A relação entre o Marcílio Dias e sua torcida vai muito além das arquibancadas. Em Itajaí, o clube é parte da identidade local, e cada jogo carrega histórias que atravessam gerações, conectando famílias, amigos e vizinhos em um mesmo sentimento. Para entender essa paixão que resiste ao tempo e cresce mesmo nos momentos difíceis, ouvimos torcedores que transformam o clube em parte da própria vida. Seus relatos ajudam a mostrar porque o Marcílio não é apenas um time, mas um elo que une a cidade em torno de uma devoção que não se explica, se sente.
Para Arthur Henrique da Silva, de 18 anos, torcer pelo Marcílio Dias é mais do que acompanhar um time: é representar a própria cidade de Itajaí e a paixão que o acompanha desde criança. “O Marcílio representa a minha cidade e a minha paixão pelo futebol”, resume.
O interesse pelo esporte começou cedo. Arthur lembra que desde pequeno o futebol fazia parte da rotina. “Sempre gostei de futebol desde pequeno, e durante a minha infância sempre ganhei muitas camisas e lembranças do clube do meu tio, que é um grande marcilista”, conta. Essa ligação familiar foi o que o aproximou do Marcílio e o fez desenvolver um sentimento de pertencimento que ultrapassa o campo.
O tio Wagner teve papel fundamental nessa relação. Foi ele quem apresentou o Gigantão das Avenidas ao garoto, quando Arthur tinha apenas 10 anos. “Ele começou me levando nos jogos quando eu tinha 10 anos, em partidas da Série B do Catarinense, em 2017”, relembra. Desde então, o estádio virou cenário de boas memórias, emoções e aprendizados sobre o que significa ser torcedor.
Entre todas as recordações, uma partida em especial marcou o coração do jovem itajaiense: Marcílio Dias 1×0 Criciúma, pelo Campeonato Catarinense de 2024. “O Marcílio venceu por 1×0 com o goleiro Belliato pegando absolutamente tudo, e com gol do Juninho Tardelli”, diz Arthur, com orgulho. Mas o que torna o jogo inesquecível vai além do resultado em campo. “O Belliato tinha acabado de descobrir que a filha dele estava com câncer, e essa foi a última partida da carreira dele. A torcida fez uma grande homenagem pra ele nas arquibancadas, e vencemos o Criciúma, que estava invicto e era um time de Série A do Brasileiro.”
Para Arthur, aquele momento resume o que é ser marcilista. “Resiliência”, define sem hesitar. A palavra que ele escolhe para representar o clube também traduz a relação entre o time e sua torcida de luta, superação e amor que se renova a cada jogo.
O primeiro contato de Suelen Marchette com o Marcílio Dias aconteceu na adolescência. Desde então, a empresária de 37 anos se tornou uma torcedora apaixonada pelo time itajaiense. “Eu me recordo da emoção de entrar no estádio e ver um jogo ao vivo, ainda mais sendo de um time da minha cidade”, conta. No bairro Dom Bosco, onde cresceu, a rua chegou a ser pintada com as cores do Marinheiro. “Meu irmão também se tornou torcedor, vimos e torcemos muito juntos, acompanhando alguns jogos”, relembra.
A paixão de Suelen pelo Marcílio atravessou gerações. Seu filho Arthur, de apenas 10 anos, é outro marcilista de coração. Alguns aniversários tiveram o tema do clube de Itajaí. “Ele tem várias camisetas, adora jogar bola nas horas vagas e se tornou um torcedor raiz. Conhece tudo sobre o time”, conta a mãe, orgulhosa.
O amor pelo clube é um elo familiar. O irmão de Suelen, formado em Educação Física, também vibra pelo Marcílio que agora, transmite esse sentimento ao próprio filho. “Meu irmão criou uma coleção de camisetas do time e, com o nascimento do meu sobrinho, não poderia ser diferente. O bebê já tem o manto do Marcílio, pijama, e reconhece o time nos copos do clube. Até pijama do Marcílio o Francisco já tem”, revela a tia, torcedora.
Mais do que um time, o Marcílio Dias representa um símbolo de identidade para a família de Suelen. É um laço que atravessa gerações e guarda memórias. “É um amor que não passa. A gente cresce, muda, mas o coração continua vermelho e azul. Quem sabe, um dia, meus netos também herdem essa paixão. mas isso, claro, ainda vai demorar um pouquinho, espero”, brinca.
A relação de Wilson Joel Nélio Bezerra Paiva de Souza com o Marcílio Dias começou antes mesmo de ele nascer. Filho de uma família apaixonada pelo Marinheiro, ele chegou ao mundo em 22 de março de 1988, um dia depois da vitória por 1 a 0 sobre o Joinville, pela Taça Carlos Renaux. O gol de Wilsinho naquele jogo decisivo inspirou seu primeiro nome. No duelo da volta, que terminou em 3 a 3, Joel e Nélio deixaram suas marcas e também acabaram eternizados na certidão de nascimento do novo torcedor. Até o árbitro da partida, Bezerra, carregava que concidentemente tinha mesmo sobrenome da mãe. Para completar a história, os três jogadores que inspiraram seu nome foram ao cartório e assinaram como testemunhas.
Desde então, o amor de Wilson pelo clube só cresceu. Levado aos estádios pelo pai, Edimar Paiva de Souza, desde pequeno, ele aprendeu cedo a reconhecer a força da camisa rubro-anil e o significado de torcer pelo time da cidade. Não demorou para que essa paixão se transformasse em parte da própria identidade. Hoje, Wilson é conselheiro do Marcílio Dias e um dos maiores colecionadores de camisas do clube com mais de 300 peças cuidadosamente preservadas. “Se me perguntar se torço para outro time, não tenho. Se me perguntar se tenho outra camisa, também não”, diz, com orgulho.
Ao longo da vida, alguns momentos ficaram marcados de maneira especial. Um deles foi a conquista da Copa Santa Catarina de 2022, quando o Marcílio levantou a taça em uma campanha histórica. Wilson estava no estádio acompanhado dos dois filhos até então, três gerações unidas pela mesma paixão. Outro jogo inesquecível foi o confronto contra o Vasco da Gama pela Copa do Brasil. Apesar da derrota, a energia da torcida adversária chamou sua atenção. “Era uma torcida tão apaixonada quanto a nossa”, lembra, destacando a experiência de viver o futebol em sua forma mais intensa.
Filipi Alexandre de Souza, o presidente da Fúria Marcilista, fala sobre a relação de longa data com o clube, o sonho da Série C e o jogo que o fez viajar 10 horas em um carro 97.
A paixão pelo Marcílio Dias, em Itajaí, é uma herança de família para muitos. Mas para Filipi Alexandre de Souza, que hoje comanda uma das torcidas organizadas do Marinheiro, a história é ainda mais profunda: o clube sempre esteve no sangue.
Em uma conversa franca, Filipi revelou a origem de seu amor pelo rubro-anil, as loucuras que já fez pelo time e qual é o grande objetivo que ele sonha para o Gigantão das Avenidas.
Para Filipi, não existia chance de não ser Marcilista. Com a mãe participando da torcida organizada e um familiar que jogou no clube, o futebol e o Marcílio sempre foram o assunto em casa. “Minha relação com o Marcílio se estabeleceu desde cedo, de verdade. Toda a minha família é torcedora. Minha mãe, por exemplo, já participava da organizada. Tive familiares, tipo o Gelson Silva, que jogaram no clube. Cresci respirando esse ambiente.”
A primeira lembrança de arquibancada é nostálgica e com a presença do pai. “Minha primeira experiência em um estádio foi levada pelo meu pai, quando eu era criança. Lembro vagamente de um jogo entre Marcílio Dias e Brusque.”
Questionado sobre a presença nos jogos, Filipi não hesita: “Eu vou em 90% dos jogos. É quase tudo!”
Ele até tenta escolher o jogo mais inesquecível, mas a história do Marinheiro é vasta. “É muito difícil ter um jogo só, mas eu acredito que o Marcílio x Vasco é um dos mais históricos, sem dúvida.”
Mas se tem uma história que define a dedicação de Filipi, é a “loucura” que ele fez para acompanhar o time na Série D do Brasileirão, em 2013 ou 2014. “Foi no jogo contra o Juventude, pela Série D. Eu tinha uns 20 anos e nunca tinha dirigido em rodovias federais por longas distâncias. Era Dia dos Namorados! Consegui folga de manhã, deixei o presente para a minha namorada no trabalho dela e partiu.”
A viagem foi uma aventura com um toque de humor: “Peguei um carro de um amigo, um modelo de 1997, um carro mais antigo. A gente não tinha muita experiência na época, mas fomos. Chegamos em Caxias do Sul. A viagem total, somando ida e volta, deve ter durado umas dez horas ou mais. Foi realmente uma grande aventura!”
Olhando para o futuro do clube, o presidente da organizada tem metas claras em mente. “A meta hoje é ver o clube na Série C do Campeonato Brasileiro. Isso, junto com a construção do nosso Centro de Treinamento, que hoje temos apenas o terreno.”
Mas, no campo dos sonhos pessoais, o desejo de Filipi é levantar a taça mais importante do estado. “Um sonho pessoal seria o Campeonato Catarinense.”
Repórteres:
João Luiz Moreira Pereira
Christian Ghabriel Lima da Silva
Carlos Renato Rodrigues Pereira
Ben-Hur Nathan Ratzmann Maier
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.