por: Caio Pereira, Camili Guckert e Duda Antunes
"Atenção viatura 3, mais um marreco pronto na casa da Teresinha Fischer"
Naquele outubro de 1986, a cidade de Brusque exalava um único cheiro: marreco assado. Era o primeiro dia da Fenarreco, a festa que prometia unir o povo depois da maior enchente de sua história, que ocorreu um ano antes. A ideia era fazer a primeira edição da festa em 85, mas as atenções estavam voltadas em retirar a crosta de barro das casas. Aquele seria o reencontro da cidade com a alegria, celebrando as origens germânicas do município. E ninguém queria fazer feio. Mas ninguém imaginava o que estava por vir…
A organização da Festa Nacional do Marreco começara cedo. Os fornos da festa assavam 30 marrecos por vez, cada um rodando em espetos, dourando a pele enquanto a gordura escorria lentamente, formando bolhas na chapa quente. O cheiro se espalhava pelo ar, um aroma intenso que misturava o tempero da carne com o toque adocicado do repolho roxo que acompanharia o prato. As batatas eram descascadas uma por uma. O organizador andava de um lado para o outro, empolgado. Mas estava nervoso. Tinha pensado alto. Encomendou centenas de marrecos.
Apenas 800 foram consumidos na primeira noite. “O que vamos fazer com o resto?” questionava o fornecedor, olhando fixamente para o organizador. Em tom de ameaça dizia: “Vocês não vão conseguir vender tudo isso. Eu quero meu dinheiro”.
No segundo dia, porém, tudo mudou. Como se o aroma tivesse finalmente capturado os sentidos da cidade, os moradores começaram a chegar, desfilando com trajes típicos e canecos, cantando Zig-Zag. Um após o outro, em filas que logo tomaram o salão do Caça e Tiro Araújo Brusque, devorando cada pedaço dos marrecos recém-saídos dos espetos. Em poucas horas, a notícia se espalhou – a festa estava sem seu prato principal.
Fenarreco sem… marreco? “O que vamos fazer agora?” – perguntou o organizador, olhando para o forno vazio. Em silêncio, os auxiliares pensaram em alternativas. Não demorou para alguém soltar uma ideia: “Vamos atrás de todos os fornos da cidade!”.
O plano era ousado. Panificadoras, mercados, até algumas casas com fornos mais potentes entraram no jogo. Marrecos foram distribuídos em cada canto da cidade, e logo cada forno disponível estava a serviço da Fenarreco. Mas havia um novo problema: como coordenar o resgate de todos esses marrecos espalhados por Brusque?
É aí que a polícia entrou no jogo. Sem celulares e com poucos telefones na cidade, só havia um jeito de saber onde os marrecos estavam prontos: o rádio da polícia. A primeira mensagem ecoou pelo sistema, cortando o silêncio: “Viatura, estamos com um lote de marrecos pronto na padaria do Seu Sassi. Precisa buscar agora”.
E assim foi. De hora em hora, as viaturas passavam nos pontos de coleta. “Aqui, aqui, mais dois lotes prontos no forno do Supermercado Archer”. Cada rádio chamado gerava um ronco de motor, e a viatura arrancava, voltando com mais marrecos para o Caça e Tiro.
Quando o primeiro carro de polícia chegou com o carregamento, ninguém sabia que ali dentro havia o ouro da festa. Os mais fofoqueiros diziam que haviam rolado brigas nas filas quilométricas. “Tu visse? A Dona Mariquinha toda bem vestida tentando furar a fila para comer marreco. Era só o que me falta”. O curioso é que toda vez que chegava um carro de polícia, a fila andava. “Oh, bobo. Não sei o que a polícia anda fazendo, mas só que a fila está andando”, comenta a Pacheca em voz alta.
Até que alguém viu a pilha de marrecos no carro e gritou tão alto que ecoava na Ponte Estaiada: “A polícia tá trazendo MARRECO”. A partir daí, os carros eram recebidos com aplausos. Os policiais, mais acostumados a postura séria, riam da situação. Logo, toda vez que uma viatura entrava com mais marrecos, as pessoas batiam palmas e celebravam.
Brusque se tornara um imenso forno ao ar livre. O cheiro dos marrecos atravessava ruas, entrava pelas janelas, colava nos casacos. À medida que a festa crescia, os moradores se uniam em torno do aroma inesquecível, e do sabor singular da iguaria que se tornaria símbolo de Brusque.
Dali em diante, o berço da fiação catarinense se tornou, também, a cidade do Marreco, atraindo curiosos, edição após edição, para a festa mais gostosa do Brasil.
Na primeira edição da Fenarreco, em 1986, mil marrecos foram preparados para alimentar o público durante os dias de festa. No segundo dia, já não havia mais nenhum. “A gente não tinha ideia da quantidade de pessoas que iria. Foi uma surpresa, uma loucura total”, relembra o chef brusquense Oscar Campi, responsável pela cozinha nas seis primeiras edições do evento.
Décadas depois, a festa cresceu, amadureceu e se transformou em um dos maiores eventos culturais de Santa Catarina — atravessando gerações com seus pratos típicos, danças, trajes germânicos, músicas tradicionais e, principalmente, com o orgulho de uma comunidade que faz questão de manter viva a herança dos imigrantes alemães.
Realizada anualmente em Brusque, a Fenarreco resistiu ao tempo e às mudanças. Já foi montada sob lonas, em clubes de caça e tiro, e hoje ocupa um pavilhão próprio. Já teve atrações exclusivamente locais e hoje recebe bandas internacionais. Já correu o risco de se descaracterizar, mas encontrou no próprio público a força para seguir fiel às suas origens.
O sentimento de pertencimento permanece inalterado — seja em quem dança no salão, em quem trabalha nos bastidores ou em quem carrega, como Ida Comandolli, a festa no coração desde a infância.
Ida Comandolli, que integrou a realeza na 36ª edição da Fenarreco, realizada em 2023, cresceu imersa na cultura que a festa representa.
Para ela, o mais bonito na Fenarreco é o sentimento de comunidade em torno da preservação das tradições. “A festa mantém viva a cultura dos nossos antepassados. Mesmo com as transformações naturais ao longo do tempo, a essência permanece — uma mistura bonita entre as raízes germânicas e o jeito brasileiro de celebrar”.
Desde criança participo dos desfiles. A família da minha mãe tem origem alemã, então era natural estar presente em todas as edições. Cresci com isso fazendo parte da minha rotina”
Ida Comandolli
Fazer parte da realeza foi mais do que um título: foi a realização de um sonho. “Estar ali, nos bastidores, conhecer como tudo funciona, foi um marco na minha vida. Senti que minha história se fundiu com a da Fenarreco”, diz Ida.
Mesmo após o fim do seu mandato como representante, ela segue promovendo a festa com entusiasmo. “Falo sobre a Fenarreco sempre que posso. Mesmo fora da equipe de divulgação, sinto que tenho um compromisso permanente com essa tradição.”
Ela defende que a cultura da festa também precisa ser fortalecida nas escolas. “Assim como celebramos Carnaval, Festa Junina e Páscoa, deveríamos incluir a Fenarreco no calendário escolar. É uma forma de manter viva a memória cultural entre os mais jovens.”
Raízes fortes, desafios atuais
Valdir Walendosky, membro da primeira Comissão Organizadora e atual secretário de Desenvolvimento Econômico e Brusque, vê na Fenarreco uma missão contínua: preservar a identidade cultural em um cenário de mudanças. “O maior desafio é que, com o tempo, muitos que falavam a língua alemã e vivenciaram intensamente essa cultura já partiram. E as novas gerações não têm o mesmo vínculo. Isso acaba dificultando a manutenção de uma festa tão enraizada nas tradições germânicas”, analisa.
Outro desafio está no equilíbrio financeiro. “É preciso garantir que a festa aconteça sem depender excessivamente de recursos públicos. Para isso, contamos com o apoio de empresas e da própria comunidade.”
Mesmo sendo uma festa tradicional, a Fenarreco soube se atualizar. “Hoje, trabalhamos com tecnologias como o sistema cashless, com novas formas de mídia e segurança. A inovação é necessária para manter a festa atrativa”, explica Valdir.
Mas, para ele, certos elementos são inegociáveis. “A música típica alemã, a decoração, o desfile, os trajes e a gastronomia — especialmente o marreco recheado — são o coração da festa”.
A Fenarreco não é uma festa da cerveja, como a Oktoberfest. Ela é, essencialmente, uma festa gastronômica"
Valdir Walendosky
Oscar Campi guarda com carinho as lembranças da época em que comandava a cozinha. “Quando acabava, a gente fechava a cozinha e abria somente no outro dia. E assim foi a primeira festa o tempo todo”.
Hoje, seu filho e uma sobrinha atuam nas comissões organizadoras — não mais na gastronomia, mas em áreas igualmente fundamentais. “A tradição segue viva dentro da nossa família. A Fenarreco é parte da nossa identidade.”
Clarissa Padilha, jornalista que atua na Fenarreco há 10 anos e atual integrante da comissão, reforça que a comunidade continua sendo peça-chave para o sucesso da festa. “A Fenarreco continua sendo uma construção coletiva. As entidades participam ativamente, seja no desfile, seja com apoio na programação. As empresas locais também contribuem como patrocinadoras. Embora a organização geral esteja sob responsabilidade do poder público, ouvimos atentamente o que os participantes valorizam”.
Ela acredita que o vínculo com a cultura se cria cedo. “As brincadeiras típicas envolvem as crianças desde pequenas. É no colo dos pais que muitos começam a criar esse vínculo afetivo. É isso que garante que as futuras gerações também se tornem ‘fenafesteiras’”.
Embora o envolvimento dos jovens na organização ainda seja limitado, a presença deles durante o evento vem crescendo. “Na última edição, vimos muitos jovens usando trajes típicos, curtindo a festa de forma respeitosa. Esse é um indicativo de que a tradição está sendo transmitida com sucesso”, avalia Valdir.
Entre as edições que marcaram a história da Fenarreco, duas se destacam: a primeira, de 1986, lembrada com carinho por Oscar e Valter — músico que participa desde o início — e a 11ª, apontada por Valdir como a de maior público. “Foram cerca de 250 mil pessoas. Precisamos fechar os portões. Foi um sucesso absoluto, inclusive na mídia nacional.”
Valter também acredita que a música é um dos maiores pilares da festa. “A música é super importante, até porque principalmente as pessoas que vêm de fora, elas não querem escutar música brasileira, pagode, esse tipo de música. Eles querem realmente a música típica alemã, então esse é um fator fundamental e que tem que ser preservado na festa”.
Mais do que festa, a Fenarreco é um fenômeno econômico. Movimenta hotéis, restaurantes e o comércio de Brusque. Atraindo turistas de várias regiões, tornou-se o principal evento do calendário turístico da cidade.
“Hoje, a Fenarreco é muito mais que uma celebração. É uma afirmação cultural, um motor econômico e uma herança viva da nossa história”, resume Ida.
Entre marrecos recheados, danças típicas e desfiles, a Fenarreco segue firme, misturando passado e presente, tradição e inovação — celebrando, a cada nova edição, o orgulho de ser brusquense.
Não é só cultural o impacto da Fenarreco, a festa move a economia de Brusque de diversas maneiras. Em 2024, 105 mil pessoas estiveram presentes na edição. Toda a celebração e a festa em volta ao ato de comer marreco faz com que diversas pessoas estejam empregadas justamente para a festa.
8 toneladas de marreco, 4 toneladas de batata, uma de repolho roxo e uma de repolho verde. Para efeito de comparação, nos 10 dias de festa só desses quatro ingredientes foi consumida comida suficiente para equivaler ao peso de 14 carros populares. Com comida equivalente a dois elefantes africanos adultos, os comerciantes dos restaurantes tradicionais aproveitam a época para venderem muitos pratos de comida.
A economia da festa não gira somente em torno da alimentação, o turismo na segunda maior festa de outubro de Santa Catarina também está presente. Durante a Fenarreco de 2023, apenas 40,19% dos presentes eram moradores de Brusque ou região, tendo um índice de turistas muito alto. Desses quase 60% de turistas, mais da metade vem somente para a festa, com mais de um terço ficando em hotéis, a cidade toda, mesmo que indiretamente, se move com a Fenarreco.
Ao organizar um evento tão grande e representativo para a cidade de Brusque, a Fundação de Turismo tem uma grande responsabilidade para entregar a melhor festa possível para quem visitá-la. Falamos com Gabriela Ristow, membra da atual comissão e que trabalha na fundação a anos organizando a Fenarreco. Ela falou um pouco da sua relação pessoal com a festa:
“Para mim, a melhor parte é ver, ano após ano, as famílias participando da festa. É incrível perceber como isso já faz parte da identidade de Brusque e da nossa cultura. Ter um espaço para celebrar nossas raízes e tudo o que ajudou a construir a cidade é muito especial e importante”.
Gabriela comentou sobre a dificuldade que é organizar a festa, explicando coisas que poucos sabem dos bastidores da festa mais gostosa do Brasil: “Muita gente imagina que dá trabalho organizar a festa, mas não faz ideia do quanto. A Fenarreco começa a ser planejada já no dia seguinte ao encerramento da edição anterior, ou seja, é praticamente um ano inteiro dedicado a tornar essa a festa mais gostosa do Brasil. São muitas pessoas envolvidas, todas engajadas e entusiasmadas, trabalhando em estudos, pesquisas, reuniões e até votações dentro da comissão organizadora para que tudo seja decidido em conjunto. É um grande esforço coletivo para fazer acontecer”.
Segundo ela, a Fundação de Turismo é responsável pela logística e operação da Fenarreco, mesmo sendo uma festa oficial da Prefeitura de Brusque, é a Fundação quem lidera as organizações e faz a ponte com as demais secretarias.
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias II, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.