Sítio no interior do litoral norte cultiva plantas do futuro

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Espécies da propriedade, que fica na área rural da cidade de Porto Belo, são objeto de estudo sobre plantas bioativas em todo o país

Na busca por mais qualidade de vida, a enfermeira aposentada Noeli Pinheiro decidiu que iria trabalhar com o que mais lhe dava prazer: plantas. Mas não qualquer planta, plantas bioativas. Junto com o marido Edemir Martinhago, engenheiro florestal aposentado, ela deu início à concretização de um sonho. Há 12 anos, o casal decidiu viver na propriedade que pertence à família há três décadas. “A ideia era produzir algo que desse nutrição e saúde para as pessoas”, conta Noeli.

O Sítio Flora Bioativas é uma farmácia viva. Localizado no interior de Porto Belo, litoral norte de SC, possui 82 hectares e cerca de 200 espécies, que incluem plantas convencionais, nutracêuticas, medicinais e Pancs – Plantas Alimentícias Não Convencionais.

“Tudo começou quando eu fiz um curso com o Ms. engenheiro agrônomo Antônio Amaury Jr., na Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), onde ele mostrou um leque de plantas do futuro”, conta a enfermeira. O casal procurou saber sobre quais espécies poderiam ser cultivadas na propriedade, de forma que fosse possível preservar o princípio ativo de cada uma. “Então a gente plantou, fez as análises e concluímos que deu certo”, diz Noeli.

Noeli e Edemir na propriedade em Porto Belo. Foto: Samuel Palandi

As plantas mais cultivadas no sítio são ora-pro-nóbis, tupinambor, açafrão da terra, zedoária e moringa. Toda quarta-feira, Noeli entrega de 10 a 15 tipos de alimentos para consumidores que fazem parte do CSA, Comunidade que Sustenta a Agricultura. Esta é uma forma de trabalho entre produtores e consumidores, em que os consumidores pagam um valor mensal para receber a cota semanal de alimentos do sítio. “Nós começamos com 4 famílias e hoje estamos com 68”, comenta.

A CSA é um modo alternativo de economia aliada à sustentabilidade. Há uma relação de proximidade entre quem produz e quem consome o alimento, o que proporciona diversos benefícios. O produtor tem liberdade na produção, e o consumidor adquire produtos de qualidade, sabendo o local onde foram cultivados. Desde 2013 o sítio possui o certificado de produtor orgânico.

Além de produzir para a CSA, o sítio fornece alimentos para escolas dos municípios de Itapema, Bombinhas e Tijucas. Quando questionada sobre qual planta é mais poderosa, Noeli não tem dúvida: a moringa é a super planta.

Moringa (Moringa oleifera)

Detalhes da folha da moringa. Foto: Samuel Palandi.

A planta apresenta propriedades altamente nutritivas. É fonte de antioxidantes, aminoácidos, anti-inflamatórios e vitaminas. Pode conter mais proteína que a carne e chegar a até 12 metros de altura. Sua adaptação é favorável ao clima do litoral, apresentando rápido crescimento no verão.

Toda planta pode ser aproveitada na alimentação. As folhas e talos podem ser consumidos em saladas, chás e refogados.

Confira o que Noeli contou sobre as propriedades encontradas na moringa:

Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata)

Folha do ora-pro-nóbis. Foto: Samuel Palandi.

O ora-pro-nóbis é uma cactácea (família dos cactos) trepadeira muito adaptável a vários tipos de solo e clima. Com 25% de proteína, essa planta apresenta inúmeras vantagens: é nutritiva, econômica e acessível. O plantio dessa espécie é feito através de estacas plantadas no solo para criar raiz. Depois de enraizada, pode ser transferida para outro local.  

As folhas, flores e sementes são comestíveis e podem ser incluídas em sopas, omeletes e refogados, por exemplo.

Açafrão-da-terra (Curcuma longa)

Rizoma do açafrão-da-terra colhido no sítio de Noeli. Foto: Samuel Palandi.

Conhecido também como cúrcuma, apresenta propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Noeli explica que ele é indicado para quem tem a digestão lenta. “Hoje o açafrão não é só mais um condimento, é um medicamento”, afirma. A parte consumida é o rizoma (tipo de raiz), que pode ser cozido ou ralado in natura e misturado com o azeite de oliva para temperar os alimentos.

Tupinambor (Helianthus tuberosus L.)

Tubérculo do tupinambor recém colhido. Foto: Samuel Palandi.

O tupinambor é uma planta rica em inulina, um prebiótico que auxilia no controle de diabetes, colesterol, obesidade e constipação intestinal. Noeli conta que o sítio é o único fornecedor de tupinambor para fins comerciais no Brasil. “A produção é díficil, porque ela adoece muito, cria fungo e as formigas atacam”, comenta.  

A enfermeira explica que o tubérculo é colhido quando a parte aérea morre. Para consumo, ela costuma desidratar e fazer uma farinha, que pode ser usada em pães e bolos, mas também pode ser consumido in natura.

Zedoária (Curcuma zedoaria)

Também conhecida como açafrão branco, é da família do gengibre. Seu rizoma tem propriedades medicinais e condimentares. Ele cresce paralelo ao solo, com coloração azul por dentro e cheiro que lembra cânfora e mentol, podendo ser usado contra o mau hálito.

Essa planta atua principalmente no trato digestivo, evitando a azia, má digestão, prisão de ventre, cólicas e gases. Além disso, a zedoária é recomendada na prevenção e tratamento de úlceras gástricas e doenças do fígado.

Rizoma da zedoária com coloração azul-esverdeada. Reprodução:
m.tiaxica.com/zedoaria/Tia Xica.

A nutricionista vegana Gabriela Zago diz que é muito comum a pessoa ter contato com uma planta e não saber que ela é comestível. “De maneira geral, elas podem ser bastante fáceis de cultivar, podendo ser plantadas em casa”, afirma. De acordo com Gabriela, a coleta pode ser em praças e parques, desde que sejam locais limpos, longe do tráfego de carros e esgoto.

Projeto de Extensão da Univali é parceiro do Sítio Flora Bioativas

O sítio é um dos parceiros do Projeto de Extensão Educação para Transformação: meio ambiente, saúde e gênero, da Univali. O projeto possui como público-alvo mulheres agricultoras de municípios da região, o GEIA – Grupo de Estudos Interdisciplinares em Agroecologia, professores e acadêmicos da Univali e comunidade em geral.

A professora doutora Márcia Gilmara Marian Vieira é quem coordena o projeto, juntamente com o professor mestre Oscar Benigno Iza, responsável técnico pela Horta Orgânica Experimental – Ibyporã, da Univali.

As oficinas acontecem mensalmente na propriedade das mulheres agricultoras, que abrem as portas para os eventos. Também são realizados workshops, atividades em escolas, bairros e na Horta Orgânica Experimental – Ibyporã.

A coordenadora Márcia conta que a metodologia é pautada de acordo com as propostas pedagógicas de educação, na perspectiva de Paulo Freire, inspirado no Círculo de Cultura. O projeto realiza atividades na universidade conforme as temáticas sugeridas pelo próprio grupo.

De acordo com a professora, no campo da agroecologia a principal luta das mulheres é por seu reconhecimento na agricultura familiar, como produtoras agrícolas. “As mulheres merecem uma possibilidade de empoderamento e autonomia nas diretrizes da agroecologia”, diz.

A agroecologia sustentável é uma alternativa ao cenário atual do uso de agrotóxicos em larga escala. “A produção orgânica busca uma transição da agricultura convencional para formas distintas de agriculturas mais sustentáveis, com o objetivo proporcionar menor degradação dos recursos naturais e  produção de alimentos mais sadios”, conta Márcia.

Com Noeli, são desempenhados diferentes tipos de atividades, como visitas técnicas e oficinas. “Essa parceria contribui para que os participantes do projeto: agricultoras, acadêmicos e professores, possam vivenciar aspectos relacionados à agricultura orgânica e trocar conhecimentos”, conclui a professora.

O projeto de extensão contribui com publicações no campo de pesquisas. No início deste ano, foi aceito um artigo para publicação na Revista de Educação Popular intitulado como “Agricultura Sustentável: favorecendo ambientes saudáveis e o empoderamento feminino”. O projeto também apresentou três resumos submetidos e aprovados no evento IV Simpósio de Ciência e Tecnologia Ambiental. Além disso, no primeiro semestre foram submetidos quatro resumos expandidos para o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia.

Todos os meses as mulheres agricultoras participantes estão presentes na Feira Universidade Ecosolidária para vender os produtos provenientes da agricultura agroecológica. O evento acontece em frente à Biblioteca Central da Univali, em Itajaí, das 9h às 21h. No dia 6 de junho, a feira comemorou 10 anos na 67ª edição.

Gilda Sabina Felicio, 58 anos, de Itajaí, é uma das participantes. Ela contou sobre a experiência e os conhecimentos adquiridos no Projeto Educação para Transformação.

Para saber mais sobre o Projeto, acompanhe as redes sociais @educacaoparatransformacao e Educação para Transformação.

Para quem tiver interesse em visitar o Sítio Flora Bioativas, é necessário agendar visita, através do e-mail sitioflorabioativas@gmail.com ou do telefone (48) 99999 9684.

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