisadora Barbara de Marchi, identificou que a prática de artesanato com fios, como crochê, tricô e macramê, está associada a sensações de relaxamento, concentração e alegria. Segundo a pesquisa, essas atividades podem favorecer a autorregulação emocional e funcionar como um recurso complementar para a promoção da saúde mental e da qualidade de vida.

Em muitos casos, esse processo também funciona como uma forma de expressão emocional. Quando sentimentos difíceis ainda não conseguem ser traduzidos em palavras, a criatividade pode oferecer outro caminho para ressignificar a dor. No entanto, Francielly faz um alerta: o hobby deve servir como apoio ao enfrentamento do luto, e não como uma tentativa de fugir da realidade.

O equilíbrio está na forma como essa atividade é inserida no cotidiano. Segundo a psicóloga, quando a atividade passa a ser utilizada de forma excessiva e acompanhada de isolamento social, ela pode deixar de contribuir para o processo de adaptação à perda. Nesses casos, a presença de uma rede de apoio torna-se ainda mais importante.

A psicóloga também chama atenção para uma mudança na forma de compreender o luto. Em vez de falar em “superar” uma perda, a psicologia trabalha com a ideia de ressignificação. O objetivo não é apagar a dor ou esquecer quem partiu, mas aprender a conviver com a ausência sem permitir que ela determine o presente e o futuro.

Entre restos, fios, memórias e silêncios, a criação não apaga a ausência. Mas ajuda a transformar a dor em caminho.

Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.