Histórias que saem das ruas:

animais resgatados em Itajaí

O início de uma nova história

Era uma sexta-feira chuvosa de julho, em pleno período de férias na Univali, quando um cachorro pequeno apareceu nos corredores quase vazios da universidade. Encharcado, tremendo e com a roupinha colada ao corpo, ele parecia triste, desorientado e sem direção. Funcionárias da secretaria o acolheram, retiraram a roupa molhada e o acomodaram em uma sala aquecida, onde pudesse se recuperar. 

Do lado de fora, começava um movimento que costuma ser silencioso, mas decisivo na proteção animal em Itajaí: pessoas tentando impedir que mais um cão voltasse para a rua. Voluntários do Conexão Pet, programa da Univali dedicado à causa animal, passaram o dia mobilizados em busca de um lar temporário. Uma tarefa difícil, marcada pela urgência e pela escassez de espaços para acolhimento. 

A solução surgiu no fim da tarde. Sheila, funcionária da Univali, decidiu levá-lo para casa durante o fim de semana, garantindo segurança, calor e descanso até que novos encaminhamentos fossem possíveis. 

Assim começava a história do Paçoca — nome que só viria mais tarde. Um cachorro que entrou na universidade anônimo e que, graças a uma sequência de pequenas ações humanas, encontrou um caminho diferente daquele que o abandono tenta impor todos os dias.  

Chegada do Paçoca na Univali. Foto: Professora Ilisabet Pradi Krames

O Paçoca escolheu o mês de julho, férias, universidade quase vazia, e um dia de muita chuva.”

O que é o Conexão Pet?

Projeto de extensão da Univali que conecta comunidade e causa animal, organizando lares temporários, orientando casos e divulgando animais para adoção responsável. 

O Problema do Abandono

Com belas praias e um complexo portuário que movimenta milhares de contêineres todos os dias, o fluxo de pessoas em Itajaí é constante. No meio dessa agitação, transeuntes dividem as calçadas com cães e gatos que circulam por ali. Em uma rápida volta pelos bairros, é comum encontrá-los vagando sozinhos e sem rumo. Esse cenário recorrente expõe um problema grave: o abandono de animais. 

Um estudo realizado pela Mars Petcare, em parceria com um grupo internacional de especialistas, revela que aproximadamente 30,2 milhões de animais domésticos no Brasil vivem em situação de abandono. Embora não existam dados específicos para Itajaí, é possível notar como essa realidade nacional se manifesta no município. 

Nas ruas, cães e gatos enfrentam dificuldades para encontrar alimento, água e abrigo. Desamparados, eles estão expostos a doenças, atropelamentos e maus-tratos. Por estarem vulneráveis, tornam-se mais suscetíveis ao desenvolvimento de distúrbios como depressão, ansiedade e agressividade

Além do sofrimento físico e psicológico vivenciado pelos animais, o abandono tem impactos diretos na saúde pública. Cães e gatos que vivem nas ruas não têm cuidados básicos como alimentação adequada, vacinação e higiene; fatores que facilitam a proliferação de zoonoses. Direta ou indiretamente, os seres humanos podem ser infectados, seja pelo contato com o animal ou com objetos contaminados. Raiva, leptospirose, escabiose, toxoplasmose e esporotricose são alguns exemplos de doenças que podem ser transmitidas por eles. 

Diante disso, é importante entender como essa problemática se estabelece. Para Andréia Paula Reisch, diretora de Defesa e Proteção Animal do Instituto Itajaí Sustentável (INIS), os animais desabrigados estão nessa condição como resultado da ação humana. “Não existe animal de rua. Existe animal colocado na rua por alguém”, afirma. Mudança de residência, ninhadas indesejadas, incapacidade de cuidar de um animal doente, falta de tempo, alterações na rotina do tutor e custos elevados estão entre as principais causas do abandono. 

A redução do número de animais nas ruas passa, sobretudo, pela conscientização. Com educação e informação, torna-se possível transformar esse cenário e evitar que novas histórias de abandono se repitam. Quando a população entende suas responsabilidades e se soma aos esforços do poder público, das ONGs e da comunidade, aumentam as chances de construir uma cidade mais segura e acolhedora. 

Saiba mais sobre o estudo da Mars Petcare

Não existe animal de rua. Existe animal colocado na rua por alguém."

Uma das formas de entender como o abandono se manifesta no dia a dia, é observando quem atua oficialmente nesse cenário. Quando os animais deixam a invisibilidade das ruas, entram no alcance das estruturas públicas responsáveis pela proteção e pelo cuidado no município. 

O papel do poder público

ENTRE AVANÇOS, LIMITES E A ROTINA DAS RUAS

Nas ruas, o abandono aparece em forma de cães magros atravessando avenidas, ninhadas deixadas em terrenos baldios e gatos se escondendo sob carros. Mas, em algum momento, essa realidade chega a um portão, a um balcão, a uma ficha de atendimento. 

A proteção animal em Itajaí é sustentada por várias frentes – protetores independentes, ONGs, voluntários, iniciativas comunitárias e também pelo poder público. Dentro desse ecossistema, duas estruturas municipais assumem algumas das demandas mais complexas e reguladas por lei: a UAPA e o INIS

Essa rede reúne atendimento emergencial, protocolos clínicos e uma rotina que, segundo os servidores,  opera constntemente acima da capacidade. Mesmo sem um levantamento oficial, os relatos das equipes revelam um cenário que se repete diariamente: alta demanda, superlotação e falta de estrutura frente ao volume de casos que chegam até o poder público

No centro dessa atuação está a UAPA – Unidade de Acolhimento Provisório de Animais, estrutura pública municipal ligada ao Instituto Itajaí Sustentável (INIS). É para lá que são encaminhados os cães, gatos e equinos resgatados pelo poder público em situações previstas em lei, como atropelamentos, maus-tratos, doenças infecciosas, ferimentos severos e risco iminente. 

Atualmente, a unidade abriga cerca de 350 cães, 50 gatos e 10 cavalos. Números que por si só revelam a dimensão do desafio enfrentado diariamente pela equipe. 

A UAPA realiza triagem, tratamento clínico, castração e encaminhamento para adoção. Também oferece atendimentos gratuitos para tutores de baixa renda e realiza microchipagem em todos os atendimentos, garantindo identificação e maior controle populacional. 

Atendimento: Seg a Sex, 8h-12h / 13h-16h30

A rotina por dentro da UAPA

Entre latidos constantes, funcionários lavando baias e animais soltos pedindo carinho, a rotina mostra o que os números não explicam sozinhos. É no acompanhamento de cada animal que chega que o funcionamento da UAPA se revela na prática. 

Segundo o gestor Wesley Henrique, grande parte dos animais chega em condições críticas, marcados por violência, desnutrição, infecções e feridas severas. 
A equipe lida diariamente com estabilização clínica, medicação, curativos, limpezas de baias, cirurgias, internações e monitoramento contínuo

É um trabalho que exige tempo, equipe e espaço – três recursos que não crescem no mesmo ritmo que a demanda. Apesar disso, a unidade passa por uma ampliação: estão sendo construídas novas baias, planejadas para melhorar o fluxo dos animais e atender casos de longa permanência. Wesley ressalta que o espaço “ainda não está 100% como idealizado”, mas que já existem projetos para uma nova UAPA, mais adequada às necessidades atuais.  

Abrigo não é vida para o animal. O que nos motiva é mudar o destino deles — dar a cada um a chance de ser amado.”

Wesley Henrique. Foto: Heloísa dos Santos

A frase evidencia um paradoxo no próprio nome da unidade: um “acolhimento provisórioque, diante da falta de adoções e do volume de casos, muitas vezes se transforma em permanência prolongada. Ainda assim, a equipe tenta tornar esse período o mais digno possível. Ouça a seguir mais um trecho da entrevista com o gestor:

Na ala de internação — onde o cheiro é um pouco mais forte devido aos medicamentos — a veterinária Paloma Viegas recebe os animais que precisam de cuidados prolongados. 

Ela explica que boa parte dos atendimentos envolvem “doenças evitáveis” — parasitoses, viroses, inflamações profundas e problemas de pele. 
Chegam debilitados. Alguns levam semanas para se recuperar”, afirma. 
Ela também reforça um ponto sensível: muitas pessoas acreditam que um animal ferido “se vira sozinho”, quando, na realidade, isso raramente acontece. Sem atendimento rápido, muitos casos evoluem para quadros graves ou irreversíveis. 

Animais abandonados, sem vacinação e sem cuidados básicos, tornam-se mais vulneráveis a doenças que podem se espalhar pela cidade. Algumas delas, as chamadas zoonoses, podem ser transmitidas aos humanos por contato direto ou por objetos contaminados. 

A maioria dessas enfermidades poderia ser evitada com cuidados simples: vacinação, higiene, alimentação adequada e acompanhamento veterinário. 

Doenças mais comuns em animais abandonados

A leptospirose é uma doença infecciosa grave causada pela bactéria Leptospira, transmitida principalmente pelo contato com urina de roedores infectados ou água e solo contaminados (comum em enchentes), afetando severamente cães — gatos raramente manifestam a doença — com sintomas agudos que incluem febre, vômitos, icterícia e insuficiência renal ou hepática. O tratamento exige intervenção veterinária imediata com antibióticos e terapia de suporte, sendo a vacinação anual (vacinas polivalentes) e o controle de roedores as principais formas de prevenção.

Encefalite viral aguda e letal causada por um vírus do gênero Lyssavirus, transmitida principalmente pela mordida, arranhadura ou contato com a saliva de animais infectados — como cães, gatos e morcegos — que afeta o sistema nervoso central, levando a mudanças de comportamento (agressividade ou isolamento), salivação excessiva, paralisia e morte em quase 100% dos casos. Não existe cura para animais infectados (levando frequentemente à indicação de eutanásia para evitar sofrimento e transmissão), o que torna a vacinação anual obrigatória a única forma eficaz de prevenção, sendo fundamental também para a saúde pública, já que se trata de uma zoonose fatal para humanos se não tratada rapidamente com soro e vacina pós-exposição.

Popularmente conhecida como sarna sarcóptica (em cães, causada pelo Sarcoptes scabiei) ou sarna notoédrica (em gatos, causada pelo Notoedres cati), é uma doença de pele parasitária altamente contagiosa que provoca coceira intensa, perda de pelo, vermelhidão e formação de crostas, afetando principalmente áreas como orelhas, cotovelos e abdômen. A transmissão ocorre por contato direto com animais infectados ou indiretamente através de objetos contaminados (como caminhas e escovas). O diagnóstico e tratamento devem ser realizados por um médico veterinário, geralmente envolvendo o uso de medicamentos acaricidas (tópicos, orais ou injetáveis) e a higienização rigorosa do ambiente para evitar reinfestação.

É uma doença infecciosa causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, na qual os felinos (gatos) atuam como hospedeiros definitivos — os únicos que eliminam os ovos do parasita nas fezes por um curto período — e outros mamíferos, como cães e humanos, são hospedeiros intermediários. Embora muitas vezes assintomática, a doença pode manifestar-se através de sinais neurológicos, respiratórios, oculares e musculares, sendo o tratamento realizado com antibióticos específicos prescritos por veterinários.

É uma micose subcutânea grave causada por fungos do complexo Sporothrix (principalmente Sporothrix brasiliensis no Brasil), que afeta cães, humanos e, mais severamente, gatos — os principais transmissores em áreas urbanas devido à alta carga fúngica em suas feridas. A transmissão ocorre quando o fungo penetra na pele por arranhaduras, mordidas ou contato com lesões de animais infectados, manifestando-se inicialmente como feridas profundas, nódulos e úlceras avermelhadas que não cicatrizam e tendem a se espalhar pelo corpo, podendo evoluir para formas disseminadas fatais se não tratadas. O diagnóstico requer avaliação veterinária. O tratamento é longo, feito com antifúngicos orais (como itraconazol) e mantendo o animal isolado, até a remissão total das lesões.

INIS: onde a demanda chega primeiro

Se a UAPA é o local para onde os animais vão, o INIS – Instituto Itajaí Sustentável – é o setor por onde a maior parte dos pedidos entra

A diretora de Defesa e Proteção Animal do INIS, Andréia Paula Reisch, relata que o órgão recebe cerca de 1.200 solicitações por mês – um volume muito acima da capacidade da equipe, formada por 3 estagiários, 2 veterinários e 1 auxiliar administrativo

O INIS atua em duas frentes principais: resgates de animais de rua em situação de risco e denúncias de maus-tratos (quando tutor).

A gente recebe muita solicitação e precisa filtrar o que é vida ou morte. Não temos braço pra tudo.”

Andréia Paula Reisch. Foto: Heloísa dos Santos

Andréia reforça que o trabalho é feito em articulação com outros órgãos, como a Guarda Municipal e a Guarda Ambiental, que auxiliam nos casos graves e nos atendimentos emergenciais. 

O que é o inis?

O INIS (Instituto Itajaí Sustentável), é o órgão municipal responsável por recebimento e encaminhamento das demandas de proteção animal no município. 

Recebe solicitações da população — via WhatsApp, telefone ou site — envolvendo animais de rua, atropelamentos, maus-tratos e fêmeas prenhas ou no cio. 

Realiza a triagem técnica priorizando risco de vida, conforme legislação municipal. 

Atua em parceria com a Guarda Municipal, a Guarda Ambiental e com a UAPA para encaminhamento e atendimento dos casos. 

Além do atendimento diário, o poder público mantém um conjunto de medidas permanentes que buscam reduzir o número de animais em risco. Elas atuam em diferentes frentes, da identificação dos tutores às campanhas educativas, e complementam o trabalho realizado pela UAPA e pelo INIS. 

Nas abas abaixo, saiba mais sobre algumas dessas ações: 

A identificação eletrônica vincula o animal ao CPF do tutor, garantindo rastreabilidade e facilitando investigações em casos de abandono. O procedimento também ajuda a reduzir reincidências. Todo animal atendido em ações públicas recebe microchip antes de retornar ao tutor ou ser encaminhado para adoção.

O município mantém um programa contínuo de castrações realizadas por clínicas credenciadas e também por meio do mutirão móvel. Além do controle populacional, o procedimento é obrigatório para animais atendidos pela UAPA antes da adoção.

Realizadas mensalmente em diferentes bairros, as feiras de adoção têm o objetivo de reduzir o tempo de permanência dos animais no acolhimento e incentivar a adoção responsável.

Ações em escolas e comunidades reforçam temas como guarda responsável, legislação, castração e prevenção de maus-tratos apontada por especialistas como uma das frentes mais importantes para evitar novos casos.

Conscientização: o ponto que atravessa tudo

Apesar dos avanços e programas em andamento voltados para a causa animal, nenhum deles funciona plenamente sem a participação da população. Para Andréia Paula Reisch, do INIS, a falta de conscientização ainda é o principal entrave. 

Sem envolvimento social, a estrutura pública — já operando acima da capacidade — não consegue responder ao volume de casos. 

A vereadora Renata Narcizo (PDT), que acompanha a pauta animal no Legislativo, reforça esse alerta: 

Não tem como prever o abandono… o que podemos é educar.”

Para técnicos, gestores e representantes do Legislativo, a educação aparece como o único caminho capaz de reduzir a demanda que sobrecarrega UAPA, INIS, protetoras e voluntários. 

Quando o abandono ganha nome, rosto e história

Paçoca acolhido na Univali. Foto: Professora Ilisabet Pradi Krames

O cenário é de limitações, esforço contínuo e melhorias que avançam mais devagar que a demanda. Nesse contexto, histórias individuais ajudam a materializar o problema. 

O Paçoca, por exemplo, não chegou a passar pela UAPA: foi acolhido por uma colaboradora e encaminhado ao Conexão Pet, antes que seu quadro se agravasse. Ainda assim, sua trajetória ecoa a de muitos outros animais que dependem do olhar atento de alguém para não chegar aos casos mais graves atendidos pelo poder público. 

A história do Paçoca é um lembrete do que toda essa rede formada por UAPA, INIS, protetoras, ONGs e projetos comunitários tenta evitar diariamente: que animais permaneçam expostos, adoeçam, sofram acidentes ou passem despercebidos nas ruas. 

E é justamente no ponto em que o poder público não consegue chegar que outras forças se tornam indispensáveis. 
Protetoras independentes, voluntários, ONGs, feirinhas de adoção e iniciativas comunitárias sustentam uma parte quase invisível – mas decisiva – da proteção animal em Itajaí. São elas que acolhem, acompanham e buscam soluções quando a estrutura oficial não dá conta. 

É com essas vozes, que atuam na linha de frente todos os dias, que seguimos. 

Vozes da proteção animal:

quem segura o que o sistema não alcança

A proteção animal em Itajaí funciona em camadas. 
De um lado, há o que é previsto em lei: o INIS, as regras de recolhimento, os critérios técnicos, os limites operacionais. 
Do outro, existe uma rede paralela — menos formal, mais improvisada e absolutamente indispensável — formada por protetoras independentes, ONGs, iniciativas comunitárias e projetos universitários como o Conexão Pet. São esses grupos que absorvem o que não cabe nos protocolos. 

São vidas que não podem esperar triagem. Casos que surgem às dez da noite, no portão de um mercado, numa rua de terra, num terreno abandonado. Situações que não se encaixam nos critérios de recolhimento, ou para as quais a resposta oficial simplesmente não chega a tempo. 

É nesse território de urgência, onde não existe garantia de atendimento, que essa rede atua todos os dias. 

O INIS opera sob critérios legais — e essa é a regra do jogo. Mas esse recorte cria zonas de silêncio: animais que não podem ser recolhidos, horários em que o serviço não funciona, regiões onde a equipe não consegue chegar. 

É nesse intervalo que entram as protetoras. E é ali que se sustenta o que a política pública não cobre. 

Nós estamos praticamente abandonadas.”

As falas das duas revelam elementos comuns na rotina de quem atua na proteção animal: sobrecarga emocional, endividamento, resgates durante a madrugada, uma demanda que nunca cessa e casos que chegam por todos os lados — vizinhos, comerciantes, grupos de WhatsApp ou pessoas que encontram um animal por acaso. 

O que elas chamam de “rotina” é, na prática, um acúmulo de urgências que não deveriam ser responsabilidade individual. 

Às vezes o resgate é chamado, o resgate não vai, o bicho está agonizando, e a gente acaba indo por piedade.”

Durante a audiência pública na Câmara de Vereadores, um cartaz na área do público virado para as autoridades sintetizou a tensão entre a promessa e o cotidiano real da proteção animal em Itajaí. As frases não eram slogans: eram diagnósticos. 

Eram frases que condensavam anos de relatos repetidos, em volume crescente. 
Não eram ataques pessoais. 
Eram retratos de um cenário que quem está na rua conhece bem. 

Merilin, protetora independente na audiência pública do dia 03 de novembro de 2025. Foto: Davi Spuldaro/CVI.

Nos relatos reunidos pela reportagem, surgem padrões:

  • • Filhotes deixados na porta de mercados;
  • • Animais doentes encontrados após o horário oficial de atendimento;
    • Protetoras chegando ao local antes da equipe pública; 
    • Moradores fazendo o primeiro resgate porque não sabiam a quem recorrer. 
  •  

Joice conta que em alguns bairros o abandono é repetido — “sempre na mesma rua”. 
Merilin relata casos em que recolheu animais agonizando porque “era isso ou deixá-los morrer”. 

Essas histórias, embora frequentes, não entram em planilhas. 
Elas revelam uma realidade que muitas vezes é esquecida pelo poder público. 

Joice, protetora independente na audiência pública do dia 03 de novembro de 2025. Foto: Davi Spuldaro/CVI.

O que as protetoras pedem?

A audiência pública reuniu duas margens do mesmo problema: quem formula políticas e quem vive as lacunas no cotidiano.

Entre as demandas apresentadas estavam:

Ampliação e previsibilidade nas castrações, cadastro oficial de protetoras, atenção urgente à esporotricose, produção e divulgação de dados (Censo PET), estruturação e ampliação dos atendimentos do INIS e protocolos mais ágeis para casos graves.

Cuidado Comunitário: a história do Paçoca

A história do Paçoca mostra como ações comunitárias se formam na vida real: um gesto inicial puxa o próximo, outras mãos se somam, e uma rede de cuidado começa a existir. Embora seja apenas um cachorro, ele representa muitos outros que dependem desse mesmo movimento silencioso: pessoas comuns que se mobilizam antes que qualquer protocolo oficial chegue. 

No caso do Paçoca, essa rede ganhou forma dentro da universidade. Funcionários, estudantes, voluntários e integrantes do Conexão Pet se articularam para garantir sua segurança, organizar acolhimento temporário e conduzir o caminho até a adoção. A seguir, você acompanha essa história:

1. Antes do campus: origem desconhecida

O que aconteceu antes do Paçoca chegar à Univali não é sabido. Não há confirmação de abandono — apenas de que ele chegou vulnerável, sem referência e em situação de risco.

Em um dia de muita chuva e frio, durante o recesso acadêmico de julho, ele apareceu no bloco B7 completamente molhado, tremendo, usando uma roupinha encharcada.  

Funcionárias acolhem o cachorro, retiram a roupinha, secam ele e o mantêm em uma sala enquanto voluntários começam a pedir ajuda.

Por ser sexta-feira — e a universidade fechar no fim de semana — a busca pelo tutor ou por um lar temporário se torna urgente. Voluntários passam o dia postando nos stories, grupos e no Conexão Pet.

Sheila leva o Paçoca para casa e garante abrigo e segurança durante todo o fim de semana, evitando que ele voltasse à rua.

Na segunda-feira, o cachorro retorna à Univali e é acolhido por um estudante de Administração, que permanece com ele por cerca de uma semana — mas precisa devolver por não conseguir manter o cuidado.

Bruna oferece lar temporário por mais de um mês. Nesse período, o Paçoca recebe vacina, vermífugo e rotina. Começa a ganhar peso, confiança e estabilidade.

O caso aparece no Conexão Pet, em stories, em grupos da comunidade e em ações da Univali. Ele participa também do Bazar Bem do Bem, onde é visto por muita gente.

Após o período com a Bruna, ele passa 15 dias com a funcionária Nite. Lá, engorda, volta a se alimentar bem e ganha mais qualidade de vida enquanto continua sendo divulgado. 

Durante uma das participações no bazar, o Paçoca chama a atenção do Manu, que se sensibiliza com a história. Depois de conversar com a família, decide dar uma chance à adoção responsável.

Já na nova casa, Paçoca é castrado, continua recebendo cuidados e finalmente ganha um lar definitivo. O que começou como um resgate improvisado se torna uma relação que dura até hoje. 

Entre os elementos que sustentam essa a rede de cuidado, o lar temporário ocupa um papel central. Para muitos animais resgatados, é essa etapa que impede que eles retornem às ruas ou enfrentem riscos maiores enquanto aguardam adoção. 

Mas o que é um lar temporário?

Lar temporário (LT) é quando alguém acolhe um animal por dias ou semanas, oferecendo abrigo, alimentação, segurança e, às vezes, cuidados veterinários básicos até a adoção ou tratamento. 

No caso do Paçoca, essa etapa foi crucial para sua recuperação física e emocional. Diferentes pessoas assumiram essa função: Sheila o levou para casa no fim de semana; um acadêmico de Administração o acolheu por alguns dias; e Bruna, estudante de História, cuidou dele por mais de um mês. Nesse período, ele recebeu vacina, vermífugo e acompanhamento. 

Mais tarde, participou de uma feira de adoção na Univali – do Bazar Bem do Bem. Foi lá que ele chamou a atenção de seu futuro tutor, o Manu. Depois de conversar com a família, ele decidiu adotá-lo. Em casa, o Paçoca foi castrado e seguiu recebendo cuidados. 

O trabalho de todas essas vozes não termina no resgate.  

A etapa mais transformadora é a adoção — e é nas feiras que esses caminhos se encontram.  

Protetoras, ONGs, voluntários e universitários orientam tutores, apresentam histórias e ajudam cada animal a recomeçar.  

É para esse espaço que seguimos. 

Um lar a caminho:

como as feiras mudam o cenário da adoção em Itajaí

O dia mal começou e a praça já tem movimento. As barracas ainda estão sendo montadas, mas sempre aparece alguém antes do horário: alguém que passa a caminho do mercado, alguém que viu os cercadinhos de longe, alguém que só ficou curioso. É assim, de forma simples e espontânea, que as feiras de adoção organizadas pela UAPA, por ONGs e por grupos voluntários vão ganhando espaço na rotina de Itajaí. 

Durante muito tempo, quem queria adotar precisava ir até um único lugar. Agora é o contrário: as feiras vão até onde as pessoas estão. Mercado, estacionamento, praça, bairro mais afastado. O cenário pode mudar a cada edição, mas o propósito permanece o mesmo: aproximar as famílias dos animais que esperam uma chance, um lar. 

Histórias que se encontram entre os cercadinhos

Michele e Leandro caminham devagar entre os cães. Três semanas antes, haviam perdido a cadelinha da família. Vieram “para ver se bate conexão”, ainda sem pressa para adotar, apenas para sentir novamente aquela presença que faz falta. Ao conversar, lembram que seus dois últimos animais foram resgatados na área rural. Por isso, para eles, a feira é mais do que um espaço de adoção: é um lugar de memória e acolhimento, onde saudade se transforma em paz. 

Michele e Leandro na Feira da UAPA dia 11 de outubro de 2025. Foto: Marcelle Ardigó
Itamar e filhos na Feira da UAPA dia 11 de outubro de 2025. Foto: Marcelle Ardigó

Logo ao lado, Itamar e Daniele chegam com outra energia. Vieram procurar um presente de Dia das Crianças: um cãozinho. Observam os animais um a um. Conversam sobre porte, rotina e se o espaço no apartamento seria suficiente. Eles comentam que gostaram de ver várias feiras acontecendo pela cidade no mesmo dia: “assim fica mais fácil achar um cachorro que combine com a gente”, dizem. E é essa a ideia: quando a feira está perto, o encontro acontece com naturalidade. 

As feiras de adoção seguem um calendário que se espalha por vários pontos de Itajaí. Em cada edição, voluntários, cuidadores e veterinários são mobilizados para garantir que os animais cheguem prontos para conhecer suas novas famílias. Há orientações sobre guarda responsável, acompanhamento pós-adoção e, quando necessário, encaminhamento para consultas e castração.  

Enquanto isso, o bairro que recebe a feira vira, por algumas horas, um ponto de encontro entre diferentes histórias: animais resgatados de situações difíceis, famílias que chegam em busca de companhia, curiosos que descobrem ali a possibilidade de adotar. Cada conversa, cada ficha preenchida, cada dúvida respondida ajuda a construir um processo mais consciente.  

Ao final do dia, quando as barracas são desmontadas, sobram as fichas de adoção preenchidas, as visitas que serão retomadas na próxima semana e a certeza de que levar a feira até a comunidade funciona. É assim, de forma organizada e contínua, que as feiras seguem mudando o cenário da proteção animal na cidade. Uma edição por vez, um encontro por vez. 

Quando ajudar é o primeiro passo

Nem sempre o encontro com um animal acontece em uma feira. Às vezes, ele surge no meio da rua: um cachorro magro e perdido, um gato desorientado e ferido. E é justamente nesses momentos que muita gente trava — não por falta de vontade, mas por não saber o que fazer. 

A boa notícia é que denunciar ou pedir ajuda é simples. E, muitas vezes, é esse primeiro gesto que impede que a situação piore. 

E quando você encontra um animal na rua?

Como denunciar?

Nem sempre é abandono, mas é importante:  

* Verificar coleira ou identificação;  

* Fotografar e divulgar em grupos do bairro;  

* Oferecer água/comida;  

* Consultar a UAPA, as ONGs ou os protetores para orientação. 

Se o animal estiver sem comida, água, preso no sol, ferido ou sofrendo violência, vale agir: 

*Registrar fotos ou vídeo.

*Anotar o endereço.

*Ligar para a Polícia Militar Ambiental – 190.

*Procurar a UAPA ou a ouvidoria da prefeitura para denúncia formal. 

As ONGs, como a SOS Peludinhos, também orientam e ajudam a divulgar casos urgentes. 

Por que incentivar a adoção?

Porque cada adoção abre espaço para outro resgate. Ela reduz o número de animais nas ruas, alivia a sobrecarga de protetores e permite que estruturas públicas atendam casos realmente urgentes. Mais do que isso, dá a um animal a chance real de recomeçar. 

E ninguém precisa decidir na hora. Adotar é refletir sobre rotina, custos, disponibilidade emocional e o tipo de vida que se deseja construir ao lado daquele animal. É uma escolha que transforma duas histórias ao mesmo tempo: a dele e a sua. 

Dezembro verde

Dezembro tem luzinhas, festas e movimento nas ruas. Mas, para os animais, é também um mês historicamente marcado pelo aumento do abandono: famílias que viajam, mudanças de casa, decisões impulsivas de fim de ano, animais considerados “difíceis” ou que “não se adaptaram”. 

Foi para enfrentar esse cenário que surgiu o Dezembro Verde, uma campanha nacional de alerta e conscientização. 

A ação reforça o básico — e o essencial: abandonar é crime, e a responsabilidade pela proteção animal é coletiva. 

Nesta época, as feiras de adoção, que circulam pelos bairros ao longo de todo o ano, ganham ainda mais força: mostram, na prática, que adotar é possível e que nenhum animal deveria terminar o ano sem alguém por ele. 

O que é o Dezembro Verde?

Por que dezembro?

Campanha nacional de conscientização contra o abandono e os maus-tratos de animais. É organizada por órgãos públicos, ONGs, universidades e voluntários. 

Porque é o mês com maior índice de abandono no país, motivado por viagens, festas, mudanças de rotina e decisões impulsivas. 

O que a campanha incentiva?

Lembrete importante:

* Adoção responsável

* Castração e vacinação

* Denúncia de maus-tratos

* Educação sobre posse responsável

 

Abandonar animal é crime (Lei Federal nº 9.605/98).  

Denunciar salva vidas.  

A NOVA VIDA DO PAÇOCA

Se, no início da reportagem, o Paçoca aparecia como mais um cachorro desorientado em um dia de chuva, aqui ele retorna em outro cenário: o sofá da sala, o passeio na rua, a rotina com a nova família e com os novos irmãos. É quando a história de resgate ganha continuidade, mostrando o que está por trás da expressão “adoção responsável”. 

Depois de passar por lares temporários, receber cuidados veterinários e participar de uma feira de adoção, o Paçoca encontrou o Manu. O encontro, que começou com um olhar curioso entre os cercadinhos da feira, virou conversa em casa, decisão em família e, por fim, compromisso. 

No mini documentário desta seção, Manu conta como foi esse processo: as conversas antes de levar o Paçoca para casa, a adaptação nos primeiros dias, as mudanças na rotina e o impacto afetivo de ter um animal resgatado como parte da família. Entre uma cena e outra, fica evidente que a adoção não é um “final feliz” isolado, mas o início de uma nova fase — para o tutor e para o cachorro. 

O Paçoca agora tem nome, endereço, cama, brinquedos, acompanhamento veterinário e, principalmente, vínculo. A coleira que antes poderia ter sido um sinal de abandono se torna símbolo de pertencimento. Os vídeos mostram o antes e o depois: do corredor da universidade à varanda de casa, do olhar assustado ao olhar tranquilo. 

Ele foi salvo do abandono, da invisibilidade — e hoje vive e tem o amor que muito ser humano não tem.”

A nova vida do Paçoca não apaga o que ele viveu, mas ressignifica sua trajetória. E, ao fazer isso, ajuda a enxergar o que está em jogo em cada resgate, em cada lar temporário, em cada feira, em cada denúncia: não é um animal a menos nas ruas, é uma história que muda de direção. 

As histórias que saem das ruas — como a do Paçoca — mostram que a proteção animal em Itajaí é feita em muitas camadas: do poder público às protetoras independentes, das ONGs às ações discretas de vizinhos, de projetos universitários às feiras de adoção que ocupam praças e mercados. 

Entre limites, avanços e lacunas, uma coisa permanece constante: sempre que alguém decide agir, a chance de um animal permanecer invisível diminui. E é nessa soma de esforços — técnicos, afetivos, comunitários — que se desenha a possibilidade de uma cidade mais justa também para eles. 

REPORTAGEM

Gabriele Cristina Pedroso

Heloísa dos Santos

Heloiza de Freitas da Silva

Marcelle Ardigó

Sara Seifert Santana

 

 

TRABALHO REALIZADO PARA A DISCIPLINA DE JORNALISMO DIGITAL DO 2° PERÍODO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ (UNIVALI)

Esta reportagem foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.