Esta reportagem multimídia foi premiada como melhor trabalho na modalidade de Produção Laboratorial em Jornalismo Digital na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) durante o 45º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), em 2022.
MÍDIA ALTERNATIVA DENTRO DA UNIVERSIDADE
Por Joá Bitencourt, Bianca Lemos, Giulia Tavares e Emanuele Xavier
Quando baixa, a maré do tempo consegue deslocar embarcações de vivências para os oceanos de histórias. No ano passado, no Lote 84, na Praia dos Amores, em Balneário Camboriú, durante uma conversa com Luciana Bastos Siebert sobre a necessidade sempre presente de discutir o Brasil como América Latina, o nome da professora Elaine Tavares foi citado. Minutos depois, alguns exemplares de um jornal universitário de duas décadas atrás foram colocados sobre a mesa e uma trajetória começou a ser narrada. Por outros meios, a Barca do Povo atracou ali.
Comandado por Elaine no início dos anos 2000, o projeto era parte do Núcleo Experimental de Jornalismo Popular, uma extensão no curso de Jornalismo, na Universidade do Vale do Itajaí. Falavam sobre a realidade itajaiense, onde a Univali ocupa posição central, de forma simbólica e física. Nessa perspectiva, a sua principal preocupação era a comunicação com as pessoas que estavam à margem da realidade acadêmica e, como um todo, da cidadania. O grupo apresentava-se como Centro de Arte, Cultura e Comunicação Popular – Barca do Povo.
As memórias sobre o projeto estão espalhadas por muitos lugares: as lembranças das pessoas, os espaços que ocuparam, os jornais, os arquivos não encontrados de rádio e televisão, as fotos envelopadas e as anotações de pautas na agenda. Quando esta reportagem foi pensada, algo nos era muito importante: não fazer desta uma história única. Criamos aqui, com as partes que conseguimos coletar e organizar, apenas um dos tantos recortes possíveis a respeito de uma ação coletiva localizada em um tempo e espaço próprios.
A Barca tinha o objetivo de criar uma dinâmica “solidária e prática, com a discussão permanente entre comunidade e Universidade, percebendo que cada uma carrega um saber específico que, compartilhado, pode gerar frutos outros, que provoquem o crescimento mútuo.” É assim que, no volume 5 da revista Vozes & Diálogo, a professora junto a Leandro Pellizzoni, um dos bolsistas de extensão, descreviam a iniciativa.
Entrando em contato com as pessoas que fizeram parte desse momento, tanto como barqueiros, como eram descritos os integrantes do coletivo, quanto como público, pudemos entralhar uma rede de fatos. Do cais, olhamos o horizonte junto ao mar que recebe as histórias e pedimos licença para contá-las.
Em conversas dentro do ônibus no caminho entre Florianópolis e Itajaí, Elaine e uma dupla de colegas professores, Raquel Moysés e Gilberto Motta, criavam um espaço de troca no qual, entre outros assuntos, discutiam sobre jornalismo comunitário. O trajeto entre as duas cidades, que na época durava quase duas horas devido às obras na BR-101, acabara instigando a professora. Esses diálogos cotidianos, junto aos que tinha com os estudantes, viriam a construir a Barca do Povo.
O projeto veio antes mesmo de existir a disciplina específica voltada a essa prática na Univali. “Durante as aulas que eu dava, de Redação e Técnica de Reportagem, eu já trabalhava muito com essa temática, aí surgiu a ideia com algum par de alunos da sala de aula da gente iniciar um projeto que pudesse estar na comunidade” explica Elaine. Aos poucos, seus alunos começaram a demonstrar interesse, como explica Juvenal Vieira, ex-membro do coletivo: “Eu conheci a Barca por intermédio da professora Elaine Tavares, que comentou que iria montar um núcleo de comunicação popular e aí ela convidou a gente para participar. Na época, eu e o Ricardo Casarini, que é um outro jornalista que se formou aí na Univali também, a gente estava envolvido com fotografia e gostava, já tinha esse olhar mais para o lado do social, e aí começou a participar”.
O grupo expunha a realidade invisível aos olhos da maioria por meio de um jornal impresso, denominado O Sardinha, que era pensado para integrar o coletivo universitário ao seu público alvo desde as entrevistas iniciais de suas matérias até a entrega final da peça gráfica pronta. Um pouco depois, passou a existir também o Sardinha no Ar, programa veiculado na Rádio Conceição.
Osíris Duarte, outro ex-membro, comenta como aconteceu a sua aproximação. “Muitos dos meus amigos próximos também já trabalhavam vinculados à Barca e, por uma afinidade também com a professora Elaine, com a proposta do núcleo eu me juntei. Foi um dos primeiros voluntariados que eu fiz como extensão do curso de Jornalismo”, conta. Assim como outras pessoas que participaram dessa história, ele afirma que não se tratava de nenhuma relação especial com as comunidades, era simplesmente uma relação de verdade.
O que tinha de sobra na época, hoje falta: a presença física. Temos o mundo todo literalmente em nossas mãos, e muitas vezes, o nosso campo de visão se limita a isso. Aqui entramos em contradição. Falamos sobre um projeto que envolve pessoas, conhecimentos e afetos que não podem ser trocados apenas via mensagens e chamadas de vídeo ou voz. Devido à pandemia da Covid-19, não pudemos nos aproximar das comunidades como os integrantes da Barca fizeram em seus dias de atividade. O máximo que pudemos fazer foi utilizarmos os adventos da tecnologia para termos o contato com quem fez essa microrrevolução acontecer. Em uma dessas mediações, acabamos descobrindo que Diego Valdemar da Silva, um nome de enorme importância para o coletivo universitário, não poderia colaborar para este resgate histórico, pois estava internado devido a um acidente que sofrera.
É necessário abrirmos um parêntese para a importância de Diego em toda essa história. Ao contrário de todos os entrevistados citados ao longo desta reportagem, ele não fazia parte do núcleo de estudantes de Jornalismo que compunha a Barca. Era um jovem morador da comunidade Nossa Senhora das Graças, auxiliava os integrantes do projeto e participava das oficinas promovidas pelo grupo. Naturalmente, era frequentador da Universidade, mesmo que não fosse necessariamente um universitário. Ele sofreu ataques racistas por parte de seguranças da instituição (alguns episódios marcados inclusive por agressões físicas) e foi fundamental para muitas das manifestações promovidas pelos barqueiros. É lembrado até hoje por todos os que fizeram parte da iniciativa, e é uma prova de que a Barca do Povo fazia muito mais do que apenas jornalismo tradicional.
Para os seus integrantes, as informações se conseguiam através do envolvimento. A diferença estava no contato. Como disse Laura Schühli, outra universitária da época: “Sabe essa loucura de produzir três pautas por dia que um jornalista tem? Na Barca do Povo é impossível! Você demorava mais de dez dias para produzir um texto, porque você tinha que visitar a pessoa várias vezes, você tinha que ouvir várias fontes, você tinha que ter repertório.”
Elaine Tavares acredita e defende o que chama de jornalismo libertador. Em seu livro Jornalismo nas Margens: Uma reflexão sobre comunicação em comunidades empobrecidas, ela disserta sobre esse conceito e explica que sua proposta é uma reflexão sobre o fazer jornalístico que parte dos pressupostos da Filosofia da Libertação.
Como explica no seu trabalho, trata-se de “uma corrente de pensamento que surge na América Latina, nos idos dos anos sessenta, tendo como um dos seus mais importantes fundadores o filósofo argentino Enrique Dussel. Pois esse homem se dispôs a pensar o mundo a partir do ponto de vista do oprimido, da vítima que está fora do centro, fora da totalidade, e a produzir um discurso filosófico que nasce da realidade latino-americana”. Ao longo da obra da professora, esse e diversos outros pontos do jornalismo comunitário são minuciosamente explicados, mas apenas com a breve descrição acima já é possível ver a ligação de sua linha de pensamento com o projeto que comandou durante anos dentro da Universidade.
O profissional jornalista é erroneamente visto como um ser inalcançável para a sociedade civil, quando na verdade o que deveria acontecer é o contrário. O jornalismo feito pelos integrantes da Barca quebrava esse paradigma imposto pela grande mídia, a partir do momento em que ultrapassava as barreiras repórter-fonte e criava laços verdadeiros com cada pessoa que já passou pelo projeto. “Essa aproximação que a gente tem que ter com a comunidade, esse olhar muito apurado, esse respeito que a gente tem que ter pela fonte, isso era muito a Barca do Povo” afirma Laura.
Os barqueiros aprendiam a ver além do senso comum, fazendo com que histórias invisíveis virassem pauta com naturalidade. “O nosso norte era a democratização da comunicação. Porque não tinha rede social, não tinha WhatsApp. Hoje, em dois segundos uma notícia é disseminada no mundo inteiro, e naquela época não, então tinha muita história bacana escondida”, relembra Juvenal Vieira. Aqui, traz a história de um senhor que recolhia garrafas plásticas no rio Itajaí-Açu, presente na contracapa d’O Sardinha, da edição 4 de 2001. “Ele ia com o barquinho recolhendo garrafas pet embaixo dos estaleiros ao longo do rio. Uma história escondida, que ninguém saberia. Imagine, um catador de água! Até hoje é surpreendente”, fala entusiasmado.
A teoria proposta pela professora mudou o modo de ver o mundo de alguns de seus estudantes da época. Mais do que uma tese ou linha de pensamento, o conceito trazido por ela era uma ação. Além de libertar, o jornalismo ensinado por Elaine integrou.
“Foi um momento que as comunidades puderam ter na Univali uma parceria. Porque até então foi uma universidade encravada ali na cidade, mas que sempre esteve de costas para a vida dos empobrecidos. Com a Barca, não! Com ela, passaram a entrar ali, a se apresentar ali. Isso era muito bonito.” É dessa forma que Elaine aborda o contexto acadêmico daquele período.
Pouco a pouco, traziam para dentro dos seus muros os mundos fora deles. Crianças, adolescentes e adultos que, possivelmente não tiveram a chance de sequer prestar um vestibular, naquele momento conseguiram ter uma familiaridade confortável com o ambiente universitário. Aquele era um passo importante. Entender a marginalidade social não basta. Não se trata de torná-la pauta para uma ou duas aulas. Agir sobre ela estando junto das pessoas que ocupam esse lugar é o que interessa a quem deseja mudar algo, começando por si mesmo e a maneira como entende o mundo.
Uma das matérias de Osíris n’O Sardinha, na contracapa da edição 13 de 2002, traz atenção ao espaço que a Universidade ocupa e a sua oposição, se assim é possível chamar, ao bairro Nossa Senhora das Graças. No título, “Um muro na cabeça”. Estruturas que separam, quando existem, devem ser derrubadas e quando não, podem ao menos ser pichadas. Assim podem servir como suporte para outras mensagens que não sejam de segregação.
A isso, a penúltima página dos jornais da Barca do Povo sempre reservavam um espaço. Essa seção era chamada de Vozes da Rua. Nela, o que era expressado nos muros ganhava espaço no papel. “Uma comunicação considerada criminosa mas, na verdade, um dos veículos mais procurados pelos que estão insatisfeitos com alguma coisa. Queremos ouvir a sua voz.” Assim a edição 4 de 2001 explicava a ação.
Em 2000, sete anos após a criação do Cobaia, analisando informações do livro A história da imprensa em Itajaí, de Magru Floriano, a Univali estava no seu momento de maior produção de periódicos institucionais, como são categorizados pelo autor. O Sardinha, jornal comunitário da Barca do Povo, foi criado nesse contexto e passou a ser o seu principal veículo. O nome vem do mesmo pensamento da nomenclatura do projeto: exaltar a cultura pesqueira de Itajaí.
O barqueiro Ricardo Casarini, em um texto publicado no seu blog casarininaestrada (inativo desde 2011), explica que a tiragem era mensal e que a sua circulação iniciou em novembro daquele ano. Estima-se que três mil exemplares foram entregues nas mãos das pessoas durante o tempo em que a sua redação estava ativa.
Um deles inclusive foi passado para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 quando, durante a sua campanha eleitoral, esteve em seminário do Partido dos Trabalhadores realizado em Itajaí para discutir sobre pesca. Na ocasião, Jeferson Baldo, um dos integrantes do grupo, invadiu o palanque e entregou o jornal para que registrassem o momento. Embora não lembre a reação do então candidato, segundo ele, a quebra de protocolo não causou nenhum problema. “Eu fui provocado a subir no palco, pegar o Lula de surpresa e fazer a foto com O Sardinha. E comigo provocação vira desafio”, relata com tom de missão cumprida.
No dia a dia, a distribuição dos jornais era feita gratuitamente nos bairros, entregando para todos a edição do mês. Tinham o apoio das associações de moradores e, junto a elas, faziam esse trabalho. Nesses momentos, o objetivo de agitação comunitária se materializava.
O impresso de tamanho A5 não era apenas mais uma peça gráfica informativa. Era um meio das comunidades invisibilizadas pela sociedade se verem com outros olhos e terem suas vozes amplificadas. Amplificadas, e não representadas. “Eu lembro que a gente tinha essa discussão, porque a gente tinha o slogan no programa de rádio, que era ‘a voz do povo’, e eu dizia assim: ‘não é a voz do povo, porque o povo tem voz!’. O povo tem voz, ela só não é ouvida, então você não pode assumir esse lugar de você querer ser a voz do outro, e ainda assim dizer ‘nós somos a voz do povo’. Não, ninguém é voz nenhuma do povo. O povo tem voz, cara!” relembra Osíris Duarte.
De 2001 a 2003, nas segundas-feiras, no horário das 11h às 11h30, o Sardinha no Ar ocupava as ondas radiofônicas da Rádio Conceição, na estação 105.9 FM, no intuito de estender o trabalho que O Sardinha impresso iniciou. No mesmo texto de blog citado acima, Casarini traz que, por causa da identificação dos ouvintes com os temas que eram abordados, o programa recebia muitas ligações com reivindicações, questionamentos e denúncias a respeito dos problemas vividos nos bairros. Os assuntos das manhãs de segunda iam desde as festas comunitárias até os movimentos sociais brasileiros, latino-americanos e ao redor do globo. Isso tudo sem que os pontos deixassem de se correlacionar.
Osíris lembra sua passagem com o colega Jeferson Baldo como uma forma divertida de correr contra o tempo. “Faltando tipo dez minutos para entrar, a gente estava fechando o roteiro ainda, editando matéria tudo em cassete, passando uma coisa para a outra, a gente levava umas duas horas para preparar o programa, terminava em cima da hora para entrar no ar”.
O estúdio que ficava aos fundos do segundo andar da Igreja Matriz era onde tudo acontecia. Segundo Sandro Simas, que trabalhava na Rádio Conceição na época e chegou a fazer a sonoplastia de alguns programas, os barqueiros tinham total controle. Sozinhos produziam, faziam a edição e colocavam no ar seus ideais comunitários.
A partir de 2003, é possível notar que a coluna à direita da página 2 nas edições do jornal sofre uma mudança. O endereço no bairro Fazenda, que até então ficava na Rua Uruguai, 458, passa a constar na Rua Emílio da Cruz Coutinho, 66. Essa alteração foi resultado da demissão de Elaine Tavares, que aconteceu junto ao desligamento de outros professores. Quando isso ocorreu, a Barca do Povo ultrapassou a delimitação dos tijolos da Universidade.
Mencionado pela professora como uma das pessoas que coordenava o coletivo, Casarini coloca que a saída dela não foi o suficiente para que a gana de continuar com o projeto cessasse. “Inicialmente, a gente fez mesmo no peito, na tora. Sem apoio, sem nada”, comenta. Aos poucos, com a aprovação em editais, em Lei de Incentivo à Cultura e até mesmo com o dinheiro do próprio bolso, deram continuidade àquilo que fora iniciado anteriormente.
Foi nessa situação que, mesmo tendo perdido o apoio institucional, conseguiram alugar uma casa. Onde agora existe um prédio sobre o terreno, havia uma construção simples dividida em quatro cômodos: quarto, sala, cozinha e banheiro. Com as intervenções do coletivo, o quarto se tornou uma biblioteca, a sala virou uma redação e a cozinha foi transformada em um laboratório fotográfico. Aquele então passara a ser o espaço de convivência da tripulação da Barca.
Com o tempo, compraram uma Kombi, com a qual passaram a fazer a distribuição dos jornais. Elaine, que continuava acompanhando o projeto, diz que a entrega “sempre era uma festa”. “A gurizada saía correndo atrás dela. O pessoal esperava chegar O Sardinha”, conta com alegria. A Kombi do Povo, como passaram a chamá-la, mais do que um meio de transporte, funcionava como um centro autônomo levando interações artísticas, culturais e de conhecimento às pessoas. Por meio dela, os barqueiros passaram a viajar, indo a encontros, seminários e fóruns, como o Fórum Social Mundial (FSM), pelo Brasil e outras localidades do Sul da América.
É inviável listar todos aqueles que, em algum momento, embarcaram no projeto ou foram impactados por ele. Descrever a sua importância na vida de cada um desses indivíduos menos ainda. Pelo seu caráter comunitário, buscando integração em todos os âmbitos sociais, a visão de mundo de todos os seus idealizadores, colaboradores e participantes, consequentemente, mudou. Aqui, mesmo sabendo que essa é uma tentativa falha, queremos falar um pouco sobre alguns deles:
Jornalista e educadora. Foi professora do curso de Jornalismo da Univali entre 1996 e 2003, quando idealizou a Barca do Povo. A partir de 2004, ajudou a criar o que viria a se transformar no Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde trabalha até os dias atuais. Edita a Revista Brasileira de Estudos Latino-Americanos e escreve para o seu blog Palavras Insurgentes.
Mesmo sendo jornalista de formação, hoje atua no ramo da alimentação como proprietária de uma cafeteria. “A forma como eu construo, desde as minhas reuniões de equipe, o cardápio, tudo passa pela metodologia que a comunicação social me ensinou.” Mesmo não exercendo a profissão, carrega consigo toda a apuração e a essência do fazer jornalístico.
Jornalista, fotógrafo e videomaker. Através da Trilhares, sua empresa, é produtor de conteúdo web. Há um ano, tem escrito para o seu blog pessoal auto-intitulado, onde publica suas crônicas.
Produtora cultural e artista visual. Foi a barqueira que nos colocou em contato com o projeto. É fundadora do Lote 84, escola livre de estudos contemporâneos que ocupa Balneário Camboriú desde 2014. Ela afirma que esse espaço é um desdobramento de todas as vivências que teve com o grupo durante a graduação no curso de Jornalismo.
Fotógrafo. Ressalta que a Barca foi muito importante não somente na sua formação como universitário, mas também como pessoa e cidadão. “É muito legal saber que ainda inspira estudantes”, comemora.
Foi barqueiro durante um período curto, em torno de oito meses, que foi suficiente para impactar os rumos que seguiu. “Você vê que até no meu trabalho de conclusão de curso a Barca estava lá. E estava todo mundo lá na minha banca, estava cheio, lotado, as crianças foram, foi bem legal”, conta. Começou a trabalhar na televisão em 2005, operando máquinas e hoje é editor de mídias.
Escritor, jornalista e fotógrafo. Participou integralmente do projeto durante cinco anos e foi educador em diversos palcos. Na época, junto com Ricardo Casarini, trabalhou com menores infratores dentro do Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório (Casep). Recentemente, lançou o projeto Sítio Terra Autônoma, que tem como intuito promover um ideal de vida baseado em independência e sustentabilidade.
Jornalista e fotógrafo. Doutor em Educação, o projeto se presentifica na sua vida até os dias atuais, sendo inclusive citado em sua tese recém apresentada. Vinte anos depois, declara que a sua trajetória é “o reflexo do trabalho que foi construído desde aquela época.”
Jornalista. Mestre em Comunicação Social, está ingressando no doutorado com linha de investigação de novas tecnologias e seu impacto na sociedade. “A Elaine Tavares sempre dizia que precisamos olhar para o invisível e transformar narrativas”, relembra relacionando com a sua caminhada.
Também graduado como comunicador social, atualmente é massoterapeuta. Oferece aulas de meditação e consultoria em transição alimentar. Com isso, exerce um trabalho com base no veganismo dedicado à promoção de consciência relacionada à alimentação.
Mesmo a Universidade sendo uma instituição privada e existindo um abismo entre a realidade dentro dela e fora, levar a comunidade para dentro dos seus muros e, principalmente, fazer o movimento contrário foi gesto transformador.
Não há uma versão em comum a respeito de quando o projeto terminou. Talvez pelo fato dos barcos terem sido guiados por diferentes águas, as narrativas de como as suas atividades encerraram acabaram se perdendo. Poderíamos estimar que isso aconteceu após 2005, ano da ida ao FSM, ou então depois de 2008, quando ainda temos vestígios de algumas atividades, como a assinatura do vídeo institucional do Centro Público de Economia Solidária de Itajaí (Cepesi). Sem importar a data exata, o que podemos perceber é que, mesmo que hipoteticamente a estrutura estivesse desfeita, a Barca permanecia viva.
No presente ano, o curso de Jornalismo da Univali completa três décadas de existência. Nós, que assinamos este texto, acreditamos na importância de resgatar projetos como este para ativar, a partir da memória, o corpo estudantil da Univali. Assim, trazendo não somente a importância de uma perspectiva crítica, mas sobretudo, de exercer uma postura de responsabilidade social e política diante do contexto em que estamos inseridos. Não é possível desligarmos nossa realidade do local e do momento em que vivemos, portanto é essencial que estejamos atentos ao que acontece à nossa volta.
Queremos ir além. Passar por cima da linha de “o que foi a Barca do Povo na Universidade?” e alcançar a incógnita de “o que seria da Universidade caso a Barca do Povo ainda existisse?”. Talvez um dia nós, novos estudantes, nos cansaremos de apenas cogitar hipóteses e partiremos para a ação, permitindo que voltemos a navegar como quem disputa territórios em uma comunidade acadêmica elitizada e conformada.
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias I, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.