Por: Érica Guckert, Priscilla Gomes, Rafael Alves e Saulo Philippe
Muito além da prática com cavalos, a equoterapia é um método terapêutico e educacional que utiliza o movimento do animal para promover o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social de pessoas com deficiência ou necessidades específicas. A terapia é realizada por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais das áreas da saúde, educação e equitação, que atua de forma integrada para atender às necessidades de cada praticante.
Os primeiros registros do uso dos cavalos para fins terapêuticos remontam à Grécia Antiga, quando Hipócrates já descrevia os benefícios da montaria para a saúde. A equoterapia moderna, no entanto, começou a ser estruturada na Europa durante o século XX.
No Brasil, a prática foi introduzida em 1971 e ganhou força em 1989, com a criação da Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-Brasil), responsável por difundir e padronizar o método no país. O reconhecimento oficial veio em 1997, pelo Conselho Federal de Medicina, e, em 2019, a Lei Federal nº 13.830 regulamentou a atividade em todo o território nacional.
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O principal diferencial da equoterapia está no movimento tridimensional do cavalo, semelhante ao da marcha humana. Durante a montaria, o praticante recebe estímulos constantes que favorecem o equilíbrio, a coordenação motora, a postura, o fortalecimento muscular e o controle do tônus.
Além dos ganhos físicos, a terapia também contribui para o desenvolvimento da atenção, da comunicação, da autoestima, da autonomia e da interação social.
O método é indicado para pessoas de diferentes idades e condições clínicas, como transtorno do espectro autista (TEA), síndrome de Down, paralisia cerebral, esclerose múltipla, TDAH, deficiências físicas e intelectuais, entre outras condições em que a terapia possa auxiliar na reabilitação e no desenvolvimento.
Conforme dados da Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-Brasil), o país conta atualmente com cerca de 450 centros de atendimento, entre entidades filiadas e agregadas, distribuídos por praticamente todo o território nacional. Juntas, essas instituições garantem assistência para aproximadamente 25 mil pessoas, oferecendo acompanhamento especializado a praticantes com diferentes necessidades.
No entanto, o número de locais que oferecem equoterapia é ainda maior. Isso porque nem todos os serviços são filiados ou agregados à ANDE-Brasil. Diversas Apaes, prefeituras, entidades filantrópicas e instituições privadas mantêm programas próprios de equoterapia, muitas vezes gratuitos ou custeados pelo poder público, sem integrar o cadastro da associação.
Santa Catarina também vem ampliando a oferta da equoterapia por meio de iniciativas públicas e de entidades filantrópicas. Um dos principais exemplos é o Centro de Equoterapia da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), em São José, que reúne uma equipe multidisciplinar formada por policiais militares e profissionais das áreas da saúde, educação e equitação.
Além das unidades vinculadas à PMSC, um levantamento realizado em sites de prefeituras, Apaes e instituições especializadas identificou 31 municípios catarinenses com oferta de equoterapia gratuita ou custeada pelo poder público. Os atendimentos são realizados por diferentes instituições, como associações, Apaes, fundações e centros conveniados aos municípios.
Entre os municípios identificados com oferta de equoterapia, a maior concentração está no Vale do Itajaí e no Oeste Catarinense.
Vale do Itajaí: Agronômica, Balneário Camboriú, Blumenau, Camboriú, Itajaí, Itapema, Pomerode e Witmarsum.
Oeste Catarinense: Água Doce, Caçador, Campos Novos, Chapecó, Concórdia, Faxinal dos Guedes, Itapiranga, Modelo, Ponte Serrada, Seara, Videira e Xaxim.
Grande Florianópolis: Biguaçu, Florianópolis e São José.
Norte Catarinense: Jaraguá do Sul, Joinville e Mafra.
Sul Catarinense: Araranguá, Cocal do Sul, Içara, Laguna e Urussanga.
Os dados mostram que a equoterapia está presente em diferentes regiões do estado, com maior concentração no Vale do Itajaí e no Oeste Catarinense, evidenciando a expansão da terapia e a ampliação do acesso ao tratamento para crianças, adolescentes e adultos.
Equoterapia: um tratamento construído por muitas mãos
Muito além da relação entre uma pessoa e um cavalo, a equoterapia é um método terapêutico que une saúde, educação e inclusão. A partir do movimento do animal e do trabalho integrado de diferentes profissionais, crianças, jovens e adultos encontram um espaço para desenvolver habilidades motoras, cognitivas, emocionais e sociais, sempre respeitando suas necessidades e potencialidades.
É nesse cenário que está o Centro de Equoterapia Equovida, em Itapema. Desde 2015, o espaço realiza atendimentos em equoterapia, oferecendo acompanhamento individualizado por meio de uma equipe multiprofissional. Mais do que promover sessões terapêuticas, o centro constrói uma rede de cuidado que envolve famílias, escolas e outros profissionais, reforçando que cada evolução é resultado de um trabalho conjunto.
Antes da primeira sessão, cada praticante passa por um processo de avaliação que vai muito além de um diagnóstico clínico. No Centro de Equoterapia Equovida, o praticante é recebido por uma equipe multiprofissional, formada por fisioterapeutas, psicóloga, fonoaudióloga e pedagogas, que analisa suas potencialidades e necessidades para definir como será conduzido o tratamento.
Essa avaliação também determina qual profissional assumirá a condução principal da terapia. Enquanto uma criança com maiores demandas motoras pode ser acompanhada prioritariamente pela fisioterapia, outra que apresente dificuldades na comunicação ou na aprendizagem terá como referência a fonoaudiologia ou a pedagogia. Embora cada caso tenha um profissional responsável, o acompanhamento é construído de forma integrada, com todos os membros da equipe contribuindo para o desenvolvimento do praticante.
O trabalho desenvolvido na Equovida não termina quando a sessão chega ao fim. Para que o tratamento tenha continuidade nos diferentes ambientes em que a criança está inserida, a equipe mantém um diálogo constante com escolas, médicos e outros profissionais da saúde.
Relatórios, reuniões e trocas de informações fazem parte da rotina do centro sempre que necessário. O objetivo é alinhar estratégias e garantir que todos os envolvidos acompanhem o praticante na mesma direção, fortalecendo o desenvolvimento dentro e fora da equoterapia. Essa integração também permite que as conquistas observadas durante as sessões sejam estimuladas no cotidiano, tornando o processo terapêutico ainda mais efetivo.
Para muitas famílias, a primeira impressão é de que a equoterapia consiste apenas em colocar a criança sobre um cavalo. No entanto, a experiência revela um cenário muito mais amplo. Cada sessão se transforma em uma oportunidade para enfrentar medos, desenvolver autonomia, aprender a esperar, conviver com outras crianças e criar vínculos em um ambiente acolhedor.
O contato com o animal, somado ao trabalho terapêutico, favorece o relaxamento e desperta a confiança dos praticantes. Aos poucos, desafios que antes pareciam difíceis passam a ser vivenciados de maneira natural, enquanto habilidades sociais e emocionais são estimuladas quase sem que a criança perceba. É justamente essa combinação entre acolhimento, natureza e intervenção profissional que faz da equoterapia uma experiência transformadora para muitos praticantes e suas famílias.
Quando a comunicação entra em cena, o cavalo também assume um papel fundamental. Seu movimento tridimensional gera estímulos que favorecem o desenvolvimento motor, sensorial e cognitivo, criando condições para que diferentes profissionais atuem de forma integrada. Na Fonoaudiologia, esse movimento se torna um aliado no desenvolvimento da linguagem e da interação social.
Mais do que estimular a fala, o objetivo é ampliar as formas de comunicação de cada praticante. Gestos, figuras, pranchas de comunicação e aplicativos são alguns dos recursos utilizados para que crianças e adultos possam se expressar, mesmo quando a fala não está presente. Assim, cada conquista representa um novo caminho para a interação com o mundo ao redor.
Foi por indicação da escola que Jéssica Munaretto descobriu que Itapema contava com um centro de equoterapia. Até então, ela nunca tinha ouvido falar sobre o tratamento. Depois da inscrição, vieram cerca de dois anos e meio de espera até que o filho, Brayan Gabriel, de 14 anos, fosse chamado para iniciar as sessões na Equovida.
O principal desafio do adolescente era um trauma de infância. Após um susto com um cachorro, ele passou a desenvolver medo de animais e insegurança para enfrentar situações do dia a dia. As primeiras sessões foram marcadas pela cautela, mas, aos poucos, o contato com os cavalos , e até mesmo com os cães que circulam pelo centro, começou a mudar essa relação.
Para Jéssica, a evolução do filho vai além da superação do medo. A cada encontro, ela percebe Brayan mais confiante para tomar decisões, se posicionar e conquistar autonomia. Um dos momentos que mais simbolizam essa transformação é quando ele começa a segurar as rédeas do cavalo.
Na visão da mãe, esse gesto representa muito mais do que conduzir o animal. É um símbolo da confiança que o filho vem construindo para assumir o controle da própria vida, passo a passo, dentro e fora da equoterapia.
As imagens aéreas permitem dimensionar a área destinada ao Centro de Equoterapia. Essa dimensão é necessária para acomodar a infraestrutura, como baias, picadeiros, pistas para as atividades terapêuticas, áreas de manejo dos animais, estacionamento e espaços de apoio aos pacientes e profissionais, garantindo o funcionamento adequado do centro.