Texto: Gabriely Farias
O luto é uma reação emocional intensa diante da perda de um ente querido. Esses momentos delicados são um processo pelo qual, em algum momento, todas as pessoas passam. Infelizmente, as crianças não são exceção e, por vezes, são muito afetadas e não conseguem lidar com os sentimentos gerados pela perda.
Diante de tragédias coletivas, como desastres naturais, atentados ou grandes acidentes, a criança pode vivenciar a morte de maneira mais próxima, com algum conhecido, amigo ou parente, ou de maneira indireta, através das notícas e informações que circulam. A pandemia fez com esse contato com o tema da morte fosse ainda mais frequente e próximo dos pequenos.
Cada pessoa tem um processo diferente para passar e superar a perda, contudo, as crianças possuem características próprias para passar por isso. Quando muito pequenas, é comum associarem a morte como “ir embora” ou “dormir”, pois ainda não compreendem como algo que não pode ser revertido. É somente após um tempo que o pequeno começa a perceber a real situação, vivenciando a dor da perda.
De acordo com a Sociedade de Pediatria de São Paulo, o luto não possui duração ou data para acabar e ,na infância, esse momento pode vir acompanhado de algumas reações. Medo, irritabilidade, ansiedade ou dificuldade para dormir são alguns sentimentos comuns em crianças que estão passando pelo luto. Quando isso acontecer é preciso que os pais ou responsáveis acolham tais reações e mostrem ao pequeno que sua dor é válida e tem espaço na família.
Por ser uma situação extremamente delicada, é importante ser sincero e não esconder a verdade. Evitar o assunto para proteger pode gerar, futuramente, insegurança ou sentimentos de culpa. A família deve contar a verdade da forma mais breve possível evitando metáforas. Conversar sobre os sentimentos e incentivar a criança a vivenciar seu luto é muito importante, dessa forma ela aprende a lidar com os diversos sentimentos gerados pela perda.
Para poupar a criança do sofrimento é comum que os pais e responsáveis se referiram à morte como “virar uma estrelinha” ou então “dormir profundamente”. Contudo, tentar falar dessa forma pode, como dito anteriormente, gerar sofrimentos futuros. Para evitar isso, é importante manter um diálogo com a criança desde pequena, mostrando para ela como funciona o ciclo da vida e que a morte é um processo natural, porém triste. É importante abrir espaço para que a criança sinta todos os processos do luto, mostrar que está tudo bem chorar, sentir saudade ou ficar triste.
Por mais que seja necessário conversar com a criança e mostrar a realidade dos fatos, também é importante a forma como expomos a ela esses fatos. Atualmente, vê-se todos os dias o número de mortes por Covid-19 e o excesso dessas informações pode afetar de diversas formas os pequenos. Para que isso não aconteça, é preciso evitar deixá-los expostos a informações em excesso.
Levar ou não o pequeno ao funeral é outra coisa que, constantemente, preocupa os pais e gera bastante dúvida. Alguns psicólogos costumam orientar que os pais, ou responsáveis, respeitem a decisão da criança. Caso ela queira ou não ir, seu desejo deve ser respeitado. Forçar o pequeno a seguir o desejo dos pais pode desencadear uma situação traumática e gerar sofrimento para ele.
É comum que a criança com ajuda de sua família não consiga lidar com todas as sensações promovidas pela morte de um ente querido. Algumas vezes é preciso a ajuda de especialistas como psicólogos e terapeutas. Quando o luto se estende demais, prolongando a dor e impossibilitando a criança de retomar seu dia a dia com naturalidade é necessário a ação de profissionais na área. Os pais ou responsáveis devem estar atentos às reações da criança.
Confira abaixo alguns dados, estatísticas e números que vale a pena você prestar atenção.
Segundo o estudo Nossa Escola em (Re)Construção, 64% dos estudantes ouvidos “consideram importante” a presença de psicólogos nas escolas.
A lei n.13.935/2019, publicada no Diário Oficial da União em 12 de dezembro de 2019, fala sobre a prestação de serviços de psicologia e serviço social nas redes públicas de educação.
De acordo com um levantamento da revista Veja São Paulo, o número de pacientes abaixo dos 13 anos que vão ao psicólogo dobrou nos últimos dez anos.

Clique nos nomes que aparecem abaixo e descubra o que alguns pensadores, escritores e artistas comentaram sobre o luto e a perda.
“Ler um bom livro é como conversar com as melhores mentes do passado”
René Descartes foi um importante filósofo, físico e matemático francês do século XVII. Muitas vezes é chamado de “fundador da filosofia moderna” ou “pai da matemática moderna” e é considerado um dos mais influentes pensadores da História do Pensamento Ocidental. Ele revolucionou o pensamento filosófico moderno e foi um dos defensores do racionalismo, no qual acredita que o conhecimento racional é inato do ser humano.
“Filosoficamente, é muito difícil compreender a morte, porque nós só vivemos a morte uma única vez, verdadeiramente, que é quando partimos. Mas nós podemos experimentá-la de alguma forma na morte dos outros”
Fábio de Melo, mais conhecido como Padre Fábio de Melo, é um sacerdote católico, escritor, artista, professor universitário e apresentador. Em entrevista para o jornal digital GZH, Padre Fábio fala um pouco sobre seu último livro, A Hora da Essência, que traz um pouco a experiência de luto do autor.
“Perder a mãe na infância é perder o solo onde caminhar. É o último estágio da dor de uma criança”
Augusto Cury é um psiquiatra, professor e escritor brasileiro. Seus livros já foram publicados em mais de 70 países. Entre seus livros mais famosos estão Ansiedade, Colecionador de Lágrimas e De Gênio e Louco Todo Mundo Tem um Pouco. O autor costuma trazer em seus livros pontos chaves do processo de viver, entre eles, o luto e a morte.

Graduada em Psicologia pela Universidade do Vale do Itajaí - Univali, a psicóloga Juliana Moreton Maximo fez também cursos de Tanatologia e Suicidologia. Juliana possui especialização em Intervenção e Autolesão, Prevenção e Posvenção do Suicídio (em formação), com experiência de atendimento na crise suicida. Ao longo dos seus 10 anos de atuação na área clínica, ela realizou estudos do Psicodrama e da Análise Psicodramática.
Como é o processo de luto para uma criança e como os pais devem lidar com isso?
Até mesmo as crianças pequenas podem viver o luto pela morte de pessoas amadas e seus bichinhos de estimação, apresentando emoções semelhantes as de um adulto. Para melhor entender o processo de luto infantil, os estudos de Piaget ganham principal importância. Estamos falando das diversas etapas pelas quais a criança passa em relação à percepção de morte. Vale lembrar que para este autor a relação entre a criança e a morte é fundamental para seu desenvolvimento intelectual. São 3 fases:
Menos de três anos: Ainda não desenvolveram o conceito de morte, se entristecem com a perda, mas não veem a morte como um evento irreversível.
Entre 3 e 5 anos: A morte é concebida como uma separação provisória ainda e nesta fase se sentem culpadas pelos acontecimentos.
Entre 6 a 12 anos: A morte é concebida já como um caminho sem volta. Esta fase traz consigo grande sensibilidade, em que as crianças demonstram mais interesse pelo tema da morte. Faz-se necessário um olhar vagaroso, pois podem surgir diante da perda distúrbios de atenção, de fala, ansiedades e medos.
Ao falar com as crianças os pais ou os adultos envolvidos devem oferecer carinho, compreensão, amor, acolhimento, respeito e escuta, lembrando de usar uma linguagem franca e acessível de acordo com a idade da criança. Exemplo de falas:
“Estou chorando de saudades de seu pai” …
“Não estou triste com você, mas com a morte de seu avô” …
Outro ponto importante é guiar-se pelas perguntas da criança. Por exemplo: se a criança pergunta “o que aconteceu com a mamãe?” o adulto pode devolver a pergunta, assim entende-se o que criança já sabe e o que ela procura com a pergunta. Sempre compartilhe dos sentimentos da criança.
Em que momento o atendimento psicológico é necessário e quais sinais que a criança oferece de que não está conseguindo lidar com o luto?
Há muitos sentimentos envolvidos quando acontece uma morte próxima à criança, inclusive a criança vive as mesmas fases dos adultos, explicada por Kubler-Ross: negação, raiva, barganha, interiorização e aceitação, não necessariamente nesta ordem. O surgimento de cada fase terá as características próprias da idade de cada criança, a raiva e a negação geralmente são bastante evidenciadas. O momento de procurar ajuda psicológica profissional para a criança é quando fica evidente que os sentimentos estão dificultando os relacionamentos afetivos, familiar e social, ou ainda sintomas compatíveis com comportamentos agressivos, depressão e doenças psicossomáticas.
Existe uma idade ideal para levar a criança ao atendimento? Os pais têm receio em procurar ajuda?
Não há uma fórmula ou idade ideal para levar a criança em um atendimento psicológico. A de se considerar que a criança espelha o clima, sentimentos, valores e conflitos familiares em relação aos acontecimentos da vida cotidiana.
Muitos adultos, percebo mais os pais, apresentam resistência de conversar e procurar ajuda profissional especializada pois temem aflorar angústias desnecessárias. No entanto, o caminho mais adequado é trazer para a criança informações, desviando das mentiras que interferem negativamente na elaboração saudável do luto.
Os noticiários televisivos relatam todos os dias inúmeras mortes por Covid-19. Poupar a criança dessas informações é uma boa ação?
Tudo excesso traz prejuízos, inclusive a exposição excessiva da criança às informações super banalizadas ou descontextualizadas das mortes por Covid-19, mas não podemos retirar a criança deste cenário, pois a morte ficou próxima, seja ela nos comentários da própria família, nos noticiários e na perda de pessoas queridas e próximas. Penso ser uma boa ação poupar a criança de informações e noticiários dos quais a criança em seu nível evolutivo não consegue alcançar. Um caminho possível diante da pandemia em que vivemos é procurar conhecer as condições da criança e conversar com ela dentro de sua realidade.
É importante deixar que a criança acompanhe um funeral?
A presença ou não da criança em funerais não é uma regra fácil e rápida. Em minha prática profissional é comum esta dúvida. Minha orientação para a família ou os responsáveis é atentar-se para o desejo desta criança. Se desejar ir é importante respeitar, no caso de rejeitar e recusar-se isto também deve ser acatado. Encorajar a criança a comparecer é sempre importante até mesmo para que o ritual não tome proporções muito fantasiosas evitando assim situações traumáticas. É fundamental uma conversa com informações prévias, como por exemplo, como será o ambiente, a aparência do corpo, enfim, descrever a situação mais clara possível.
Evitar falar sobre a morte de forma direta, ou tratá-la de forma lúdica é um meio de preservar a criança do sofrimento? Existe alguma forma de preparar a criança para esses momentos?
É bom lembrar que o sofrimento também é processo inevitável na criança, passa a ser patológico quando a criança não consegue realizar atividades cotidianas, apresentando sintomas que dificultam seus relacionamentos. Para cada fase do desenvolvimento, pode-se, sim, falar da morte e do morrer de forma lúdica. Em meu trabalho de conclusão de curso da graduação uma das propostas que usei foi o termo educação para a morte.
Educar para a morte envolve ampliarmos os horizontes do entendimento da morte. A morte é um acontecimento cotidiano. Em um sentido mais amplo do termo pode-se pensar a morte e seu processo, por exemplo, na dimensão da natureza, o dia que começa e finda, o animal que morre, a planta que murcha, um ciclo natural e necessário.
Desta forma talvez pudéssemos “preparar” não só as crianças, mas todos os envolvidos. Penso que por meio de livros, filmes, jogos e conversas as crianças podem ter suas perguntas respondidas de modo correto e adequado a sua idade.
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