O HOMEM E O MAR:

a pesca no litoral catarinense

96 horas: as marcas de um naufrágio

por Eduarda Machado e Gabrielle Rudolf

Dalmo Ladwig nasceu em Itapema no dia 11 de junho de 1956, foi criado em Itajaí e cresceu olhando para o mar, mal sabia ele que esse seria seu caminho de vida. Em 1973, aos 16 anos, pegou pela primeira vez as redes e nunca mais largou. A pesca não era só trabalho, era vocação, era identidade, era o lugar onde ele se entendia com o mundo.

Com os anos, foi crescendo dentro da profissão até virar mestre de barco, cargo com tanto conhecimento quanto responsabilidade. É o mestre quem decide, quem guia, quem responde pela embarcação e por todos que estão a bordo. E foi exatamente nessa posição que, em 7 de setembro de 2003, Dalmo enfrentou o momento mais difícil de sua vida: o naufrágio.

Ele recorda o instante em que acionou a sirene e gritou no microfone: “Pula no mar, porque o barco não volta mais, a gente acabou de perder o barco.” 

A tragédia foi real, dois tripulantes não sobreviveram. Os que restaram nadaram por três horas até alcançar o bote. Dalmo chegou com o lado esquerdo do rosto machucado e inchado, sem enxergar. Dentro da balsa, pediu aos sobreviventes que não falassem dos companheiros que se foram, queria que o ambiente fosse “leve”, se é que era possível. Era necessário manter a calma para que todos chegassem vivos. Ele conta a experiência com a seriedade de quem sabe o peso de cada decisão e com a gratidão de quem sobreviveu para contar.

Dalmo tem uma autobiografia chamada 96 horas, onde conta um pouco de sua história, tendo seu ápice no naufrágio do barco pesqueiro Pesca Chile II, no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Fora das águas, Dalmo construiu uma vida igualmente bonita. É casado, pai de duas filhas que já formaram suas próprias famílias. A casa cheia, as histórias ao redor da mesa, o orgulho de quem viu a família crescer, tudo isso compõe o outro lado desse homem do mar.

Hoje, Dalmo atua com observação e pesquisa de baleias e demais animais marinhos, uma atividade que une sua experiência de décadas no oceano com aquilo que sempre moveu sua alma: o encanto pela natureza. As constelações no céu, as cores e os cantos dos pássaros, o nascer e o pôr do sol. O mar nunca foi só um lugar de trabalho. Foi sempre, acima de tudo, um lugar de paz.