O limite do humor

Dihh-Lopes

“A zoeira não tem limites”. Ou será que tem? 

Os 4 Amigos são hoje um grupo de Stand Up renomado no Brasil e de ascensão meteórica. Durante seus shows, os quatro humoristas se revezam contando piadas, cada um com seu estilo e repertório. Um destes é Dihh Lopes, conhecido pelo seu humor negro.

Em seus shows, Dihh costuma usar desastres, incidentes, casos famosos como o da família Nardoni ou do goleiro Bruno para fazer suas piadas. Outra coisa que ele adora dizer é: “Vocês que estão rindo são tão ruins quanto eu que tô fazendo a piada”. Mas será que funciona assim?

Grupo de Stand Up Comedy – 4 Amigos (Afonso Padilha, Thiago Ventura, Márcio Donato e Dihh Lopes – Foto: Divulgação)

Renato Sobral é humorista amador, faz shows em bares de amigos e se apresenta quando surgem oportunidades. “Quando a plateia tá difícil, humor negro pode quebrar o gelo e ser sua glória, mas também pode ser o final do seu show”. Essa foi a primeira coisa que Renato falou quando questionado sobre esse tipo de humor.

Hoje com 27 anos, ele afirma ter a maturidade suficiente para entender quando usar e quando não usar certos assuntos. “Eu não posso estar em um ambiente com pais e começar a falar sobre o atentado de Suzano. Eu não gosto de fazer piadas com tragédias recém ocorridas também. Agora em outro ambiente, mais despojado, com alguns amigos, não tem problema soltar algumas mais pesadas”, afirma Renato.

Ele lembra que uma mulher chegou a se retirar no meio de um show enquanto ele fazia piadas sobre pessoas com alguma parte do corpo a menos (braço, perna, mão, dedo). Segundo ele, ela estava relutante em rir há algum tempo, mas ele estava no bar de um amigo e rodeado por pessoas rindo muito de suas piadas, sabia que o clima estava agradável, apenas ela não estava gostando. “Eu fazia algumas imitações, mancava e coisas parecidas, todos estavam gostando, mas ela se incomodou e saiu. Faz parte do nosso trabalho”, acredita Sobral.

Para tentar entender melhor a situação, é necessário compreender todos os lados. Sibele Dias foi a mulher que saiu do show de Sobral. Ela diz não ter nada contra o humorista. “Eu estava lá e não sabia que teria um show de comédia. Quando começou, eu até estava aberta para gostar. No entanto, ele começou com piadas que não eram do meu agrado e preferi me retirar”, conta Sibele.

Ela afirma não ter nenhuma mágoa do dia, apenas não queria estragar o show para quem estava gostando. Todos estavam rindo e o desconforto fez ela sair, sem confusão ou tumulto, apenas se retirou.

Quando questionada sobre o uso de humor, Sibele afirma não achar errado, porém, acredita ser uma ferramenta muito baixa. “Usar humor negro em uma apresentação é como falar de sexo para atrair a atenção de adolescentes ou dar um doce para uma criança, é algo vazio mas funcional, não me agrada mas desde que não me envolva, não ligo”.

Por outro lado, o dono do estabelecimento onde teve o show afirmou que é indiferente para ele. “Você precisa arriscar, assim como quando você coloca música ao vivo, vai agradar um público e desagradar outro, não tem como agradar todo mundo. Aquela noite foi bastante agradável, esse ocorrido não diminui em nada o show que tivemos”, conta Marcelo Schmitt.

Além disso, ele sabe do risco por já conhecer o humorista e o incentivou a não mudar seu estilo naquela noite. “Queríamos um show típico do Sobral e foi o que tivemos”, termina Marcelo sem demonstrar nenhum arrependimento.

Dihh Lopes tem um programa na web, chamado “Piadas para a família”, em que usa de um título irônico para divulgar piadas de humor negro. No início de cada vídeo, ele deixa um aviso para quem não gosta deste tipo de conteúdo, informando o que virá.

A internet proporciona isso, uma prévia de tudo que você verá, algo que não acontece no cotidiano. Piada e ofensa não são a mesma coisa, piada não é bullying, não tem receptor especifico, é para todos.

Aviso antes dos vídeos “Piadas para a família”

A psicóloga Regiane Soares, 53 anos, explica alguns danos que podem ser causados pelas brincadeiras. “Atendo muitas pessoas, principalmente crianças, que sofrem muito com piadas e brincadeiras dos colegas, mas temos que separar o profissional de alguém que ataca na rua”, cita a psicóloga. 

Regiane afirma que existe a diferença entre o profissional, que trabalha para fazer as pessoas rirem, se uma piada funcionar com o público, tudo é válido. Ela também deixa claro o acesso à informação que temos, o quanto é difícil você ver um material pela primeira vez ao vivo, sem uma prévia pela internet. “Você não precisa atirar no escuro, você pode saber o que quer e o que não quer ouvir. Se o humorista apela para humor negro e você não gosta, você pode apenas evitá-lo, não é como se fosse obrigado a ver tudo que ele faz, afinal, ele está trabalhando”. Diversas vezes a psicóloga lembrou a importância de separar humor profissional e brincadeiras feitas para ofender, geralmente com desconhecidos.

Em um documentário intitulado “O Riso dos Outros”, profissionais da área falam sua opinião sobre o que seria o limite do humor. Mesmo entre os profissionais da área, existem opiniões controversas, com o público não poderia ser diferente.

Documentário – O Riso dos Outros

Em entrevista com Gustavo Estevam, estudante de análise e desenvolvimento de sistemas, que passou por dificuldades durante a infância por causa de bullying, ele revela não ter mágoas quanto a isso. “Eu gosto de humor negro, não vejo problema em fazer piada sobre todo e qualquer assunto”, afirma Gustavo. 

No decorrer da conversa, o estudante se manteve sempre a favor de todo e qualquer tipo de humor, mesmo quando piadas eram citadas. Dado o contexto do momento que foram usadas, ele ria de todas da mesma forma. 

“Eu nunca achei errado tirar sarro de alguém, nunca achei errado zoar alguém, nunca me importei com isso desde que a pessoa saiba lidar com isso também. A maior parte do meu grupo de amigos é assim, eu brinco com eles e eles fazem de volta, é normal”, finaliza Estevam.

Existe diferença entre humor negro e ofensa. A partir do momento que a piada é feita no palco, direcionada a pessoas distintas, com histórias e cargas distintas, não deve ser considerada uma ofensa. Quando o comentário é direcionado, fora do âmbito profissional e sem a intenção de fazer o receptor rir, não deve ser considerado humor. Piadas sempre geraram discussões, fruto de opiniões distintas que sempre existirão. Thiago Ventura, outro humorista do 4 Amigos, afirma que o limite do humor é a risada, sendo assim, se há o riso, há humor. Cabe a cada um saber seu lugar de fala e buscar pelo que lhe agrada.

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