Mônica Turato queria fazer alguma coisa que fizesse as pessoas sorrirem quando entrassem na casa dela. Não pensou, de início, em projeto, oficina ou exposição. Pensou em um boneco. Talvez um Frankenstein. Quando terminou a peça, feita com restos de materiais que tinha por perto, percebeu que aquilo se parecia mais com um robô.
Foi assim que nasceu o primeiro Robô Adorável.
A criação veio em um momento em que Mônica tentava atravessar a morte da mãe. Ela tinha se mudado de São Paulo para Itapema há pouco tempo, carregando a esperança de trabalhar com arte, sustentabilidade e educação ambiental. Mas as oportunidades não vieram como imaginava. Enquanto isso, acompanhava o marido na construção civil, recolhendo fios, madeiras, pregos, vidros e pedaços de materiais que sobravam das obras.
“Eu vim com a esperança de dar aula sobre os materiais que eu já trabalhava em São Paulo, que eram sobre sustentabilidade. E encontrei todas as portas fechadas.”
Seis meses depois da chegada a Itapema, a mãe de Mônica teve um AVC. Foram meses entre hospital, idas e vindas, tentativas de tratamento e medo. Depois da morte, ela voltou para o litoral catarinense com uma culpa difícil de carregar.
“A culpa, a morte sempre te traz uma culpa. Independente de como isso aconteça, você sempre acha que poderia ter feito mais.”
Para não ficar sozinha com a dor, Mônica passava muito tempo dentro das obras. Ali, cercada por um ambiente quase sempre masculino, começou a olhar com mais atenção para aquilo que seria descartado.
“Era uma mulher dentro de uma obra completamente masculina. E esses objetos eu falava: ‘Que coisa, né? Vou jogar tudo isso no lixo?’”
Aos poucos, o que era sobra virou matéria-prima. Uma mangueira rachada, um pedaço de madeira, fios, pregos e objetos encontrados na praia passaram a ser guardados. Não havia ainda um destino certo para tudo aquilo. Até o dia em que ela quis criar algo para a própria casa.
“Eu queria fazer algo que as pessoas entrassem na minha casa, olhassem para o objeto e sorrissem.”
Depois do primeiro robô, Mônica mandou uma foto para uma amiga artista plástica. A resposta veio como incentivo.
“Ela falou: ‘Meu Deus, você descobriu algo muito diferente, muito bacana que vai encantar as crianças’.”
Mônica continuou. Um robô puxou outro. Depois outro. O trabalho manual passou a ocupar as mãos e a cabeça. Não apagava a perda, mas dava algum lugar para ela existir.
“Cada robô foi como uma etapa de cura. Era o que eu precisava pra continuar.”
Com o tempo, os Robôs Adoráveis ganharam nome, corpo e espaço. Durante a pandemia, a produção cresceu ainda mais. Sem a rotina de antes, Mônica passou horas no ateliê criando personagens. As peças começaram a aparecer no Instagram, chegaram as encomendas e o projeto ficou mais conhecido.
Mas a relação dela com os robôs nunca coube só na venda.
Cada peça nasce de um resto, mas também de alguma lembrança. Alguns materiais ficam guardados por meses até encontrarem seu lugar. Outros parecem indicar o caminho sozinhos. Para Mônica, a criação acontece assim, sem pressa, como se cada robô fosse montado também por dentro.
“Às vezes, é o lixo que inspira”, diz.
Na Casa Secreta dos Robôs Adoráveis, no bairro Morretes, em Itapema, os robôs ocupam prateleiras, paredes e cantos do ateliê. Têm olhos, expressões, pequenas marcas. À primeira vista, parecem brinquedos. Mas, quando Mônica começa a contar as histórias, fica claro que eles falam sobre coisas mais fundas.
Uma das peças mais importantes é a robô Pan, criada durante a pandemia. A cabeça presa em uma gaiola representa o confinamento daquele período e também a vida dos animais em cativeiro. No corpo, aparecem elementos ligados à natureza.
“Aqui está a natureza livre, como tem que ser”, explica.
Outra criação marcante é Teresa, uma manequim feita com materiais reaproveitados. O nome homenageia a madrinha de Mônica, que dizia, quando ela ainda era criança, que um dia ela seria artista. A peça mistura plástico, embalagens, rede de pesca e memória.
No ateliê, Teresa também representa uma presença. Mônica fala das mulheres da família que já partiram como quem ainda conversa com elas de alguma forma. A mãe, a irmã, a tia, a madrinha. Todas aparecem, direta ou indiretamente, no que ela cria.
O luto voltou a atravessar a vida de Mônica com a morte da irmã. Dessa vez, a dor veio de outro jeito. Ela se fechou no ateliê por três meses e produziu quase 30 robôs, um número alto para peças que costumam demorar muito tempo até ficarem prontas.
“A primeira semana você acha que está sonhando, a segunda semana você nega, a terceira semana você chora que a dor não cabe no peito. É um processo longo, dolorido e que precisa de muito respeito.”
Mônica também entendeu que criar ajudava, mas não resolvia tudo. Procurou acompanhamento psicológico e começou a escrever sobre o que sentia. Escreveu o que não conseguiria dizer para ninguém, os detalhes da dor, as perguntas sem resposta, a culpa.
“Escrever foi uma coisa muito importante para mim. Colocar isso realmente no papel.”
Ela não fala sobre luto como algo que passa. Fala como algo que muda de lugar. Em alguns dias, pesa mais. Em outros, deixa caminhar. A criação não aparece como cura milagrosa, mas como uma forma de continuar vivendo com aquilo que ficou.
“O luto nunca vai embora.”
Hoje, os Robôs Adoráveis também chegam às escolas. Mônica leva materiais reaproveitados, orienta as crianças na montagem das peças e, no fim, organiza pequenas exposições com o que elas criaram. A educação ambiental está presente, mas entra pelo encantamento. A criança começa brincando e, quando percebe, já está pensando sobre lixo, descarte, praia e cuidado com o mundo.
“Levo as oficinas, as crianças criam seus próprios robôs, cortam, montam… Eu levo todo o material. No final, a gente faz uma mini exposição. É uma diversão.”
O projeto, que começou dentro de um processo íntimo de dor, hoje também virou uma forma de deixar uma marca. Mônica quer que os robôs falem sobre meio ambiente, mas também sobre permanência. Sobre o que pode nascer mesmo depois de uma perda. Sobre o que ainda pode ser feito com aquilo que parecia não ter mais lugar.
“Eu quero que a morte me encontre viva”, diz.
Talvez seja isso que os robôs guardem de mais forte. Eles são feitos de coisas deixadas para trás, mas não terminam no abandono. Ganham corpo, nome, expressão. Continuam.
Como Mônica.
“Porque é lixo, mas é arte também. É transformação.”