A formação de leitores e a leitura de autores nacionais

Texto: Amanda Moser

Em tempos difíceis, existem pessoas que escolhem a literatura como uma rota de fuga. Entretanto, essa realidade não é muito comum no Brasil. Segundo uma pesquisa do Centro Nacional do Livro (CNL), a França está enfrentando uma queda na venda de livros e mesmo assim 88% da sua população se declaram leitores regulares e, em média, leem 21 livros por ano. Em comparação, no Brasil, apesar de ter um pequeno aumento no número de vendas por conta da pandemia, apenas 52% dos brasileiros são leitores e leem, aproximadamente, 4 livros por ano.

Justamente por não possuírem o hábito da leitura, muitos brasileiros acabam evitando a literatura nacional clássica ou contemporânea por acharem complexa e de difícil compreensão. Mas você sabia que ler autores nacionais e livros que são ambientados no seu país de origem te deixam em contato direto com a realidade que a sua nação enfrenta? Pois é, a literatura é um dos meios de retratar o cotidiano brasileiro. A valorização de autores nacionais significa aprender com o passado para compreender o presente.

Gostar ou não de um livro é algo muito pessoal, por sorte o nosso país possui vários autores, de diferentes épocas e de diversos gêneros para agradar qualquer gosto. O Brasil tem um território extenso e, por isso, sua cultura é bem diversificada. A leitura possibilita que moradores do Sul entrem em contato com histórias ambientadas no Nordeste e vice-versa, fazendo com que pessoas de diferentes regiões conheçam um pouco mais sobre as gírias, costumes e tradições locais.

Cada vez mais as pessoas estão colocando a literatura em escanteio e utilizam seu tempo livre para ver tv ou mexer no celular. Por isso, incentivar as crianças e jovens a adquirir o hábito de leitura é importante. Porém, não adianta fazer eles se encantarem pelo mundo dos livros para logo os assustar com um Machado de Assis. Clássicos são considerados clássicos por vários fatores, mas nem sempre jovens do Ensino Fundamental estão prontos para enfrentar a “linguagem machadiana”. Trabalhar com autores nacionais que possuam histórias de fácil compreensão ou que se passam no mesmo período de tempo que os alunos já são fatores que estimulam a apreciação da literatura nacional. 

Logo abaixo, estão alguns dados que ilustram a realidade da leitura no país e o porquê é tão importante valorizar os autores nacionais. Já sabemos que os livros são itens importantes na formação do pensamento crítico, da imaginação e que nos possibilita conhecer outras culturas e, para complementar esse pensamento, você encontrará a opinião de especialistas sobre o tema. Ao final, elaboramos uma lista de livros, filmes e músicas para você apreciar e valorizar a literatura nacional. Vamos lá?

Dados e Estatísticas

Confira abaixo alguns dados, estatísticas e números que vale a pena você prestar atenção e que ajudam a entender sobre a leitura e o mercado literário.

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Ao longo do tempo, o número de analfabetismo no país foi diminuindo. Em 1991, a taxa de brasileiros analfabetos com mais de 15 anos era de 19,7%. Essa porcentagem foi reduzida para 7,2% em 2017, conforme os dados do IBGE. Apesar dessa redução, a quantidade de pessoas que sabem ler não é proporcional à quantidade de leitores do país.

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Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, nos últimos quatro anos, o país perdeu mais de 4,6 milhões de leitores. Em 2015, a porcentagem de leitores era de 56% e em 2019 caiu para 52%. Em contrapartida, o número de brasileiros com mais de 5 anos e que não leram nenhum livro, nem mesmo um trecho nos últimos três meses, representa 48% da população, o que equivale a 93 milhões.

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O governo federal propôs uma reforma tributária que tornará os livros mais caros. O mercado literário é protegido pela Constituição no art. 150 de pagar impostos. Desde 2004, também está isento do PIS/Pasep e Cofins, através da lei 10.865. Com essa proposta, os livros não teriam mais a isenção e ainda seriam taxados em 12%, os tornando mais caros e elitistas.

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No grupo dos leitores brasileiros, 28% estão no perfil escolar e possuem entre 5 a 17 anos. Metade dessa porcentagem, o equivalente a 27,8 milhões de jovens leem por indicação dos professores. Uma mudança brusca ocorre quando é avaliado se esses jovens gostam de ler, quando 46% das crianças de 5 a 10 anos gostam de ler. Entretanto, quando analisamos os jovens entre 14 a 17 anos, a porcentagem cai para 30%.

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Os professores são os maiores responsáveis para que os jovens desenvolvam o gosto pela literatura. 15% dos leitores foram influenciados por seus educadores. Entretanto, os pais também são responsáveis pelos gostos de seus filhos e como isso irá refletir futuramente. 70% dos não leitores nunca tiveram seus pais lendo para si.

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Na lista dos 20 livros mais vendidos na Amazon em 2020, apenas 4 foram escritos por autores nacionais. Em primeiro lugar ficou o “Pequeno manual antirracista”, da filósofa e jornalista Djamila Ribeiro. O livro do advogado Silvio de Almeida, “Racismo Estrutural”, ficou em nono. “Do mil ao milhão. Sem cortar o cafezinho”, do educador financeiro Thiago Nigro, ocupou a décima terceira posição. Por último, em décimo sétimo está o livro do jornalista Laurentino Gomes, “Escravidão – Vol. 1”. Além de serem livros nacionais, todos eles são livros de não-ficção.



O que dizem sobre o assunto?

Clique nos nomes que aparecem abaixo e descubra o que alguns pensadores, escritores e artistas comentaram sobre a importância da literatura.

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…” em Memória de Emília

Monteiro Lobato foi um escritor, ativista, diretor e produtor brasileiro. O Sítio do Pica-pau Amarelo é sua obra de maior destaque dentro da literatura infantil que, após um tempo, se tornou uma série de TV. Monteiro Lobato foi pioneiro na literatura infantil no Brasil e na América Latina.

“Se a criança desde cedo fosse posta em contato com obras-primas, é possível que sua formação se processasse de modo mais perfeito” 

Cecília Meireles é considerada um dos principais nomes da poesia no Brasil. Foi professora, pintora, jornalista e escritora. Suas obras possuem uma vertente intimista com influência da psicanálise com enfoque na sociedade. Apesar de apresentar características do movimento simbolista, sua escrita tem destaque para a segunda fase do modernismo brasileiro. No grupo dos poetas, ela foi classificada como “Poesia de 30”, no qual pertencem poetas da década de 30, esse período é considerado um dos melhores para a poesia brasileira.

“A literatura é um assunto sério para um país, pois é afinal de contas o seu rosto” 

Louis Aragon é um dos principais nomes da literatura francesa do século XX. Ele nasceu em Paris e seguiu carreira como poeta, romancista, jornalista e ativista do Partido Comunista Francês. É considerado um dos fundadores da literatura surrealista na França e, por isso, é um dos escritores mais importantes do movimento.

“O declínio da literatura indica o declínio de uma nação” 

Johann Wolfgang Von Goethe é natural de Frankfurt e, além de escritor, era filósofo, dramaturgo e também trabalhou na área da Ciência. Aos poucos, conquistou espaço no cenário alemão e se tornou uma das figuras mais importantes da literatura alemã do final do século XVIII e início do século XIX. Junto de Friedrich Schiller, poeta e filósofo, liderou o Sturm und Drang, como é conhecido o romantismo alemão.

“Você não tem que queimar livros para destruir uma cultura. Apenas levar as pessoas a parar de lê-los” 

Ray Bradbury nasceu nos Estados Unidos, em 1920, e é considerado um dos principais e mais populares escritores norte-americanos do século XX. É um autor versátil, tendo no seu currículo romances, contos, peças, poesias, roteiros e filmes para a televisão, todos nos mais variados gêneros. Entretanto, foi na ficção científica que se destacou, sendo uma das principais referências do gênero. Fahrenheit 451 é sua obra mais conhecida e é considerada um clássico da distopia sci-fi.

Entrevista: Juliana Moreton Maximo

Graduada em Psicologia pela Universidade do Vale do Itajaí - Univali, a psicóloga Juliana Moreton Maximo fez também cursos de Tanatologia e Suicidologia. Juliana possui especialização em Intervenção e Autolesão, Prevenção e Posvenção do Suicídio (em formação), com experiência de atendimento na crise suicida. Ao longo dos seus 10 anos de atuação na área clínica, ela realizou estudos do Psicodrama e da Análise Psicodramática.

Como incentivar os jovens a buscar livros nacionais e a desenvolver interesse pela nossa literatura?

Há muitos clubes do livro que são excelentes iniciativas para incentivar os jovens a lerem. O curso de Letras da Univali possui um desses clubes, aberto a todos, acadêmicos e comunidade geral, cujos encontros são mensais ou bimestrais, onde se discute obras nacionais. A juventude precisa de indicações de leitura, a maioria dos jovens lê best sellers e não conhece Nélida Pinõn, Itamar Vieira Júnior, Milton Hatoum, Ana Miranda, sem falar nos poetas, claro.

Quais as consequências na vida dos brasileiros se forem introduzidos a autores nacionais desde cedo?

Se lemos uma boa literatura, seja ela nacional ou não, além de termos um raciocínio lógico desenvolvido, vamos ser pessoas educadas esteticamente que sabem diferenciar um texto bom de um texto ruim. Ter autonomia intelectual é fundamental na sociedade, hoje e sempre. Ler nos ajuda não apenas a entender a perspectiva do autor, mas a formular nossa própria visão de mundo.

A realidade brasileira, ao longo das décadas, foi retratada em filmes, novelas, músicas e jornais. Qual a importância do povo brasileiro se ver nas páginas dos livros?

Segundo Umberto Eco, uma das funções da literatura – além da estética – é criar uma relação, um sentimento de comunidade e identidade entre as pessoas. Isto significa que por meio da literatura conhecemos nosso país melhor, que é tão diverso e por isso rico culturalmente, e nos sentimos parte dessa diversidade. Somos diversos mas somos o mesmo povo, o brasileiro. Ler Milton Hatoum além de ser um prazer é um desafio porque ele fala do seu contexto, do Norte do Brasil, uma parte pouco conhecida por nós, aqui do Sul.

Mesmo com aqueles que apreciam um bom livro, por que ainda é difícil encontrar autores nacionais nas estantes dos leitores?

Porque a escola, em especial o Ensino Médio, ensina a literatura até Machado de Assis, início do século XX. A literatura do final do século XX e do século XXI raramente é lida nos bancos escolares. Então, as pessoas quando falam em literatura brasileira pensam em José de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, Aluísio Azevedo, e outros do final do século XIX e início do século XX. Os cursos de Letras, que formam professores de Língua Portuguesa, precisam mudar sua dinâmica de formação. O curso de Letras da Univali, há mais de 5 anos ensina literatura em uma perspectiva sincrônica, isto é, não obedece as escolas literárias, inicia pelos contemporâneos justamente para que o futuro professor saia com um bom referencial de leituras.

Como fazer com que um jovem interessado em romances clichês e juvenis também desenvolva um interesse por clássicos nacionais?

Por meio de indicações de leitura, seja da família, da escola, de amigos ou dos clubes de leitura. Sem indicações de leitura, poucos adentrarão na literatura clássica, entendendo como clássico não o que é antigo, tradicional, mas a boa literatura.

Com a proposta de taxação nos livros, como ela impactará na produção e no consumo de autores brasileiros?

A sociedade brasileira precisa aprender a usar as bibliotecas, que estão abarrotadas de livros excelentes. Não é preciso comprar. É preciso ler. O governo distribuiu até o ano de 2017 milhões de livros nas escolas pelo PNBE. Nossa cultura não é da leitura, é da praia, do filme, da série. A classe média que está acostumada a comprar livros continuará comprando mesmo com a taxação de livros. O problema é muito maior: é preciso criar a cultura da leitura, não da compra do livro. Há muitos livros disponíveis na internet. Os clássicos estão todos lá (cujos autores já faleceram há mais de 50 anos).

Machado de Assis é um dos maiores escritores brasileiro e suas obras fazem parte das leituras obrigatórias de várias universidades. Como fazer com que os jovens desenvolvam interesse por suas obras e como as leituras obrigatórias impactam na vida desses jovens?

O professor precisa ser leitor de Machado de Assis, conhecer suas obras não por meio de resumos, mas pela experiência de leitura. A mediação pelas mãos de um professor leitor é espetacular: ela agencia leitores, sem dúvida!

Como os órgãos públicos podem ajudar a população a desenvolver o gosto pela literatura nacional?

Penso que se os órgãos públicos se ocuparem em oferecer editais aos escritores que possibilitem a publicação de seus livros, assim como a divulgação, já é um bom caminho andado. Programas na rádio, na mídia em geral com escritores nacionais ajudam bastante na divulgação. E projetos como esses que o Itaú Cultural tem de distribuição gratuita de livros é formidável. Precisamos de mais iniciativas assim.

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