Os novos papéis do idoso na sociedade contemporânea

Sobre o que vamos falar?

Qualidade de vida tem a ver com a preservação das condições físicas e psicológicas de nós mesmos. O envelhecimento é um dos momentos em que mais se deve cuidar da saúde para poder viver bem. Atualmente, a terceira idade não deve ser vista como um momento para se esperar a morte e  idoso não é mais um sinônimo de acúmulo de doenças. Ter uma vida saudável na terceira idade é uma necessidade e um direito. 

Além disso, ao contrário do que se pensa, é possível na terceira idade ter vida ativa, relacionamentos, amizades e, enfim, aproveitar as diversas oportunidades da vida. É preciso entender que velhice é apenas mais uma fase da vida, em que é possível exercer atividades físicas e sociais. Em lugares como China e Japão tornar-se velho é algo especial e visto como um momento de grande sabedoria. Lá o idoso possui um papel de respeito na sociedade e não é visto como alguém frágil e inativo.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que, entre 2010 e 2050, a população idosa brasileira vai triplicar. O estudo do instituto revelou ainda que em 2030 o número de pessoas acima de 60 anos no Brasil será maior que o de crianças. Visto isso, é muito importante cuidar e zelar pela saúde física e mental para aproveitar as diferentes fases da vida da melhor maneira possível, com ações e opções para que atendam as necessidades de cada um. 

O envelhecimento da população representa desenvolvimento no país. Quanto mais um país se desenvolve, maior é a expectativa de vida da população, e a do Brasil é de 76 anos. A terceira idade no Brasil ainda é, de forma equivocada, associada à aposentadoria e à inatividade, no entanto, cada vez mais os idosos se mostram ativos. Atualmente, muitos  trabalham e mantêm uma vida social ativa, viajando, consumindo e tendo relacionamentos. 

Para poder envelhecer com qualidade é preciso políticas adequadas que cuidem dos idosos. A questão vai além de criar estruturas de apoio para as próximas décadas. É preciso algo duradouro e que atenda a demanda que só cresce. Em países europeus é muito comum as pessoas de mais idade desejarem morar em um “residencial de idosos”, pois sabem que farão amizades da mesma faixa etária, podendo ter uma vida social ativa. Asilos na Europa não são mal vistos, pois os lares respeitam a individualidade e não veem a velhice como uma debilidade. 

Programas como o Programa +60, do Instituto Brasileiro Tellus, incentivam a autonomia e dignidade da população com idade mais avançada. O Programa +60 tem como objetivo reinserir o idoso na sociedade como cidadão ativo. A iniciativa começa aos poucos, reinserindo a terceira idade em bibliotecas públicas. O programa também desenvolve projetos como o “Experiência Empatia”, que simula a experiência dos idosos e as dificuldades do seu dia a dia.  Há outros programas para a terceira idade que visam o bem estar, como o Programa Viver – Envelhecimento Ativo e Saudável da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Pessoa Idosa, que prioriza proporcionar a inclusão digital e social do idoso em atividades de saúde e tecnologia digital.

Contudo, por mais que haja políticas de auxílio aos idosos, ou lares de repouso humanizados, a população precisa planejar e se preparar para a velhice. O Ministério da Saúde alerta para que as pessoas adotem posturas e práticas saudáveis em todas as fases da vida, dessa forma poderão envelhecer de forma saudável e terão menos problemas para se manter no mercado de trabalho e ter uma vida ativa e cheia de oportunidades.

Dados e Estatísticas

Confira abaixo alguns dados, estatísticas e números que vale a pena você prestar atenção e que ajudam a entender melhor a questão do idoso na sociedade.

30%

30% da população do Japão é composta por idosos. Lá, envelhecer é sinônimo de sabedoria e respeito. Desde pequenas, as crianças são ensinadas a ver o idoso como uma figura a ser respeitada e exemplo de sabedoria. Os anciões tem até um feriado, acredita? É o Keiro no Hi (Dia de Respeito ao Idoso), que é comemorado na terceira segunda-feira de setembro.

2 bilhões

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até em 2050 o número de pessoas com idade superior a 60 anos seja equivalente a 2 bilhões de pessoas. No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) estima que, entre 2010 e 2050, a população idosa brasileira vai triplicar. A partir de 2030, o número de pessoas acima de 60 anos no Brasil será maior que o de crianças.

14,6%

Atualmente, 14,6% da população brasileira possui 60 anos ou mais, correspondendo a 30,3 milhões de pessoas.

Lei 10.741

No Brasil há o Estatuto do Idoso, disposto na LEI Nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Neste estatuto estão estabelecidos os direitos dos idosos e ações de punição para aqueles que violarem esses direitos. Por essa lei em vigor os filhos maiores de 18 anos são responsáveis pelo bem estar e saúde dos pais idosos. 

R$ 1,6

trilhão

Uma pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostra que o poder de consumo da população idosa no Brasil equivale a R$1,6 trilhão por ano.

17 

milhões

A terceira idade representa 17 milhões de consumidores no turismo. É na velhice que as pessoas mais fazem turismo, pois já criaram os filhos, estão aposentados e a vida financeira está relativamente estável, ou seja, é o melhor momento para viajar.



O que dizem sobre o assunto?

Clique nos nomes que aparecem abaixo e descubra o que alguns pensadores, escritores, pesquisadores e especialistas já falaram sobre a velhice.

Fernando Gabeira é um escritor, jornalista e político brasileiro. Com 80 anos, Gabeira é um comentarista ativo do canal Globo News. Antes da pandemia, desde 2013, o jornalista percorria o país fazendo reportagens para o canal de notícias.

 “É bom chegar aos 80 se sentindo razoavelmente capaz, podendo trabalhar, aproveitar a vida ainda que seja no nível mais modesto de contemplar a natureza, de respirar bem, ter relação com a família”
– Em entrevista ao jornal O Globo.

Laura Cardoso é uma atriz brasileira com 93 anos. É uma das atrizes brasileiras mais premiada e a que mais atuou em novelas e filmes. Embora os anos adquiridos, Laura ainda possui jovialidade e muito carisma. Mas uma coisa é certa, nada de chamá-la de senhora! Em entrevista ao Jornal o Globo, ela pede para ser chamada de você para não se sentir velha e expressa suas opiniões acerca da terceira idade.

 “As pessoas tratam o idoso como se ele fosse um robozinho. É um tal de “senta aí”, “come isso”, “faz aquilo”… Nunca fui vítima de grosserias, as pessoas se dirigem a mim com carinho e respeito. Mas não tem essa de “melhor idade”, não! De melhor, a essa altura do campeonato, só a experiência adquirida. Eu amo a juventude, a mocidade! Hoje, não tenho mais a força muscular e a pele bonita de anos atrás. É muito diferente! Acho que é o jeito com que você leva a vida que faz a idade ser melhor ou pior, seja na velhice ou na mocidade”.

 

Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro considerado um dos mais influentes do Brasil no século XX. Drummond de Andrade possuía, para época, um olhar diferente sobre o ato de envelhecer, deixando de lado o pressuposto de que a velhice seria acompanhada de enfermidades. O poeta ressaltava ainda como que, na velhice, é possível aproveitar e degustar os pequenos gestos da vida.

“Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.”

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ENTREVISTÃO: Katia Simone Ploner

Formada em Psicologia com doutorado em Oncologia, a professora do curso de graduação de Psicologia da Univali Kátia S. Ploner é também autora do livro Ética e Paradigmas na Psicologia Social. A docente participou e organizou vários projetos de extensão de auxílio ao idoso, como por exemplo o Promoção à Saúde do Idoso, juntamente aos familiares/cuidadores e Atendimento ao Idoso em Situações de Demências, com os familiares/cuidadores.

Envelhecer é um processo da vida no qual, normalmente, não costumamos parar para pensar. Qual a importância de pensar e investir na saúde para poder envelhecer com qualidade?

Envelhecer é a mesma coisa que viver, o processo é o mesmo, estamos submetidos à condição do tempo e não tem como ser diferente. A reflexão que se faz sobre esse processo é da cultura, e a nossa cultura brasileira não costuma privilegiar essa questão da velhice como algo desejável socialmente. De um modo geral a gente deixa para pensar mais tarde, e isso tem um custo. Por exemplo, agora foi aprovada a lei sobre a previdência, em que as mulheres vão se aposentar aos 62 e os homens aos 65, e a gente sabe que muitas pessoas depois dos 50 deveriam fazer uma reorientação profissional. Às vezes as atividades que exerceram até ali não são mais possíveis ou satisfatórias, algumas pessoas perdem o emprego, como nessa pandemia. A gente sabe de muitas pessoas, como empregadas domésticas nessa faixa etária, que não conseguem nem se aposentar e nem conseguem um novo trabalho. Então, a reflexão sobre isso é necessária, mas é uma política pública, é algo que precisamos questionar na nossa cultura, rever e procurar exatamente quais seriam as desejabilidades para envelhecer, assim teremos uma sociedade um pouco diferente.

Como que as políticas sociais e os projetos voltados para idosos auxiliam na autonomia e independência desse grupo?

Eu já fui presidente do Conselho Municipal do Idoso. Hoje eu ainda sou membro desse conselho, e na verdade todos os fóruns, as conferências municipais, regionais, estaduais e nacionais que tivemos na área do idosos tratam sempre desse tema, como promover  autonomia e independência na velhice, e de fato é muito difícil, porque nós precisamos ter um envolvimento das pessoas. Há muito tempo teve a luta dos 147% dos aposentados, e naquele período histórico nós tivemos um grupo de aposentados que participavam politicamente, e a gente viu que aquela perspectiva, aquela visão, a forma como os aposentados foram tratados, foram vistos como quem não quer trabalhar e mesmo assim quer ganhar dinheiro. Teve um impacto negativo em termos de participação política e cidadã de pessoas que estão aposentadas no Brasil. Esse impacto se sente até hoje. Tem muita gente que tem vergonha de dizer que é aposentado, as pessoas preferem dizer que são “professores aposentados”, “trabalhador aposentado”, colocam a profissão antes da palavra aposentado porque só aposentado ainda é visto com negatividade. Toda a forma que se tem de compreensão de um fenômeno vai interferir nas políticas públicas, porque as políticas de proteção, de apoio, campanhas, as políticas de um modo geral precisam do movimento social. Se na base não temos isso, as pessoas leigas que vão galgar cargos de poder também não entendem essa perspectiva, não veem dessa forma, logo não vamos ter políticas adequadas. Então precisamos de reportagens, trabalhos, de pessoas que reflitam sobre isso e mostrem a importância dessa reflexão para a sociedade.  

Além do cuidado com a saúde, que outras políticas públicas voltadas aos idosos podem e devem ser criadas no Brasil?

A política nacional do idoso, assim como a maioria das políticas municipais e estaduais do idoso, elas preveem não só na área da saúde, mas principalmente na área da educação. É necessário discutir gerontologia, que é o estudo do envelhecimento. No Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior, é necessário que na formação dos profissionais que atuam na assistência, na saúde, direito, enfim, que as pessoas de fato saibam o que é envelhecer, e quais são as implicações da sua área, as implicações do envelhecimento para a sua área. Tem várias pesquisas que mostram que os profissionais que conhecem sobre o envelhecimento e fazem esse processo de reflexão na sua graduação, eles atuam de modo diferente com os idosos. Pensando que teremos um percentual próximo de 30% de pessoas idosas em 2050 no Brasil, é para ontem essa discussão. Temos políticas na área da educação, do esporte, sabemos que é muito importante a atividade física, não só as competições esportivas como tem em Itajaí por exemplo, handebol adaptado, voleibol adaptado e dança sênior, mas atividades físicas no sentido de promoção de convivência e saúde. Precisamos de políticas na área de habitação, pois sabemos que tem muitos idosos que dependem de seus familiares, mesmo que o mais comum seja o contrário. Temos várias políticas que são possíveis e necessárias mas precisam da intersetorialidade que é tão difícil ser desenvolvida. Essa situação é algo que precisa ser incentivada nas prefeituras, governos estaduais e federais, ter implicação da câmara, da legislação, para que permita um orçamento público para essa gestão. A área da cidadania, a questão do empoderamento é muito importante. O empoderamento pertence ao quanto você consegue promover a cidadania, e a cidadania passa também por participação social, as pessoas estarem em grupos e pensarem sobre o que querem e seus projetos é muito importante. 

Uma de suas produções bibliográficas fala sobre o medo de envelhecer na contemporaneidade. De que forma é possível mostrar que envelhecimento não é sinônimo de inatividade?

Envelhecer hoje em dia nem pode mais ser sinônimo de inatividade, porque as pessoas mais velhas precisam estar trabalhando. Sabemos que no Brasil, com o valor da aposentadoria, temos em torno 30% dos homens e 10 a 15 % das mulheres que mesmo aos 65 anos continuam trabalhando, não só por uma questão pessoal (um percentual pequeno de pessoas que trabalham por desejabilidade ou por serem referências na área), mas a maioria dessas pessoas trabalha por necessidade financeira. Tem os custos com medicamentos, às vezes com situações de vida nas quais essas pessoas precisam continuar trabalhando porque o valor da aposentadoria é insuficiente para que elas possam ter a manutenção do seu contexto, da forma como se organizou sua vida. E essa visibilidade se faz necessária porque muitas pessoas idosas trabalham e continuam ativas. É só olhar para o congresso nacional ou para os meios de comunicação, como temos pessoas mais velhas ainda atuando, na mídia de um modo geral, ou para chefes de empresas, como temos pessoas de mais de 60 anos que não são vistas dessa forma porque estão imersas no trabalho. A sensação que dá é que essas pessoas não são reconhecidas como velhas, elas são reconhecidas como pessoas. Ainda existe esse preconceito, essa dicotomia de ver a velhice apenas em quem está inativo. Na verdade, todas as pessoas com mais de 60 anos, segundo o estatuto do idoso, são idosos.

É muito comum nos Estados Unidos ou em países europeus, residências para idosos ou lares de repouso. No Brasil ainda é um tabu a ideia de pôr idosos em asilos. O que você pensa sobre esses lugares? E quais os pontos positivos dos lares de idosos?

As Instituições de Longa Permanência para Idosos são consideradas um tabu no Brasil. Eu espero que daqui a pouco pense-se nessas instituições como se pensava antigamente nas creches ou escolinhas. Há trinta anos eram lugares onde as mães deixavam as crianças porque precisavam trabalhar. Hoje é visto como um direito da criança poder estudar e conviver com pessoas da mesma idade, socializar e ter atividades específicas para sua idade. Eu acredito que em pouco tempo teremos outra representação das ILPIs, essas instituições são espaços de cuidado, cuidado principalmente em relação à saúde. Ela tem ainda uma perspectiva quase como um hospital, com um atendimento voltado para saúde, e o fundamental é a família não achar que, por o idoso estar nessa instituição, deixa de ser família. A pessoa às vezes está lá por uma demência ou por um cuidado de saúde que a família não consegue fazer, mas é importante que o idoso que esteja nessa instituição não seja abandonado. “Eu o deixei lá então agora ele está sendo cuidado”. Não, ele está sendo cuidado na sua necessidade física, ele precisa continuar tendo apoio social, familiar, de pessoas próximas.

A visão sobre envelhecer muda ao longo do tempo. Antigamente, alguém com 60 anos era considerado já muito “velho”. Como essas mudanças de perspectiva têm impactado na visão que o próprio idoso tem de si?

Ana Amélia Camarano fala muito sobre essa nova fase da velhice, Alexandre Kalache também. O Alexandre fala que esses velhos de agora, de 75 a 80 anos, são os velhos que fizeram a revolução hippie na década de 1970, então ele chama de envelhescência esse novo período, onde se está redescobrindo uma nova fase da vida. Assim como eles criaram a adolescência, diz Kalache, eles estão criando a envelhescência, que seria uma desconstrução da velhice como um período de inatividade, um período em que não tem nada para fazer. O que acontece é que socialmente não se tem uma previsão do que fazer com os velhos, de o que os velhos devem fazer na sociedade. Porque na infância e na adolescência precisa estudar, na adultescência precisa construir família e ter um trabalho, buscar autonomia financeira, e na velhice? Qual o papel dos idosos na sociedade? Eu coordenei o Univida, Universidade da Terceira Idade, ou outros cursos para Univida, de 1995 até dezembro de 2018, e eu sempre pensei que a questão da atuação voluntária e a inserção social de outra forma era uma resposta bem interessante para os mais velhos fazerem, mas eu percebi que não é bem isso que muitos querem. Penso que ainda estamos em um processo de reinvenção, de o que esse coletivo vai fazer com o tempo que ganhou, é algo que vamos descobrir daqui 20 ou 30 anos, olhar para trás e  ver qual a função social do velho. Mas o que vemos de literatura, percebe-se que eles buscam autonomia, buscam morar sozinho, são poucas pessoas que querem ficar com a família. A maioria quando os filhos saem de casa querem continuar morando e tendo sua independência. Muitos acabam cuidando de netos, sendo apoio social para a família, alguns continuam trabalhando e outros têm aquele perfil de ficarem doentes e precisarem do apoio da família. Ainda estamos em construção de o que vai ser a velhice. Espero que seja muito melhor que antigamente, que tenhamos novas representações, novas formas de ser e viver. A Mirian Goldenberg tem um livro que estou lendo agora, é “Liberdade, felicidade e foda-se”, em que ela diz que, com a velhice, com a história de não se ter mais a beleza por assim dizer, você não está mais preocupado com o que o outro pensa a seu respeito, então você ganha uma dimensão de liberdade, de ser, viver e escolher que você não tinha em outras fases da vida. O que vai ser da velhice no futuro eu não sei, mas eu espero que seja muito bom. Eu já estou com quase 50, quero me aposentar e espero que a gente tenha a possibilidade de ver a relação saúde e doença de outra forma e é isso.

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