Muito além do movimento: o impacto real do esporte na vida das pessoas
por: Adriane Serato, Gabriele Vassolowski, Leticia Fontanive e Lucas Moretto
Hoje, mexer o corpo deixou de ser uma mera escolha; é obrigatório para uma vida equilibrada. Em uma sociedade cada vez mais acelerada e estressante, com rotinas que muitas vezes deixam pouco espaço para o autocuidado, o esporte surge como uma poderosa ferramenta de saúde, bem-estar e conexão social.
A ciência confirma: a prática regular de atividades físicas não traz apenas benefícios estéticos ou de desempenho. Ela está associada à melhora do humor, à prevenção de doenças, ao aumento da qualidade de vida e até ao prolongamento da expectativa de vida. Um estudo publicado na British Journal of Sports Medicine em 2025 concluiu que, se todas as pessoas fossem tão ativas quanto os 25% mais ativos da população, adultos com mais de 40 anos poderiam viver, em média, até 5,3 anos a mais. O maior ganho ocorre justamente entre os mais sedentários: uma hora extra de caminhada por semana pode adicionar mais de 6 horas à expectativa de vida.
Mas, apesar da clareza dos benefícios, os dados mostram que grande parte da população ainda vive parada. No Brasil, segundo pesquisa do SESI, mais da metade da população com 16 anos ou mais raramente, ou nunca, pratica atividades físicas.
Esse cenário tem impacto direto na saúde da população. Ainda segundo a pesquisa, 72% dos brasileiros que se exercitam com frequência passaram o último ano sem problemas de saúde. Já entre os sedentários, 42% relataram problemas em 2022.
A relação entre saúde e movimento é ainda mais nítida na terceira idade. Um levantamento do DataSenado de 2023 mostrou que entre os idosos que praticam atividade física com frequência, 78% mantêm sua independência funcional. Entre os sedentários, o cenário é bem mais preocupante: 45% são totalmente independentes, e 16% apresentam algum grau grave de dependência.
A pesquisa ainda mostra que a prática de atividades físicas está diretamente associada à percepção de bem-estar: 56% dos idosos ativos relataram ter uma qualidade de vida ótima ou boa, enquanto esse índice cai para 36% entre os idosos sedentários.
Os benefícios do esporte também vão além da saúde física. Um estudo publicado na SciELO Brasil com mais de 860 pessoas revelou que quanto mais ativa é a pessoa, melhor sua qualidade de vida nos aspectos físicos, mentais e cognitivos. Professores, estudantes e funcionários analisados na pesquisa relataram melhorias no humor, concentração, autoestima e capacidade de enfrentar o estresse.
Esses efeitos positivos são igualmente relevantes para os jovens. Um estudo internacional realizado pela Allianz em parceria com o Comitê Olímpico Internacional mostrou que 90% dos jovens acreditam que o esporte melhora a saúde, e 72% reconhecem sua importância. No entanto, essa percepção ainda não se reflete integralmente na prática: 20% dos jovens dedicam mais de cinco horas semanais à atividade física. A diferença entre o que se entende como importante e o que se pratica na rotina revela um desafio: transformar consciência em ação.
Entre os principais obstáculos estão a falta de tempo, a ausência de companhia para treinar, o custo de vida e até o medo persistente da pandemia.
Ainda assim, quando praticam, os jovens encontram diversas motivações, como mostra o gráfico:
Os gráficos e estudos apontam em uma mesma direção: o esporte é uma força transformadora. Mas, para além dos números, existem histórias. Pessoas que venceram doenças, perderam peso, superaram traumas ou encontraram sentido em suas rotinas a partir da prática esportiva.
A seguir, conheça histórias reais de superação. Gente comum que colocou o corpo em ação — e, com isso, transformou a própria vida.
"Cada peso que eu aumentava era como se eu recuperasse um pedaço de mim"
Ana Paula Mendes Gonçalves
Ana Paula venceu a depressão com a força da musculação e, hoje, usa essa experiência para inspirar outras mulheres
Quando a tristeza virou rotina e os dias começaram a se repetir entre o trabalho remoto e longos períodos na cama, Ana Paula Mendes Gonçalves, de 25 anos, percebeu que precisava de uma mudança. Ela enfrentava um quadro de depressão, marcado pelo isolamento e pela falta de motivação. A saída surgiu, de forma inesperada, dentro de uma academia.
Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), cerca de 5,8% da população brasileira — ou mais de 11 milhões de pessoas — vivem com depressão, tornando o Brasil o país com maior prevalência da doença na América Latina. O transtorno afeta principalmente as mulheres e é hoje considerado a principal causa de incapacidade no mundo. A OPAS alerta ainda que, em muitos casos, a depressão pode vir acompanhada de ansiedade e levar a consequências graves, como o suicídio.
“Eu estava recolhida, passando muito tempo sozinha. Até que decidi que queria mudar aquilo. Foi quando busquei a musculação como uma forma de sair desse estado”, conta Ana. O que começou como tentativa de transformar o corpo virou, na verdade, um resgate da mente.
A prática diária de exercícios teve efeito direto em sua saúde mental. “Treinando todos os dias, descobri o poder da minha mente. Cada vez que eu aumentava um peso, mesmo que fosse só um ou dois quilos, era uma conquista enorme”, relembra. Para Ana, não se tratava apenas de levantar carga; a cada movimento, ela recuperava um pedaço de si mesma.
A virada aconteceu quando ela voltou a sentir alegria. Alegria por acordar, trabalhar, ir treinar. “Eu saía da academia me sentindo viva de novo. A gente começa pensando na estética, claro, mas o verdadeiro ganho veio no mental.”
Hoje, Ana Paula é personal trainer. E carrega essa trajetória consigo, não como um passado superado, mas como uma ferramenta poderosa para ajudar outras mulheres. “Consigo conversar com minhas alunas, mostrar que elas também podem ir além. O poder da nossa mente é absurdo.”
A experiência ensinou a ela algo valioso: não se trata de pressa, e sim de processo. “Muita gente quer resultado rápido, principalmente quem está se sentindo mal. Mas a mudança exige paciência. A gente precisa ter calma e não desistir.” Foi esse mantra que a manteve firme.
Ela acredita que o exercício físico pode ser um complemento importante aos tratamentos psicológicos. “Faz a gente se sentir viva, se sentir forte — e é isso que a gente precisa para enfrentar o dia.”
Mesmo nos dias difíceis, quando o desânimo ainda bate à porta, Ana aprendeu a se levantar. “Hoje, minha mente é diferente. Eu me levanto, faço minhas atividades e me sinto ainda mais satisfeita.”
Para quem enfrenta algo semelhante, ela deixa um recado direto e forte:
“Se olhe no espelho e diga: eu vou fazer algo por você. Porque você é forte. Sua mente é forte. E você vai sair dessa.”
"Saia da cadeira, saia da cama. Faça algo pelo seu corpo e pela sua mente"
Euclides Mallon
Euclides reencontrou no Muay Thai a alegria e o vigor de viver — e quer inspirar outras gerações
Aos 74 anos, Euclides Mallon continua subindo no ringue, não para lutar contra adversários, mas para manter viva a disposição, a autoestima e a alegria de viver. Ex-militar, ele encontrou no Muay Thai a continuação de uma paixão antiga pelas artes marciais, que começou ainda na juventude, com o Karatê.
“O esporte, para mim, é tudo”, resume. “Traz disposição, alegria, autoestima. Evita o estresse, melhora o humor. Só faz bem.” Foi depois de um longo intervalo sem praticar Karatê que ele decidiu experimentar o Muay Thai. A paixão foi imediata.
O maior desafio inicial foi físico. “Eu sentia a falta de preparo, o cansaço, mas fui insistindo. Aos poucos, fui melhorando. Hoje, estou bem, graças a Deus.” Agora, com mais experiência, adapta os treinos com consciência: faz pausas estratégicas, respeita os limites do corpo — e mantém a mente ativa.
Além de um caso pessoal, a história de Euclides reflete uma realidade cada vez mais urgente. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a população idosa nas Américas cresce em ritmo acelerado, e garantir um envelhecimento saudável, com autonomia e bem-estar, é hoje uma prioridade de saúde pública. A Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030), liderada pela OPAS/OMS, tem como missão promover ambientes inclusivos, combater o etarismo e ampliar o acesso ao cuidado de qualidade.
Para a OPAS, envelhecer com saúde não significa apenas viver mais, mas sim manter a capacidade funcional e a qualidade de vida ao longo dos anos. Nesse sentido, a prática regular de atividade física, como a que Euclides adotou, é um dos pilares essenciais.
“Com 74 anos, ainda treino Muay Thai”, diz ele, que já enfrentou certo preconceito por causa da idade. “Temos que superar essas barreiras. Qualquer esporte é fundamental, independente da idade.” E completa, com orgulho: “Gosto quando vejo gente com metade da minha idade treinando comigo. Alguns nem acreditam quando digo minha idade.”
Para Euclides, o treinamento é mais do que um exercício: é autocuidado, saúde e conexão. “Me influenciou muito na autoestima, na disposição e, principalmente, na alegria de viver.”
E sua mensagem é clara e urgente:
“Saia da cadeira, saia da cama! Caminhe, corra, vá treinar. Qualquer atividade faz bem, e o Muay Thai é excelente.”
Com o corpo em movimento e a mente desperta, Euclides mostra que envelhecer não significa parar, mas sim continuar vivendo com propósito, intensidade e paixão.
“O treino ajuda, o nosso coração é um músculo.”
Luiz Fabiano Santos
Luiz Fabiano demorou quatro dias para procurar ajuda — e descobriu no hospital que estava infartando. Hoje, ele compartilha sua história para alertar quem ainda ignora os sinais.
Aos 54 anos, Luiz Fabiano sempre manteve uma rotina ativa. Treina com frequência, gosta de se cuidar, mas sem exageros. “Não sou aquele totalmente regrado, a gente dá aquelas fugidas de vez em quando”, admite com bom humor. Mesmo assim, se sentia bem e acreditava que estava no caminho certo.
Tudo mudou há cerca de dois meses. “Eu estava em casa, deu um probleminha, um mau contato no peito, vamos falar assim”, conta. “E, resumindo, após quatro dias, procurei um médico, achando que eram gases; no fim, estava infartando e precisei colocar quatro stents na máquina aqui.”
O diagnóstico pegou Luiz de surpresa. Afinal, ele se exercitava, mantinha um bom condicionamento físico e não imaginava que poderia estar com um problema no coração. Mas a resposta veio logo em seguida: o treino fez a diferença. “Na verdade, o treino me ajudou a estar aqui dando esse breve depoimento.”
Hoje, Luiz continua treinando. Com mais atenção, mas com a mesma motivação. “Treino é bom, alimentação. Então, mantenha um exercício bom, uma vida regrada. Com 54 anos, tudo muda e a máquina aqui vai envelhecendo.”
A história dele reflete uma realidade alarmante. Segundo o Ministério da Saúde, o Infarto Agudo do Miocárdio é a principal causa de morte no Brasil. E esse cenário se repete em todo o continente americano, como alerta a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Um dos principais fatores de risco é a hipertensão. Estima-se que 28% das mulheres e 43% dos homens na América Latina tenham pressão alta sem saber.
Para combater essa epidemia, a Organização Mundial da Saúde criou a Iniciativa Global HEARTS, que busca promover a prevenção e o controle das doenças cardiovasculares com ações práticas e acessíveis. A base do projeto é clara: atividade física regular, alimentação equilibrada, acompanhamento médico e atenção aos sinais do corpo.
Com o coração em recuperação e o corpo em movimento, ele deixa um recado direto para quem ainda adia as decisões sobre a própria saúde:
“Mantenha sempre o exercício em dia. Se ficar parado, até um carro estraga”
Depois de tudo, o que fica claro é que esporte não é só sobre corpos fortes, é sobre mentes mais leves, rotinas mais saudáveis e histórias que inspiram.
Cada dado, cada gráfico, cada pesquisa confirma o que a prática ensina: se mexer faz diferença. Na energia para acordar, na paciência para trabalhar, na disposição para brincar com os netos, na força para enfrentar uma doença, um medo ou até mesmo uma fase ruim.
Por isso, não é só sobre academia, esporte de alto rendimento ou um treino qualquer. É sobre levantar da cadeira, caminhar no quarteirão, subir a escada, escolher não parar. É sobre não aceitar que a rotina engula a saúde, o ânimo e os anos.
Portanto, fica o convite: saia da cadeira, saia da cama, encontre o seu esporte, respeite seus limites e comece hoje; o momento ideal não existe. Não espere chegar a segunda-feira para querer mudar de vida!
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias II, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.