Em Barra Velha (SC), o racismo religioso se manifestou de forma explícita. Em maio deste ano, uma carta anônima, de teor preconceituoso e ameaçador, exigiu que um terreiro de religião afro-brasileira “saísse do seu território”. O caso mobilizou a comunidade local e chegou à Câmara Municipal. O episódio evidencia que, para muitos, as religiões de matriz africana e especialmente Exu, ainda são alvo de preconceito e estigmatização.
Casos como esse não são isolados. Segundo o Relatório sobre Intolerância
Religiosa no Brasil (Editora Barlavento, 2023), as religiões de matriz africana
continuam entre as mais atacadas do país, concentrando a maioria dos registros de violência motivada por fé. Entre as agressões mais comuns estão depredações de terreiros, ameaças verbais, insultos públicos e restrições ao uso de espaços sagrados. Muitos desses crimes sequer são denunciados, seja por medo de retaliação ou pela falta de acolhimento institucional.
De acordo com Reginaldo Prandi, autor de Mitologia dos Orixás (2001), o preconceito religioso no Brasil está profundamente ligado a processos históricos de marginalização e ao racismo estrutural. As religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, ainda enfrentam estigmas que dificultam o reconhecimento de sua relevância cultural e
espiritual. Entre 2010 e 2022, milhares de casos de intolerância foram registrados, incluindo ataques físicos e simbólicos da destruição de símbolos religiosos à proibição de cultos em espaços públicos.
Um levantamento do Ministério dos Direitos Humanos (2023) aponta que mais de 60% dos casos de intolerância religiosa no país têm como alvo praticantes de religiões afro-brasileiras. O impacto vai além da fé: atinge a cultura, a identidade e a memória afro-brasileira, gerando exclusão social, medo e invisibilização das práticas ancestrais.
O artigo da Editora Barlavento reforça que, muitas vezes, a intolerância se manifesta de forma simbólica por meio de estigmas, piadas e discriminações cotidianas, e não apenas por agressões diretas. Esse tipo de violência contribui para a perpetuação do racismo religioso, ainda invisível para boa parte da sociedade. A falta de conhecimento alimenta o medo — e o medo, o ataque.
Muitos dos termos e expressões usados de forma pejorativa em relação às religiões afro-brasileiras nasceram, na verdade, como forma de resistência dos escravizados, que buscavam preservar sua fé e, ao mesmo tempo, amedrontar os senhores para garantir liberdade espiritual.
Nos relatos de praticantes, Exu é descrito como símbolo de proteção, direção e defesa, um guardião que assegura segurança e equilíbrio. Como disse Sigmund Freud, “Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”. Exu, portanto, pode assustar os leigos justamente por esse amor protetor: para afastar más energias, é preciso força e, às vezes, causar temor.
Em entrevista, Janine Boettger, praticante de umbanda, contou que antes de conhecer a religião também nutria preconceitos:
“A falta de conhecimento é o grande causador da intolerância religiosa. Desde o início da formação da nossa sociedade, as religiões de matriz africana foram trazidas por escravos, um povo maltratado, que não era considerado ‘gente’. Isso interferiu de forma negativa e, com o tempo, só piorou.”
*Confira a entrevista completa em vídeo.
Falar de Exu, diante desse cenário, é reafirmar uma luta por reconhecimento e dignidade. Enquanto os dados revelam vulnerabilidade, a mobilização das comunidades e as ações educativas reforçam a importância cultural e espiritual desse orixá. Mais do que uma entidade religiosa, Exu é símbolo de fé, identidade e resistência, uma presença que continua abrindo caminhos, mesmo em tempos de intolerância.
“Maior é o que está com a gente,
do que aquilo que está contra nós”
– Pai Rocha
Por: Giovana Baldan
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.