Parte 5 – Além das barreiras: Amigos do Haiti

Com a chegada dos imigrantes, redes de apoio foram sendo criadas para atender as necessidades dos novos moradores

Amigos do Haiti é o nome de um dos primeiros programas de rádio feito por haitianos para a comunidade haitiana da qual se tem conhecimento no Brasil. Há quatro anos no ar, o programa é realizado ao vivo, todos os domingos entre 8 horas e 9 horas. Apresentado por Wismick Joseph, que também é pastor e presidente da Associação de Haitianos em Balneário Camboriú, o Amigos do Haiti é transmitido pela a Rádio Natureza, 98.3 FM, veículo de comunicação – associado à Igreja Luz da Vida.

Música, notícias de interesse da comunidade haitiana e orações fazem parte da programação que é animada por hinos gospel em crioulo e português. O programa ajuda os haitianos, informa sobre tudo o que acontece no Haiti, também fala sobre vagas de empregos e em universidades, problemas enfrentados pelos haitianos, como racismo e preconceito, e questões da associação de haitianos.

O Amigos do Haiti é o primeiro programa de haitianos feito para a comunidade haitiana do Brasil | Foto: Juny Hugen

O Amigos do Haiti tornou-se um canal de informação e comunicação para a comunidade haitiana, que ganhou voz na Rádio Natureza. A interação dos haitianos é percebida, principalmente, através do Facebook, plataforma onde são compartilhadas as Lives do programa. Durante a transmissão, muitos deles enviam mensagem para Joseph. “Como a gente está ao vivo, eles falam para divulgarmos vários assuntos”. Além das divulgações e serviços prestados à comunidade haitiana, dicas também são compartilhadas no programa, como os cuidados que os haitianos podem tomar para evitar acidentes e situações de risco, como não envolver-se em brigas e seguir as leis.


“Como a gente está ao vivo, eles falam para divulgarmos vários assuntos”

Outra orientação divulgada é sobre os fluxos migratórios dos haitianos para outros países, principalmente os Estados Unidos. Eles, na esperança de melhorar ainda mais de vida, vão em direção à “terra prometida”, mas, na maioria das vezes, não conseguem chegar ao destino dos sonhos. Alguns ficam no meio do caminho e têm que voltar, outros, em situações ainda mais extremas, morrem.

Há cerca de dois anos comandando o programa, o pastor conta que antes dele, outros haitianos foram apresentadores do Amigos do Haiti. O convite feito para Joseph apresentar o programa partiu do locutor Albino Kamer, mais conhecido como Magrão do K. Kamer é um experiente comunicador em Santa Catarina. Já trabalhou nos principais veículos do Sul como a Rádio Atlântida FM e RBS TV (afiliada da Rede Globo), na Rádio Antena 1 e em emissoras de tvs e rádios locais como a TV Panorama de Balneário Camboriú e na assessoria de imprensa da prefeitura do município e da cidade paranaense de Palotina. Apresentador e mestre de cerimônias é   fluente em inglês, francês e espanhol, além de domínio do alemão, italiano e crioulo. Atualmente é produtor e apresentador do programa “Cirkuito” transmitido pelas rádios Natureza FM e Camboriú AM na cidade de Balneário Camboriú. Também dá aulas de inglês e português para estrangeiros. É responsável pela sonoplastia do Amigos do Haiti, além de participar junto com Joseph da atração de rádio voltado aos haitianos. “Passaram vários apresentadores, mas quando o pastor chegou o programa passou a ser mais evangélico”. Ele ainda enfatiza que o Amigos do Haiti nasceu para proporcionar a inclusão social. Se denominando cristão evangélico, começou o trabalho com os haitianos numa igreja.

O envolvimento de Kamer com a comunidade haitiana não se limita apenas ao programa de rádio. Ele também foi um dos fundadores do curso ‘Eu falo português’, formação direcionada para a comunidade haitiana. O curso, ministrado entre 2014 e 2015, formou cerca de cem haitianos e tinha o objetivo de auxiliar na aprendizagem da língua portuguesa. Aliás, foi em um dos encontros que a haitiana Margarete Pierre compartilhou a ideia da realização de um programa de rádio e, junto de outros haitianos, apresentou a proposta para a Rádio Natureza.

Kamer também trabalha com aulas de português especiais, com foco nas dificuldades individuais dos haitianos. “O português que trabalho com os estrangeiros é diferente daquele que aprendemos na escola, pois as dificuldades deles são diferentes. Para eles, é difícil acertar os pronomes por exemplo”, destaca.

Além dos cursos de português realizados em Balneário Camboriú, há outras formações disponíveis na Região do Vale do Itajaí.

Navegantes

Nem o domingo chuvoso e frio tira o ânimo de quem precisa aprender a língua portuguesa. Cada palavra descoberta e cada frase completada são passos a mais para ter melhores chances no mercado de trabalho e melhor comunicação no novo lar. Com a ajuda do smartphone, consultando um site de busca, Michelson Gachette, um jovem haitiano de 19 anos, faz o papel de professor. Na sala de aula, dentro do Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (CAIC) de Navegantes, as histórias se cruzam e a meta é uma só: aprender o idioma.

Michelson (19) é responsável por ministrar aulas de português em Navegantes | Foto: Artur Bezerra

O jovem Michelson, que atualmente ensina português, também chegou sem dominar o idioma. Ele e a família se mudaram para Navegantes há quatro anos, fugindo das dificuldades econômicas e da falta de emprego no Haiti. Quebrou a barreira da língua ao se matricular em uma escola de ensino médio da cidade. Concluiu em 2018. Aprender português e concluir os estudos foram passos gigantescos para o operário de uma empresa de manipulação de pescados, que sonha desde criança em ser médico. “No Haiti não tem condições de fazer uma faculdade, é tudo muito caro. É preciso ter muito gourde para poder cursar o ensino superior lá”.

Jemps Lucien é o atual presidente da Associação de Haitianos de Navegantes | Foto: Artur Bezerra

As aulas de português são promovidas pela Associação dos haitianos de Navegantes (Asham), presidida pelo soldador Jemps Lucien, que também sofreu com a barreira do idioma. Lucien  chegou ao Brasil há cinco anos, morou em Tabatinga, no Amazonas, depois no Peru e, também, na Colômbia, mas aceitou o convite para morar na região do Vale do Itajaí. Falando português com fluência, ele quer dar continuidade ao curso de Direito que começou no Haiti.

Camboriú

Em Camboriú, outra cidade do Vale do Itajaí, para aprender a língua portuguesa alguns haitianos percorrem um longo trajeto de bicicleta até chegar ao Instituto Federal Catarinense (IFC), local em que são realizadas as aulas. Há um ano no Brasil, embora nunca tenha feito aula de português antes, Gideon consegue se comunicar bem – em seu primeiro dia em sala – com Flávia Walter e Luciana Colussi, professoras dos haitianos no IFC.

Em seu primeiro dia de aula, apesar da falta de fluência, Gideon Natus consegue se comunicar bem com as professoras | Foto: Juny Hugen

De todas as situações vivenciadas, uma chama atenção: Gideon foi vítima de um acidente no primeiro trabalho que encontrou em território brasileiro. Contratado em uma marmoraria, recorda que o encarregado não o instruiu a utilizar os equipamentos. As consequências da imprudência da empresa estão refletidas na mão do haitiano, que machucou quatro dedos. “Ninguém me ensinou como fazer o trabalho”. Na República Dominicana, último país em que morou antes de vir para o Brasil, Gideon era guia de turismo. A profissão rendeu para ele ótimas oportunidades e melhor condição de vida. Em solo brasileiro, por enquanto, ele ainda não conseguiu exercer a função, nem fazer cursos na área.

As aulas de português no Instituto Federal Catarinense começaram em 2016, e nasceram a partir da palestra que uma professora deu sobre mobilidade urbana, exatamente porque os haitianos enfrentam um tráfego perigoso ao andar com o principal meio de locomoção para eles, a bicicleta. Percebeu-se que, antes de falar sobre mobilidade, eles precisavam aprender português para entender o contexto da fala da professora.

Alguns dos alunos que participaram das turmas de português não só aprenderam o idioma como também passaram a frequentar o ensino superior

A partir da necessidade do aprendizado do português, as aulas do curso foram planejadas de modo que a rotatividade de alunos não atrapalhasse. “As aulas são temáticas, ou seja, cada semana trabalhamos um assunto diferente”, explica Luciana. Além de explorar o vocabulário, de vez em quando as professoras também ensinam gramática.

Segundo a professora Flávia, alguns dos alunos que participaram das turmas de português não só aprenderam o idioma como também passaram a frequentar o ensino superior em faculdades, como a Avantis, núcleo de ensino tradicional da região do Vale do Itajaí. “Há um aluno que, agora, está cursando gastronomia e trabalhando em um restaurante bem conceituado. Ele sempre nos agradece, pois foi a partir de uma vaga anunciada por nós que conquistou esta oportunidade”. Além das aulas de português no IFC, os haitianos podem fazer aulas de informática e participar de palestras com temas de seu interesse.

Blumenau

Há cerca de 67 quilômetros de Camboriú, haitianos moradores de Blumenau também enfrentam vários desafios para aprender uma nova língua. Na cidade, o curso de português é, assim como em Navegantes, oferecido pela Associação de Haitianos. Quem ministra as aulas é o presidente da associação, Webster Fievre. Todos os domingos, ele se reúne com uma turma para passar o conhecimento adquirido. Em seu ponto de vista, um dos maiores empecilhos para que os haitianos consigam aprender a língua é a regra gramatical. “Eles também não costumam falar em casa para praticar”.

Todas as semanas, são ministradas aulas de português para os haitianos de Blumenau | Foto: Juny Hugen

Dos seis haitianos presentes na aula, quatro não conseguiram emprego, justamente por não falarem o português. Mulheres de meia idade, todas com profissões como costureira e cozinheira no Haiti, há meses batem na porta das fábricas na expectativa de serem contratadas, mas recebem as mesmas respostas, sem dominar o idioma é quase impossível a contratação.

Magdala Pascal é uma das haitianas que sofre as consequências do desconhecimento da língua portuguesa. “Se não falar o idioma, não consegue. Eu quero trabalhar”. No Haiti, Magdala trabalhava com gastronomia, no Brasil, não consegue emprego nem em outra área . “Eu estou me sentindo muito mal”. Os poucos cursos oferecidos, atrelados a própria resistência dos haitianos em aprender a língua, torna-se motivo significante para que não consigam o primeiro trabalho.

Mais apoio

Na Região do Vale do Itajaí, outra rede de apoio para os haitianos fica dentro da universidade. O Escritório de Relações Internacionais (ERI) da Univali, localizado em Balneário Camboriú, é um programa de extensão, e conta  —  além dos professores  —  com 13 alunos voluntários e três alunos estagiando. Um dos objetivos do ERI desde 2014, é atender imigrantes e refugiados, principalmente haitianos, principal público atendido. O escritório disponibiliza alguns serviços como auxílio na regularização e obtenção de documentos, ajuda para inserção dos imigrantes no mercado de trabalho e cursos de português. Os atendimentos de haitianos são feitos através de agendamento e realizados três dias na semana.

Segundo o professor de Relações Internacionais, Ricardo Boff, um dos responsáveis pela coordenação do ERI, a principal demanda dos haitianos é relacionada à documentação. Aliás, para facilitar este quesito, a Univali possui convênio com a Polícia Federal e com a Embaixada do Haiti, o que torna os processos mais rápidos e eficazes. O ERI presta apoio ao preenchimento de formulários para pedidos de vistos e requerimento de passaporte.

No ERI, os haitianos recebem auxílio para regularizar suas documentações | Foto: Juny Hugen

Para quem acompanha a rotina, é perceptível que novas exigências têm sido impostas nos últimos meses. A estagiária e acadêmica do 4° período de Relações Internacionais da Univali, Raysa Labes Soares, conta que uma das novas solicitações é a aquisição de uma certidão consular, para então os haitianos poderem emitir a Carteira de Registro Nacional Migratório (RNM)  —  documento obrigatório para estrangeiros. “Isso é mais uma burocracia, pois antes não era solicitada a certidão consular”.

Outro pedido solicitados pelos haitianos ao ERI é o reagrupamento familiar, isto porque, em muitos casos, a família dos imigrantes acaba se separando, uns ficando no Haiti e outros vindo para o Brasil. Em relação às demandas relacionadas à questões jurídicas, os haitianos são orientados a buscarem o Escritório Modelo de Advocacia (EMA) da Univali.

Fora dos portões da universidade, dos municípios do Vale do Itajaí onde está o maior número de haitianos, apenas Balneário Camboriú mantém um projeto de atenção exclusiva aos imigrantes. O Grupo Cultura Brasileira e Língua Portuguesa é desenvolvido desde 2018 pelo psicólogo Fabrício Rodrigues dos Santos e outros técnicos do Centro de Referência e Assistência Social (CRAS). O projeto atende em diversas frentes, como saúde, educação, previdência social, cultura regional e grupos de socialização, além de oferecer oficinas de música e aula de língua portuguesa através de um convênio com a Univali. O grupo também orienta os imigrantes que precisam de serviços sociais a fazer a inclusão no Cadastro Único do Governo Federal.

Em Blumenau, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social, os haitianos são atendidos nos programas como todos os outros cidadãos. Em Itajaí, também não há atendimento diferenciado porque a política do município é que todos sejam atendidos de forma igual, independente de raça, cor e etnia. Em Navegantes, a situação é a mesma.  O atendimento é via CRAS, assim como é feito com qualquer pessoa que mora no município e precisa de serviços sociais. 

A Secretaria de Desenvolvimento Social de Santa Catarina afirma que, com a reforma administrativa feita em junho de 2019, criou a Gerência de Igualdade Racial e Imigrantes que está fazendo um diagnóstico de quantos imigrantes vivem em território catarinense e qual é o perfil. Só depois pretende-se implantar de fato uma política pública para atendê-los, como explica a diretora dos Direitos Humanos da secretaria, Karina Euzébio.

O Estado tem buscado também fortalecer uma rede integrada para tratar de saúde, educação e assistência social contando com as Pastorais do Migrante e com as associações dos imigrantes que são braços importantes para atendimento às necessidades. Os dados coletados através de um sistema chamado Business Intelligence vão mostrar a verdadeira situação e, só assim, efetivamente vai ser estruturada uma política pública.

O Estado tem buscado também fortalecer uma rede integrada para tratar da saúde, educação e assistência social dos imigrantes

Santa Catarina é o segundo estado que mais empregou imigrantes no Brasil no último levantamento do Ministério do Trabalho em 2018. Fica atrás apenas de São Paulo. Foram 12% de trabalhadores imigrantes, quase metade haitianos, conforme matéria divulgada no site da própria secretaria. O número de haitianos é alto e apenas algumas ações oficiais são feitas em Santa Catarina, como  parcerias entre o Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho, Defensoria Pública da União, Polícia Federal, Universidade Fronteira Sul, OIM, Instituto Federal de Santa Catarina, Polícia Rodoviária Federal que mantém palestras com temas sobre regularização da documentação para migrantes, visto residência, além de esclarecer sobre a Política Nacional Migratória/Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas; Metodologia de Assistência a Migrantes em Situação de Vulnerabilidade, Mulheres e Meninas Fronteiriças e seminários para capacitar os funcionários públicos que lidam com essa população.

Acesse a matéria completa na versão flip clicando aqui.


Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog

Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen

Destaques