Parte 2 – Além das barreiras: os desafios do novo lar

Imigrantes haitianos lutam para aprender o português e enfrentam dificuldades para se inserir nas comunidades catarinenses

Webster Fievre não tinha visto quando saiu do Haiti em 2014. Na época, a Embaixada Brasileira no país não dava conta de atender a todos os pedidos. Assim como outros haitianos, Fievre escolheu o Brasil devido à acolhida humanitária que facilitou a entrada em território brasileiro. O professor Ricardo Boff, do curso de Relações Internacionais da Univali, analisa que, como o Brasil comandava a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), houve uma aproximação entre os países. Boff ainda pontua que, ONGs e igrejas brasileiras, em missão no Haiti, também pressionaram o governo brasileiro para dar a acolhida.

Desde que chegou, muitos foram os desafios enfrentados por Webster Fievre professor de idiomas e presidente da Associação de Haitianos de Blumenau | Foto: Juny Hugen

No caso de Fievre, como não tinha visto, primeiro precisava desembarcar em um local seguro e que o aceitasse, por isso cruzou o oceano para chegar ao Equador. Em território equatoriano, pegou um avião e, após seis horas, desembarcou no Peru. Já em território latino-americano foram mais de dois dias de viagem até Brasiléia — Acre. “Essa viagem que fazemos é ilegal, não deveria ser assim, mas a gente faz”, conta Fievre. Muitas vezes, os imigrantes são postos em situações de risco. “Imagine uma pessoa que não fala o idioma, ela aceita qualquer condição para chegar ao destino final e pagar qualquer valor para isso”, afirma. Mesmo com os perigos, ele diz que vale a pena, pois somente assim eles podem ter esperança de uma vida melhor.


“Essa viagem que fazemos é ilegal, não deveria ser assim, mas a gente faz”

O haitiano conta que para a viagem é preciso uma condição financeira para poder pagar as passagens e os coiotes — homens que cobram para atravessar ilegalmente os imigrantes pela fronteira. Ele gastou cerca de R$ 7 mil. Uma das possibilidades é sair da capital do seu país com visto e vir de avião para São Paulo, ou passar por outros países como o Equador e entrar sem o documento. Nestes casos, é preciso atravessar o Peru de ônibus até Puerto Maldonado e seguir até Assis Brasil — já no Acre. Ou ainda optar pela rota boliviana até a cidade de Cobija e entrar em Brasiléia — também no Acre — para se apresentar na fronteira com o Brasil.

Cidade de Brasiléia, no estado do Acre, é uma das portas de entrada dos imigrantes haitianos para ingressar no Brasil

A entrada irregular propicia a ação dos coiotes que cobram para auxiliar o imigrante a passar pela fronteira. Fievre destaca o desconhecimento do espanhol e português como uma dificuldade ao entrar no Brasil. A falta de segurança também aumenta os riscos da viagem. Há relatos de abuso sexual e até mortes. 

A vontade de melhorar as condições e deixar o cenário de miséria é tão intensa que mobiliza milhares de haitianos ao redor do mundo. Após a mudança para outros países e a conquista da estabilidade, Fievre conta que é comum um grupo juntar dinheiro para pagar a vinda de filhos, irmãos ou outros parentes. “Cada haitiano no exterior envia recursos para a família que ficou no país”. Ele recorda que os imigrantes da diáspora ajudam na economia do Haiti. A cada transferência feita, uma taxa é cobrada. Mesmo com a parte do imposto coletada pelo governo, os recursos enviados para os familiares fazem muita diferença. Isto porque a moeda do Haiti possui valor menos expressivo do que o Real. “O dinheiro que a gente ganha aqui, acrescenta um zero, é o quanto vale a moeda do Haiti. Ou seja, se ganha mil reais, é 10.000 gourdes”, explica Fievre. 

O gourde é a moeda oficial do Haiti

O professor de linguística, Leonel Joseph, afirma que, por causa da inflação alta do Haiti, é difícil ter valores exatos da quantia necessária para uma pessoa comprar o básico para viver mensalmente. Ele estima que, para uma compra mínima de alimentos, seriam necessários 200 dólares americanos, perto de 19 mil gourdes ou R$ 822,00 – valores calculados no câmbio de 10 de outubro de 2019. A maioria dos haitianos vive com menos de R$ 20 por dia, relata Fievre.

Antes de conseguir o primeiro emprego e começar a ajudar os familiares, Fievre teve que esperar. Por dois anos morou na capital de Rondônia, Porto Velho, até que empresas de Blumenau — cidade no Vale do Itajaí —, como a Nathor — empresa de triciclos e bicicletas — e a Thabrulai — especializada em pães — começaram a buscar os haitianos, pois precisavam de mão de obra. Ele chegou na cidade em 2016 e, após alguns meses, a situação começou a melhorar.

Fluente em cinco idiomas, ele dá aulas de inglês, francês e alemão no Serviço Social do Comércio (Sesc) em Blumenau. Um caso que lhe marcou como professor foi numa primeira aula de Alemão no Sesc, quando um aluno demonstrou espanto ao perceber que havia um negro ensinando alemão. O futuro engenheiro completa que algumas pessoas ficam supondo como ele conseguiu aprender o idioma. 

Fievre, que cursa a segunda faculdade, Engenharia de Software, na Unicesumar, também já se viu questionado por ter escolhido a área. Isto por ter nascido em um país pobre e sem muitos recursos para tecnologia. “Eu faço o que eu sei, sigo o meu caminho porque não podemos deixar as pessoas nos influenciarem”. Em 2017, Webster conseguiu trazer sua mãe para o Brasil.  Mesmo sentindo saudade do país de origem, as lembranças do Haiti não são positivas, pois se recorda da pobreza, desemprego e falta de recursos básicos.


“Eu faço o que eu sei, sigo o meu caminho porque não podemos deixar as pessoas nos influenciarem”

O professor é presidente da Associação de Haitianos de Blumenau e busca ajudar sua comunidade, inclusive, a ultrapassar a barreira do idioma. O imigrante ainda enfatiza a dificuldade de inserção social. “A gente tem mais contato com o pessoal da igreja, porque nela somos todos iguais”, destaca.

“Para os haitianos, a religião e a família são fundamentais”. A afirmação é do pastor Günther Bayerl Padilha, da Igreja de Confissão Luterana, localizada em Itapema — litoral do Vale do Itajaí. Mestrando em Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ele pesquisa sobre as redes de migração como estratégia de sobrevivência, com foco na igreja como uma destas estratégias. No levantamento para dissertação, Padilha já constatou que a  igreja é um espaço de convívio, comunicação e articulação para os projetos sociais. “As igrejas Pentecostais e Católicas oferecem uma estrutura social com alguns serviços, pois as políticas públicas são deficientes”. 

Entre 2017 e 2018, em Itapema, as igrejas Católica, Presbiteriana e de Confissão Luterana desenvolveram, para os haitianos, projetos de cursos de português, direitos do trabalho, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e Lei Maria da Penha, além de cursos profissionalizantes como o de panificação. Para a mestre em Teologia, Maria Glória Dittrich, as igrejas desenvolvem um projeto de base para o acolhimento. “É um novo tempo, uma nova terra, e é preciso acolher todos aqueles que chegam e estão em sofrimento”. 

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Edição especial da pauta ‘Além das barreiras: o recomeçar de haitianos em terras catarinenses’ selecionada para a 11ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão do Instituto Vladimir Herzog

Uma reportagem de: Artur Bezerra e Juny Hugen
Orientação: Almeri Cezino (jornalista da TV Univali) e Marcelo Soares (jornalista mentor indicado pelo IVH)
Diagramação: Gustavo Zonta e Juny Hugen

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