Projeto Amigos do Cão Carente nasceu da iniciativa de 5 pessoas em meio à pandemia do novo coronavírus
O isolamento social tem aumentado o número de adoções de animais domésticos. Num momento tão delicado, os pets podem trazer efeitos benéficos para a saúde mental e social do ser humano. A União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), localizada na zona norte de São Paulo, constatou o aumento de 400% no número de cães e gatos adotados após o início do isolamento proposto como medida de prevenção ao novo coronavírus.
Um levantamento feito em 2009 pela Universidade de Azabu, no Japão, mostra que a troca de olhares entre donos e pets distribui picos de ocitocina, que é considerado o hormônio da felicidade e responsável por sensações de prazer e bem-estar. Por isso, podemos dizer que cães e gatos são grandes companheiros neste período, ajudando a combater problemas como a ansiedade, estresse e solidão.
Apesar de serem importantes para a saúde mental nesta fase, os animais não podem ser vistos como remédios descartáveis. A médica veterinária Leandra Guedes afirma que um pet requer cuidado e não é passatempo ou brinquedo. “Exames são fundamentais no momento de adoção, quando já começa a responsabilidade do dono. A união que acontece na hora da adoção requer uma troca do cuidado pelo carinho, algo que não pode ser descartado quando a necessidade acaba”, alerta Leandra.
Em momentos difíceis, projetos tomam forma e ganham destaque. O Projeto Amigos do Cão Carente (PACC) nasceu em Barra Velha, no litoral norte de Santa Catarina, em meio à pandemia do novo coronavírus. Criado por um grupo de 5 jovens – Karline Forcellini Nesi, Brenda Pereira, Samuel da Rosa Lopes, Sahra Luiza Forcellini Nesi e Alan Ladeia – a ideia era distribuir bebedouros e comedouros, algumas casinhas para abrigo durante o inverno e castração para animais necessitados. Com o tempo, o grupo percebeu que o alcance do projeto seria maior que o esperado por conta do engajamento da comunidade.

Além dos projetos iniciais, o grupo obteve destaque por realizar resgates de cães em situações precárias nas ruas. “Nós não tínhamos planejado fazer resgates, porém, conforme o projeto foi ganhando visibilidade, muita gente começou a pedir nossa ajuda com cães que estavam nas ruas, e foi assim que isso começou. No começo, foi tudo bem mais difícil do que o esperado”, explica Karline Forcellini Nesi, uma das integrantes do grupo.
Trabalhando no limite
No papel tudo se desenvolve com certa facilidade, quando colocado em prática é que aparecem as dificuldades. Nas palavras dos idealizadores do projeto, “fazer parte de uma equipe com tanta responsabilidade é muito mais complicado do que nós mesmos imaginamos”. A falta de estrutura é um dos problemas do projeto. Ao resgatar um cão, por exemplo, a PACC não tem onde deixar o animal até encontrar um lar para ele.
“O mais difícil nos resgates é que não possuímos espaço físico pra levar os animais, não somos uma ONG, não temos um canil ou algo parecido. Somos todos estudantes que moram com a família e todos temos muitos animais, então, infelizmente, não conseguimos trazer os cães resgatados para nossas casa”
Karline Forcellini Nesi
A solução para este problema foi a busca por lares temporários. O processo é o seguinte: o grupo recebe um chamado de ajuda e faz o resgate do animal. Depois que o resgate é feito, ele é levado para uma clínica veterinária e pedem doações para custear os medicamentos e tratamentos necessários para o cão. Quando chega no lar temporário, quem fornece a casa não precisa se preocupar com a alimentação e medicação do pet, que é toda custeada pelo projeto. Após a recuperação, é feita a castração e começa a procura pela adoção responsável.

Pelo tamanho da equipe e condições financeiras, os resgates são feitos um por vez. Alguns deles se tornam muito difíceis já que não se trata de uma equipe especializada. Além disso, muitos cães apresentam um comportamento violento devido aos maus tratos e traumas passados.
Senso comum define algo?
Não há uma unanimidade entre os especialistas que defina a raça mais violenta entre os cães. Segundo a veterinária Leandra, os livros e estudos também são bastante inconclusivos em relação a este assunto. “Você não pode definir que uma raça vá se tornar violenta simplesmente por nascer assim. O que mais afeta e destrói o humor desses animais são condições na sua criação ou adestramento, além de doenças que possam surgir durante suas vidas”, explica a especialista.
O projeto comprova essa afirmação em seus relatos e em histórias compartilhadas. Dentre elas, há uma que se destaca. “Um dia a gente acordou e tinham mais de 15 menções pedindo ajuda para uma cachorrinha de rua. Quando chegamos no local especificado pelos seguidores, encontramos uma cachorra completamente amedrontada, que só sabia fugir e tentar morder quem se aproximasse”, conta Brenda Pereira, integrante da PACC. Apesar de não obter sucesso na primeira tentativa, o grupo persistiu e levou alguns materiais no dia seguinte, como coberta, focinheira e algumas salsichas, tudo que pudesse acalmar o animal que estava claramente descontrolado.
Após cerca de duas horas sob chuva, eles apelaram para as autoridades e chamaram o Corpo de Bombeiros local. Com a ajuda dos profissionais, conseguiram domar a fera com uma rede e colocar a focinheira. Logo no dia do resgate, levaram no veterinário e conseguiram encontrar um lar para a Luna, nome dado ao cão resgatado.

Paola Tomio entrou em contato com o PACC depois de ver alguns stories no Instagram que contavam sobre a Luna. No primeiro dia, foi avisada do comportamento que o cão poderia ter, por conta do que aconteceu no resgate. “Meu marido pegou ela e trouxe para dentro de casa, mas ela estava toda desconfiada. Demos comida, água e um pouco antes de irmos dormir meu marido foi um carinho nela, quando ela o mordeu. Depois disso, todos os dias brincávamos um pouco com ela. Hoje, ela é quem vem pedir carinho e sempre está feliz por ter alguém por perto”, conta Paola.
Dias de luta…
Há vários atributos que são buscados nos cães por um possível futuro dono de pet. Dentre os mais comuns, estão raças e tamanhos. Essa discussão toma conta da internet, onde muitos veem o ato de pagar por um animal como algo errado. Afinal, com tantos cães abandonados e precisando de um lar, o que faria alguém comprar um pet?
Quando saiu de São Paulo para morar em Barra Velha, Simone Magri se sentiu muito sozinha e resolveu adotar um cachorro. Em alguns minutos de procura, se deparou com o anúncio de um Shih Tzu com pelos brancos. No mesmo dia, marcou um encontro com o dono do animal para poder concluir a adoção. “Quando cheguei no local, não era nada do anúncio. Se tratava de uma vira lata com um olhar muito triste e assustado”, conta Simone, que adotou mesmo não sendo como o esperado.
Em outra oportunidade, ficou sabendo do abandono de outro vira lata. Quando chegou ao local, descobriu que o abandono só tinha sido feito pois a antiga dona do cão ganhou um cachorro de raça e, por isso, abandonou seu outro companheiro. Com isso, ela pegou trauma de pessoas que escolhem o cão pela raça, não pelo companheirismo. “Fica minha indignação com essas pessoas que só querem o cachorro pela raça. A Meg não era de raça mas era muito amorosa e nos deu muito amor, hoje nos deixa muita saudade”, explica Simone.
Em contrapartida, há casos em que a compra aparece como a melhor solução. Tainá Lopes Casanova, também moradora de Barra Velha, tem um Shih Tzu e a compra foi a opção que encontrou diante da sua realidade. “Eu comprei a Amora quando queria um cachorro, mas precisava que fosse um bem pequeno por morar em apartamento e essa ser regra do prédio. Procurei em todos os lugares algum que atendesse a minha necessidade, mas todos eram de porte médio ou grande. Sendo assim, decidi comprar”, explica Tainá.
Ela comprou de uma amiga da família. A cachorra da colega havia engravidado de forma natural e não em um canil, onde pode haver a “fabricação em massa”, que ela diz ser totalmente contra.

Outra dificuldade enfrentada pela PACC é a adoção de cães adultos. Os filhotes duram menos de 3 dias para serem adotados, enquanto alguns adultos não conseguem encontrar um lar. “As pessoas esquecem que um filhote é muito fofinho, mas que ele cresce. Você não sabe o tamanho que ele vai ficar ou qual o temperamento dele. Adotar um cão adulto tem inúmeras vantagens: saber o tamanho, conhecer o humor, normalmente são mais calmos, sabem se virar sozinhos e não precisam de atenção 24h como os filhotes. Normalmente também já sabem fazer suas necessidades no local correto, além do nosso projeto se responsabilizar pela castração dos cães adultos que doamos”, explica Samuel da Rosa Lopes, membro da entidade.

Dias de glória!
O projeto começou mais movimentado do que os idealizadores poderiam imaginar. Com novos planos, uma proposta que já foi colocada em prática é a contratação de colaboradores voluntários para ajudarem nas tarefas diárias. Eles contam com 5 pessoas além dos idealizadores e esperam que possam aumentar esse número cada vez mais.
Outra ideia que já está sendo implantada é fazer a distribuição de casas para cães pela cidade. “Encontramos um representante que vende casinhas feitas com material reciclável de embalagens cartonadas, são anti mofo e fungos, resistentes a chuva e ao sol, não propagam chamas e protegem em até 40% da temperatura externa”, explica Alan Ladeia. Essas casinhas são usadas em projetos parecidos em mais de 15 cidades no estado, como em Lages, onde já foram distribuídas mais de 500 casas. Para isso, eles buscam parcerias com comércios da cidade. As casinhas terão uma placa com o nome do estabelecimento que fez a doação e serão fixadas para evitar roubos.

Pensando no futuro, o objetivo é ter um grupo de padrinhos PACC, que seriam pessoas para colaborar mensalmente com algum valor, o que daria maior liberdade e aumentaria o alcance das ações do grupo.
“Sonhando alto, gostaríamos de futuramente poder ter um espaço físico para servir de abrigo para os cães que resgatamos, com assistência veterinária, canis separados, espaço para eles brincarem”
Sahra Luiza Forcellini Nesi, integrante da PACC
O projeto tem o registro de todos os animais que resgata e também há um termo de adoção responsável. Quem leva o cão assina se responsabilizando por ele. Sendo assim, o coração deve estar aberto para o que vier, já que nem tudo são alegrias. Ter um animal doméstico requer muito cuidado e trabalho, é como um novo membro na família. Você não devolve uma vida para um abrigo ou para a rua.
As doações para a PACC podem ser feitas através dos seguintes canais:
Conta Poupança – Caixa Econômica Federal
Titular: Karline Forcellini Nesi
↪ CP: 024.728-0
↪ Agência: 2816
↪ Op.: 013
PicPay: @PACC
Vakinha Online: vaka.me/1095338
Instagram: @pacc_barravelha





