Por Deivid Gustavo, Felipe Oliveira, Lucas Koerich e Luisa Pires
O Centro de Tratamento Alternativo Pró Vida (CTA Pró Vida) é uma comunidade terapêutica que foi criada há 30 anos atrás com o apoio da 1ª Igreja Presbiteriana de Itajaí. Localizado no Bairro Carvalho, em Itajaí, a ONG tem como objetivo auxiliar na recuperação de homens com problemas consequentes do uso de drogas, portando ou não o Vírus HIV.
Segundo a ciência, a dependência química é uma doença incurável, progressiva e fatal. No entanto, há a possibilidade do tratamento. No CTA Pró Vida, a prática terapêutica tem uma duração de 6 meses, que quando finalizados, se estende por mais meses sob acompanhamento na Casa de Apoio (moradia localizada no mesmo terreno, mas destinada para os internos que concluem os seis meses e desejam manter-se sob os cuidados da ONG, por espontânea vontade ou necessidade).
Nesse período, os adictos recebem apoio médico, nutricional e psicológico. Entretanto, segundo os alunos, o despertar espiritual é o pilar mais importante do processo, visto que é necessária uma mudança natural na mente do dependente químico para que consiga se manter longe de seus vícios.
Atendendo em média 35 internos constantemente, a equipe do Pró Vida é liderada por Luis Augusto Prates da Costa, o diretor da casa terapêutica. O “Tio Luis”, como é carinhosamente chamado por todas as pessoas que o cercam, teve a oportunidade de participar na construção da entidade e então assumir o comando do projeto. O gaúcho natural da cidade de Rosário do Sul, foi movido pela vontade de ajudar pessoas quando abriu mão de seus sonhos após ser encantado pelo trabalho quando era monitor na CTA. Formado em educação física, Luis sempre valorizou a importância da atividade física e da boa alimentação, o que influenciou para terapias esportivas e o acompanhamento de uma nutricionista para o Pró Vida.
Com tamanha experiência na área, Tio Luis tem propriedade para dizer que o tratamento é um trabalho árduo para todos. Tanto para os alunos, quanto para a equipe do CTA Pró Vida. De acordo com ele, 5% dos internos conseguem se libertar de seus vícios após os seis meses de tratamento terapêutico e os meses seguintes de apoio e acompanhamento. O tempo na Casa de Apoio é importantíssimo para a reinserção do restaurado à sociedade, visto que é nessa fase em que é preparado e enviado o currículo do aluno a empresas que podem aceitá-lo. Outro caminho muito efetivo é a manutenção e treinamento dos recuperados que buscam trabalhar dentro da equipe do Pró Vida, com a vontade de ajudar mais pessoas a passarem pelos mesmos obstáculos. “Hoje a nossa equipe é praticamente toda montada por ex-dependentes químicos. É um pouco difícil reinserir os meninos na sociedade, mas também não é impossível. Temos dois que trabalham em supermercados e um que trabalha num Shopping, os três continuam morando aqui”, relata Tio Luis.
P.S.: É de extrema importância reforçar que a Comunidade Terapêutica do Pró Vida NÃO é um manicômio. Trata-se de um ambiente digno e carinhoso, com valores que visam à vida saudável de todos, sem ferir ou obrigar ninguém. Da mesma maneira que o CTA Pró Vida tem as portas abertas para receber divergentes casos consequentes do vício em substâncias químicas, a casa tem as portas abertas para a desistência e abandono por parte do dependente químico, o que é costumeiro e facilmente aceito pela equipe do Pró Vida. Internamente, todos os alunos têm livre arbítrio para quererem ou não realizarem as atividades propostas do dia a dia. O Pró Vida almeja auxiliar pessoas a voltarem a viver da maneira que merecem, e a vontade de mudar o rumo da sua vida é proveniente do aluno.
Gandaia e Caminhões: Uma combinação fatal
Alecsandro é um homem apaixonado. Começou cedo quando o assunto é colocar mais Alecsandrinhos no mundo, aos 14 anos de idade. Se engana quem acha que ele parou por aí. O homem natural de Pernambuco é pai de 10 filhos, faltando apenas um para formar um time de futebol.
Alecsandro não foi apenas precoce para fazer filhos, mas também para conhecer a droga. Alecsandro é carreteiro e rodou o Brasil inteiro devido ao seu trabalho. Mas aquilo que lhe deu asas para voar pelas estradas, limitou sua liberdade. Segundo a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), 30% dos caminhoneiros brasileiros usam drogas para suportar a exaustiva jornada de trabalho a que são submetidos. Alecsandro não foi o primeiro e tampouco o último a se drogar para enfrentar as estradas do Brasil, um país continental. “Para dirigir na estrada não tinha essa lei de hoje, do toxicológico, aí para andar acordado tinha que tomar droga”.
Não foi apenas o caminhão que levou Alecsandro para as drogas. Seus relacionamentos foram mais um combustível para que o crack atuasse em sua vida. Seus 10 filhos são de oito mães diferentes, Alecsandro se casou nove vezes. As inúmeras desilusões amorosas fizeram com que ele consumisse ainda mais substâncias tóxicas, para preencher o vazio que os seus relacionamentos deixavam.
“Para dirigir na estrada não tinha essa lei de hoje, do toxicológico, aí para andar acordado tinha que tomar droga”
“Fiquei andando em círculos”
Voltar pelo caminho limpo
O Pró-Vida foi o segundo lugar que Alecsandro buscou para se recuperar. Sua primeira internação durou apenas 18 dias, pois, segundo o caminhoneiro apaixonado, não havia propósito. “Fiquei andando em círculos”.
Alecsandro encontrou o Pró-Vida quando chegou a Itajaí procurando mudar de vida mas bateu de frente com a pedra. “Fiquei ali na frente dois dias, sábado e domingo. Foi difícil entrar aqui, pois estava com a casa cheia. Mas o tio Luis é um homem que tem um coração gigante e abriu as portas para mim”.
O tratamento na Comunidade Terapêutica foi impactante na vida de Alecsandro. “O que eu mais me apeguei aqui são os princípios que o tio ensina. São 12 princípios, 12 passos que foram muito importantes porque eu aprendi coisas que eu não sabia, amar o próximo, ter compaixão e buscar mais a Deus”.
O Tio Luis é figura recorrente na sua fala. Segundo Alecsandro, se todos buscassem e levassem a sério o que o diretor da clínica ensina, o índice de recuperados seria muito maior.
Na estrada do futuro
Quando entrevistado, Alecsandro estava prestes a deixar a clínica após os seis meses de recuperação. “Aí hoje eu tô bem, eu já fui essa semana fazer o exame toxicológico e deu tudo zero, graças a Deus”.
Um dos seus grandes objetivos é reatar os laços que a droga afastou. Alecsandro mantém contato com seis dos dez filhos, sendo uma de suas filhas essenciais na sua recuperação, participando das lives promovidas pela casa para os parentes se verem de forma remota.
A mulher que o caminhoneiro teve um relacionamento mais duradoura o deixou e procurou em outros braços o amor que Alecsandro não a deu. “ Hoje eu me sinto outra pessoa, recuperado, com fé em Deus. Hoje eu sinto que quando eu sair daqui, com a cabeça erguida, vou reconquistar o que eu perdi para trás. A vida é isso aí”.
Seus objetivos atuais estão ligados ao alto, sem precisar que a droga o leve até lá. “Não tem recuperação sem conversão. Para a gente se recuperar de verdade, tem que se converter para Jesus. Eu quero congregar na igreja, eu quero trabalhar, encontrar uma esposa, pedindo a Deus para me mostrar uma esposa de verdade agora. Porque eu vivia uma vida de mentira, e hoje eu quero uma vida de verdade”
“ Hoje eu me sinto outra pessoa, recuperado, com fé em Deus. Hoje eu sinto que quando eu sair daqui, com a cabeça erguida, vou reconquistar o que eu perdi para trás. A vida é isso aí”
Barcelona dividida
Até os 11 anos ele viveu no Uruguai, quando o espírito aventureiro de sua família os levou para Barcelona, onde viveu por três anos e meio. Barcelona, a cidade onde Brasil e Uruguai se encontraram com a dupla Neymar e Luis Suárez, acabou afastando o casal bi-nacional que tinha Ronald como filho. “Era um lar desestruturado. Desde pequeno via violência familiar, meu pai surrava minha mãe”. Com a separação, o menino teve o primeiro contato com as drogas.
“ Era um lar desestruturado. Desde pequeno via violência familiar, meu pai surrava minha mãe”
Ronald começou com o haxixe, um derivado da maconha. A erva verde estava presente na vida do garoto, pois sua mãe era usuária desde os seus seis anos. Ele escondeu da mãe o seu novo hábito por algum tempo. Quando decidiu contar, teve uma surpresa. “No começo achei que ia ser punido, ser repreendido, porque sabia que estava errado. Mesmo sabendo que ela usava, eu sabia que era algo que talvez ela não quisesse para mim. Mas quando abri o jogo, foi totalmente ao contrário, a liberdade foi total”.
Ronald sempre teve liberdade e dinheiro para fazer o que queria, podendo usufruir de diversas possibilidades. “Minha mãe me ensinou muitas coisas, e colocou muitos conceitos que realmente até hoje eu levo, mas teve muita coisa que realmente foi prejudicial. Toda essa questão da liberdade, eu teria feito tudo diferente”.
A volta
Quando Ronald tinha 14 anos, sua mãe resolveu retornar à sua pátria, diretamente para Penha, em Santa Catarina. A volta ao Brasil representou um atraso nos estudos do jovem multinacional. “Eu tive que refazer os estudos. Porque lá estava quase terminando o Ensino Médio. Só que eu não consegui fazer uma coisa chamada tradução juramentada, aí tive que começar tudo de volta”.
“Aí conheci a cocaína, que me deu uma sensação de euforia. Me senti maior, melhor e mais forte (…)”
Não foram só os estudos que atrasaram a vida de Ronald, mas também a entrada mais a fundo no mundo das drogas. “Aí conheci a cocaína, que me deu uma sensação de euforia. Me senti maior, melhor e mais forte. Então, no começo é muito atrativo, muito chamativo, é prazeroso, dá uma liberação de endorfina e dopamina muito grande”.
Imparável
Mesmo com as drogas, Ronald era um jovem atlético e graças ao porte físico conseguiu trabalho como segurança. “Eu tinha mais ou menos uns 20 anos, malhava, era grande, era forte e eu falava assim: ‘Eu sou indestrutível, porque tudo que eu quiser fazer eu posso fazer’, até que dei de cara com muro e vi que o mundo é mais forte do que eu”.
A situação em sua vida ficou incontrolável, pois a cocaína não fazia mais efeito em seu corpo, ele precisava de mais. Foi quando ele começou a usar crack. “O negócio era legal, conseguia me relacionar com as pessoas e tudo mais. Nesse meio-tempo consegui me especializar, fiz meus cursos de segurança patrimonial, transporte de valores, entre outras coisas”.
Parada para correção de rota
Tendo inteligência e preparo como aliadas, Ronald conseguia adiantar sua vida, mas recaia diversas vezes. Depois de cada novo tropeço era ainda mais difícil de se levantar. As internações foram recorrentes na sua vida, oito no total. Mas apenas duas foram eficazes”. Esses lugares, especificamente, abrangem várias áreas que a gente precisa para desenvolver um tratamento da situação, porque a ciência considera essa doença incurável e fatal. Acredito que a ciência está certa, porém o que tem levado a uma compreensão muito mais abrangente da coisa, é a questão espiritual”.
Antes de chegar no Pró-Vida, Ronald via dois caminhos claros em seu horizonte: ir para uma prisão, pois a droga faz a pessoa agir de uma maneira que nunca imaginou, ou ir á obito. “A droga é a coisa mais eclética que existe, a coisa que não tem preconceito nenhum: é preto, branco, chinês, oriental, ocidental, rico, pobre; não existe preconceito”.
Antes de chegar no Pró-Vida, Ronald via dois caminhos claros em seu horizonte: ir para uma prisão, pois a droga faz a pessoa agir de uma maneira que nunca imaginou, ou ir á obito. “A droga é a coisa mais eclética que existe, a coisa que não tem preconceito nenhum: é preto, branco, chinês, oriental, ocidental, rico, pobre; não existe preconceito”.
“A droga é a coisa mais eclética que existe, a coisa que não tem preconceito nenhum: é preto, branco, chinês, oriental, ocidental, rico, pobre; não existe preconceito“
Sua oitava internação está lhe trazendo bons frutos e fazendo Ronald imaginar um futuro diferente na sua vida. “Deus, porventura, teve misericórdia de mim. E hoje estou conseguindo fazer o tratamento, sou uma pessoa racional, sou uma pessoa que entende. Ficaram sequelas mais na parte emocional, mas Deus tem tratado na minha vida. Não é num estalar de dedos e você não é mais assim, é trabalhado”.
Pouco a pouco, Ronald vai lutando, buscando valorizar a vida. O grande responsável? Não poderia ser outro. “O método terapêutico desenvolvido pelo Tio Luis vai além do que eu vi em qualquer outro lugar, do que a ciência explica, ele juntou a ciência com a parte espiritual. Com certeza a parte espiritual está muito acima da ciência, mas ela está sendo completada com a ciência, ajudando a desenvolver um trabalho realmente sério e que tem surtido efeito na vida de várias pessoas aqui dentro”.
Difícil desde o princípio
Fábio é natural de Balneário Camboriú, mas só de nascimento. Sua vida acontece em Itajaí, se passando facilmente como mais um peixeiro da terra. Desde antes de nascer, podemos ver que os caminhos que Fábio tomou não foram por acaso. “ Eu tinha um irmão mais velho, e a minha mãe, com as dificuldades da sua vida, não pôde o sustentar, e doou esse irmão”.
Fábio nasceu logo em seguida. Para não entregar outro filho, sua mãe confiou a criação dele aos avós. A falta de estrutura familiar e financeira foram determinantes para o seu que seu futuro fosse tortuoso, mas ele não julga a sua mãe, pois hoje vê como é difícil criar um filho.
“Não fui um criminoso pelo fato de ter uma má educação (…) “
Além disso, ele agradece muito o zelo que seus avós tiveram com ele. “Não fui criminoso pelo fato de ter uma má educação, tive uma boa educação com os meus avós. Depois de um certo tempo conheci algumas pessoas e minha educação começou a cair no chão, ela desmoronou “.
“Me afastei do crime, mas não consegui me afastar da cocaína”
Um homem fichado
Fábio pode ser visto como um homem normal, casou, viveu 20 anos com a mesma mulher, teve 2 filhos, Fábio Jr e Henrique, e se separou. Mas a criminalidade e as drogas mudaram sua vida. Hoje, faz 10 anos anos que Fábio saiu da criminalidade, mas antes disso ele passou longos cinco anos preso por causa do seu envolvimento com o tráfico.
“Me afastei do crime, mas não consegui me afastar da cocaína”, relata Fábio. Desde os seus 22 anos, o homem se diz fã da cocaína e já tentou usar maconha para preencher esse vazio, mas foi em vão. O “mix” do dinheiro que recebia do crime com as drogas, o tornava um ser destrutivo”. O dinheiro me cegava muito forte. Eu ganhava muito, e conforme eu ganhava ‘entrava pela porta e saía pela janela’, só ilusão”.
A volta pelo caminho certo
O Pró-Vida é a segunda clínica que Fábio passou para tratar seu vício. Ele ficou três meses e saiu bem, forte e com Deus. Porém, ao voltar para o mundo e ver a realidade com o “bem e o mal”, Fábio acabou recaindo.
Nessa recaída, ele acabou perdendo um trabalho registrado e teve que parar a construção de sua casa. Com isso tudo, ele decidiu dar um basta e procurar ajuda. “Achava que dinheiro, que as coisas que eu costumava fazer me faziam ser feliz, mas eu perdi. Perdi muito mais do que dinheiro. Perdi a família e a minha dignidade. Ninguém botou uma arma na minha cabeça, eu escolhi e hoje eu estou pagando”
Já no Pró-Vida, Fábio diz que tem vontade de ir embora todo dia, e quem fala o contrário está mentindo para si mesmo. Mas o fato de não estar se tratando apenas com remédios o faz se manter firme na luta pelo seu tratamento. “Estou tratando com a palavra do Senhor. É o que me sustenta a ficar de pé aqui”.
Seu foco está em Deus, pois, segundo Fábio, ele precisa amadurecer e aprender a dar valor, para que o seu Pai lhe dê aquilo que o Inimigo retirou.
Apesar da dificuldade, de “ter que matar um leão por dia” para se manter firme no tratamento, Fábio está confiante. “Acho que essa é a minha última chance de vida. Eu decidi, em meu coração, que essa será a última vez. Sou uma nova criatura, uma nova pessoa em atitudes e gestos”.
“Acho que essa é minha última chance de vida.(…) Eu decidi, em meu coração, que essa será minha última vez (…)”
Sua experiência no Pró-Vida será a sua fortaleza para o mundo fora da clínica, pois, em sua opinião, o carater de uma pessoa não se forma em seis meses. “Eu era ruim, era a pessoa mais podre do universo. Eu conheço pessoas de 15, 20 anos de clínica e não mudaram. O caráter só é forjado quando sofre, quando Deus mostra que não somos nada.
Desde cedo
A família de Francisco é evangélica, seus irmãos são formados e têm bom trabalho, calhou ser ele o ponto fora da curva. “A minha infância foi nas drogas, eu comecei a usar com 12 anos de idade. Mas mesmo nas drogas, eu consegui concluir meu estudo de segundo grau, mas eu fiquei nas ruas cuidando de carro, aí depois entrei para a criminalidade”.
“A minha infância foi nas drogas, eu comecei a usar com 12 anos de idade (…)”
Francisco culpa por sua entrada nas drogas, a falta de regras imposta pela sua mãe. “Minha mãe me deu liberdade para ir à rua todo dia. Quando ela foi saber eu já estava viciado, com 18 anos. A droga já tinha me vencido, eu desacreditei, não via cura para o meu vício”.
Metendo Assalto
Francisco é natural de Roraima, foi ali onde começou a assaltar. A sua carreira de gatuno não foi a das mais promissoras, o levando para a cadeia em três oportunidades, todas no Norte do país. “A última vez eu passei dois anos e seis meses preso em regime fechado, aí depois fui para o semiaberto, do semiaberto eu fiquei um ano no aberto. Agora não devo mais nada para a justiça “.
Apesar de ter um currículo pesado, Francisco conseguiu arrumar uma parceira, também usuária, com quem casou e teve dois filhos. Os dois conseguiram parar de usar juntos por um certo tempo.
Após pagar sua dívida com a sociedade, Francisco e sua esposa decidiram vir para o Sul. “Viemos para Santa Catarina, trabalhei em Gaspar numa fundição. Depois fui para Roraima e voltei para Brusque”.
O casamento não resistiu às idas e vindas de Francisco. Sua esposa o deixou. Hoje ela vive com um homem que lhe apoia e ajuda a lutar contra o seu vício. Com essa separação, Francisco recaiu novamente.
Da rua veio a vida
Quando a oportunidade de ir para o Pró-Vida veio ao Francisco, ele estava morando na rua, pois seu aluguel havia vencido e não tinha dinheiro para pagar. “Eu estava na Igreja Católica e ia almoçar. Aí veio um cara, que é voluntário aqui em Itajaí, e conseguiu uma vaga para mim no Pró-Vida. Agora que eu estou criando um pouco de esperança, mas não é fácil”.
De todas as suas experiências em clínicas, essa é a que mais está impactando a vida de Francisco. “Ontem eu fui ao banco sacar um dinheiro, eu e o outro cara, ele bebeu e eu não. Eu falei: ‘Eu quero meu tratamento, eu quero sair dessa vida”.
Seus filhos moram em Roraima, um com a sua ex-esposa e outro com sua mãe. Ao terminar o tratamento, ele quer ir visitá-los e retornar a Busque, para tocar sua nova vida.
Francisco está finalizando o seu tratamento e enxerga com clareza como é a luta contra o vício. “Agora, quem nunca usou droga acha que é safadeza. A droga é tipo um bichinho que entrou dentro da gente, que fica cutucando, te pedindo e incomodando o tempo todo. A cura está dentro da gente, cada dia tem que matar um leão, aí amanhã vem outro, e outro… Quando tu vê, tu já está na sarjeta de novo”.
“A droga é tipo um bichinho que entrou dentro da gente, que fica cutucando, te pedindo e incomodando o tempo todo (…) Cada dia tem que matar um leão”
Guilherme é natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul e teve uma infância como toda criança gostaria de ter. “Minha infância foi bem produtiva, sempre brincalhão. Fiz tudo que podia fazer. Sempre estudei e pude aproveitar o bom sistema de educação que minha cidade tinha”.
Aos 15 anos, ele começou o curso de jovem aprendiz, voltado a área de assistente administrativo, onde seguiu carreira até se tornar motorista.
Apesar de parecer um jovem promissor e com um bom futuro, a má influência de um tio, que o aproximou de pessoas que fumavam maconha no seu bairro, fez com que todo esse potencial viesse por água abaixo. “Com 12 para 13 conheci o cigarro e a maconha. Com 15 anos, já conhecia a cocaína. Fiquei usando apenas cocaína e maconha até os 18. Aí conheci o crack”.
“Com 12 para 13 conheci o cigarro e a maconha. Com 15 anos, já conhecia a cocaína.(…) Aí conheci o crack”
Apesar de ser usuário de drogas desde muito novo, Guilherme conseguiu atingir um bom nível na sua vida. “Tive um grau na sociedade do meu município bem elevado, consegui ficar na elite da sociedade, mas quando comecei a usar o crack as pessoas se afastaram de mim”.
Como as pessoas em que Guilherme convivia tinham dinheiro para ter a droga com facilidade, ele diz que agiu de forma vergonhosa para manter o vício. “Vivia num ciclo, onde para eles tudo é fácil, porque eles tinham dinheiro. Mas para nós, que somos da sociedade menos abastada, não tem como se manter na droga. Aí tu acaba cometendo erros grotescos, do que me arrependo muito hoje, de enganar, de mentir”.
“Perdi a confiaça das pessoas e perdi meu filho”
Seus erros acabaram o afastando de seu filho. Em momentos em que estava lúcido, a mãe do seu pequeno permitia que ele visse o filho, principalmente quando ele foi para Dourados, no Mato Grosso do Sul, e começou a refazer a sua vida. Mas outra recaída tirou o seu filho novamente. “É uma sensação, assim, que é indescritível, que vai corroendo a tua vida de uma maneira que acaba te deixando cego. Hoje eu percebo que tudo que eu tive eu perdi. Perdi a confiança das pessoas e perdi meu o filho”.
Reescrever a Vida
Guilherme saiu de Alegrete diretamente para Itajaí, em busca de tratamento. Por ser presbiteriano, igreja que promove a ONG, foi convidado pelas pessoas que congregavam no Rio Grande do Sul para buscar ajuda na clínica de tratamento. O fato de estar longe de casa foi um fator determinante para aceitar o convite. Ele quer escrever uma folha em branco.
Guilherme cita o tratamento no Pró-Vida como um cuidado especial, pois ele não foca apenas no corpo, com remédios, mas na alma e no espírito. A ONG prepara o adicto para sua saída, quando terá que encarar o mundo. “A sociedade em si é cruel. A sociedade te julga, te aponta o dedo e não te dá uma mínima margem para recomeçar. Tanto é que todos os drogados, ao se apresentarem como usuários a alguém, eles te olham de uma maneira totalmente diferente”.
Ao conversar com uma psicóloga, Guilherme percebeu o seu grande problema. “Eu não tinha limite, eu não sabia o que era limite na minha vida, eu sempre quis passar além. Na maioria das vezes eu caí, e eu não sabia aceitar. Tudo é em longo prazo, a caminhada não é do dia para noite, mas eu não entendia isso”.
“A sociedade te julga, te aponta o dedo e não dá uma mínima margem para recomeçar”
Guilherme pode não lutar como um campeão de UFC, mas ele conhece as porradas que a vida pode dar e compara o seu tratamento no Pró-Vida com o preparo de um lutador. “O lutador quando perde uma luta, ele não volta imediatamente ao ringue. Ele dá um tempo, se prepara, busca aperfeiçoamento, para daí sim voltar ao ringue. É mais ou menos isso que acontece conosco aqui”.
Com o tratamento, Guilherme aprendeu a aceitar seu destino e perceber que tudo que está vivendo é por causa de suas escolhas. “A lei da semeadura é certa. O que você plantar, você vai colher, tanto coisas ruins, quanto coisas boas. Eu vim para Itajaí, porque a minha semeadura na minha cidade natal foi ruim. Será necessário tempo e bastante trabalho árduo da minha parte para refazê-la”.
Quando sair da clínica, o principal objetivo de Fábio é reconstruir sua vida e retomar o contato com as pessoas importantes para ele, especialmente seu filho. “Quero fazer igual a passagem bíblica da Arca de Noé. Vou construir a minha arca e trazer as pessoas que eu amo. Meu filho é uma das peças fundamentais no tratamento, juntamente com as pessoas que são especiais para mim. Mas eu sei que para tê-los de novo não é do dia para noite, preciso batalhar muito”.
“A lei da semeadura é certa. O que você vai plantar, você vai colher, tanto coisas ruins, quanto coisas boas”
O sonho que se tornou um inferno
Jean é um dos tantos homens nordestinos que, saindo de Piauí, foi tentar a sorte na cidade que é conhecida como a locomotiva do país. São Paulo foi o local onde ele encontrou o grande amor da sua vida, com quem teve dois filhos.
Ao viajar a negócios para Balneário Camboriú, Jean se apaixonou e convenceu a esposa a se mudar e construir sua empresa na Dubai Brasileira. Mas, destino quis que a cidade dos sonhos se tornasse o calvário do casal. Sua esposa caiu em depressão e começou a beber muito, sendo até internada. “Quando ela voltou da internação, eu já estava um pouco desanimado. Foi onde a gente começou a brigar, a ter discussões dentro de casa, aí a gente acabou se separando”.
Ainda com o coração em pedaços, Jean se entregou a outra pessoa, com quem passou sete anos e também se divorciou.
Hoje, Jean tem depressão profunda, desenvolvida após um acidente de carro, onde ficou em coma e teve que colocar platina em sua cabeça para reparar os estragos. Apesar da platina, a cabeça de Jean nunca mais foi a mesma. Ele constantemente tenta curar a depressão com o álcool.
“Quando tinha alguém em casa, eu queria me trancar e quando a pessoa saia, eu sentia falta”
Coração em cacos, mente desalinhada e o álcool tentando consertar tudo, porém ele trazia ainda mais estragos. Ao se embebedar, Jean não procurava confusão, ao contrário, ele se escondia. “Quando tinha alguém em casa, eu queria me trancar e quando a pessoa saia, eu sentia falta”.
Uma dupla incompatível
Pela depressão, Jean usa remédio controlado há uma década. O problema foi o fato de misturar a medicação, com o seu antigo hábito de tomar um litro de Velho Barreiro por dia. Uma combinação nada apropriada. “Tinha alucinações, comecei a ouvir vozes, escutava gente batendo na porta e me levantava pra olhar e não tinha ninguém”.
A depressão, assim como o vício em álcool, é traiçoeira e muitas vezes faz a pessoa pensar se viver realmente é preciso. Jean tentou suicídio em quatro oportunidades. A primeira delas foi tentando se jogar do 18° andar de um prédio. Quando estava no guarda corpo, pronto para se lançar aos céus sem asas para voar, ele foi impedido pela filha de sua segunda companheira, que o segurou.
A última tentativa de suicídio foi mais drástica. Jean pegou todos os seus medicamentos e os tomou junto com um litro de cachaça. Por sorte, os filhos de Jean ligaram para o pai e quando ele não atendeu, foram à casa, onde o encontraram quase morto.
Jean foi socorrido pelo Samu e levado ao hospital Celso Ramos, em Florianópolis. Lá passou 8 dias em coma.
Um recomeço com coisas do passado
Os filhos de Jean são seus anjos. Além de o salvarem da morte, logo após o incidente, encontraram o Pró-Vida, para tentar dar ao pai um novo horizonte. “Quando eu vim pra cá eu tive uma dificuldade, porque eles (os filhos) são jovens (19 e 24 anos) e eu tenho uma empresa de gesso, aí eu não queria vir porque eu pensei que eles não iriam dar conta da empresa. Mas o mais velho falou: `Pai, pode ir que eu vou dar conta’. Eles estão tomando conta de tudo, todo final de semana eles chegam aqui: ‘Pai, entrou isso, saiu isso, paguei isso”.
“Às vezes fico o dia inteiro chorando e não quero ninguém perto de mim”
Mesmo querendo mudar e que o tratamento seja eficaz, Jean percebe que seus inimigos são aliados. “Mas tem vezes, aqui na clínica, que eu fico o dia inteiro no quarto, não quero sair por causa da maldita depressão. Às vezes fico o dia inteiro chorando e não quero ninguém perto de mim, tem dias que eu não quero almoçar, não quero jantar, não me dá fome. Fico aflito, aquela angústia, aquele aperto, palpitação e falta de fôlego”.
Apesar das dificuldades, o Pró-Vida o aproximou da mãe de seus filhos, que vem o ajudando a recolher os cacos do seu coração. “Ela vem me visitar, a gente conversa tudo numa boa. Meus filhos também estão tentando me apoiar para ver se a gente consegue reatar”.
Após sair da clínica, seus objetivos são claros. Jean quer se reconciliar com a esposa, retribuir o tanto que seus filhos fizeram por ele e, principalmente, vencer o vício do álcool. “Quando sair daqui eu quero ser outra pessoa. Não quero saber de álcool, não quero mais saber de boteco. Eu tomava um litro de cachaça, 10, 15 latinhas de cerveja, jogando sinuca e baralho. Isso me prejudicou muito”.
O menino Jefferson e seus traumas
Jefferson nasceu em Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, grande o bastante para as suas idas e vindas. Seu pai era alcoólatra, fato que segundo Jefferson não influenciou o seu vício, e sua mãe era empregada domiciliar. Mesmo não sendo rico, Jefferson diz não ter o que reclamar de sua infância, pois sua mãe trabalhava numa casa de família tradicional da época. Ele vivia constantemente na residência dos patrões de sua mãe.
O menino estudou em escola particular e assim teve uma infância com o melhor que uma criança daquela época poderia ter. Sobrava conforto para Jefferson, mas lhe faltava empatia e carinho. “Minha mãe é uma pessoa muito dura, muito fria”, conta aquele que um dia fora o menino assustado. Segundo Jefferson o sonho de sua mãe era ter a menina, que morreu em seu ventre com oito meses de gestação. A próxima gravidez reservou um menino, contra o desejo da mãe enlutada.
A mãe do pequeno Jefinho era do interior, “da roça”, como diz seu filho, e deu ao menino o tipo de educação que recebeu. Os castigos eram os mais variados, desde ficar de joelhos na pipoca rezando “Pai Nosso” e “Ave Maria”, passando por golpes com varinhas e por fim chegando a uma surra com a fivela da cinta, acertando golpes em seu rosto. A humilhação não parava por aí. “Na escola eu usava shortinho. Esses shorts jeans eram abertos nas laterais. Minha mãe fazia questão que eu usasse eles depois das surras, para mostrar para todos as minhas pernas cortadas”.
“Esses shorts eram abertos nas laterais. Minha mãe fazia qeustão que eu usasse eles depois das surras, para mostrar para todos as minhas pernas cortadas”
Apesar de toda violência Jefferson não culpa sua mãe pela vida que tomou e não a culpa por suas ações. “Eu tenho dó dela por isso”.
O pai e os filhos, a pedra e o caminho
Os pais de Jefferson são separados e ele seguiu os mesmos passos. Com um relacionamento cercado de brigas e discussões, a sua companheira quis terminar. Mal sabia ele que esse fim triste seria apenas o começo de todo o seu inferno interior.
Com a separação, Jefferson saiu de casa e foi morar numa pensão. Sem nunca ter problemas com álcool e drogas, teve contato direto com a pedra que o perseguiria durante toda sua vida. “O meu problema sempre foi o crack. Em uma oportunidade, um camarada trouxe a substância e eu acabei experimentando. Mas inicialmente eu achei que jamais ia me viciar, porque eu não ia atrás da droga”.
“(…) Jamais ia me viciar”
Nunca iria se viciar, ledo engano. Sem nunca gostar de maconha, que o deixava muito retardado, cocaína: nojento por deixar o nariz escorrendo; e cigarro: péssimo cheiro que só servia para acender a lata. Foi o crack que o afastou do seu maior orgulho, seus filhos.
O pai de Gabriel e Eduardo viu seus filhos trilharem um caminho de sucesso. O mais velho, Gabriel, faz faculdade de Engenharia Civil e estuda o dia todo, o mais novo, Eduardo, faz faculdade de Engenharia de Sistemas e trabalha em um banco. Jefferson acabou se afastando dos meninos por causa de sua segunda companheira, que tinha ciúme na mãe deles. Ele cometeu o erro de ficar do lado de sua nova namorada. “Eu pensava que os filhos iam crescer, criar asas e voar. Companheira é companheira. Para mim, a vida seria envelhecer ao lado dela, com dedicação, fidelidade e amor”.
Os filhos, “muito cabeças” segundo Jefferson, não ficaram ao lado do seu pai. Gabriel, não quer contato com seu genitor e Eduardo já deu um ultimato no pai, falando que não deixará de viver sua vida para viver a dele, que é preciso ter constância. “Ele fala que eu sou inteligente, que vê capacidade em mim para ser um gerente de um banco, algo assim, pois tenho muita facilidade em aprender. Mas do jeito que eu levo a vida não dá para ele”.
“Mas do jeito que eu levo a vida não dá para ele”
Companheira n° 2: “A menina tipo Charlie Brown JR”
Jefferson encontrou sua segunda “parceira” num bar, onde trabalhava como segurança. A menina era viciada em maconha. A pedra e a erva estavam no mesmo trilho, um caminho que poderia ser verde e se tornou cinzento. O vício da maconha dela se somou com o vício em crack dele, o estrago foi encomendado. “Ela era uma menina muito bonita, muito linda mesmo, rockeira tipo Charlie Brown, mas ela sumia. Ela começou a fumar crack com maconha na garrafa. Começou sair com outro cara, e eu não dava conta de manter o vício dela”.
O relacionamento destrutivo levou a decisões duras. O pai de Jefferson viu o filho se afundando na droga e ofereceu ajuda para o internamento. Ele teve a consciência de aceitar a mão que lhe fora estendida. Sua namorada teve a oportunidade de ir junto, mas não aceitou. Já na clínica, Jefferson passou por altos e baixos. “A primeira semana foi uma maravilha, mas depois a saudade bateu. Ela foi me consumindo, e eu não tinha a mesma mentalidade que eu tenho hoje, então eu não aguentei a pressão e mandei uma carta para ela. Meu pai recebeu a resposta dela, estava muito ansioso e pedi para que ele lesse para mim na hora. Ela disse que estava com outro cara e que ele pagou para abortar um filho que ela esperava de mim”.
“Ele pagou para abortar um filho que ela esperava de mim”
O relacionamento destrutivo levou a decisões duras. O pai de Jefferson viu o filho se afundando na droga e ofereceu ajuda para o internamento. Ele teve a consciência de aceitar a mão que lhe fora estendida. Sua namorada teve a oportunidade de ir junto, mas não aceitou. Já na clínica, Jefferson passou por altos e baixos. “A primeira semana foi uma maravilha, mas depois a saudade bateu. Ela foi me consumindo, e eu não tinha a mesma mentalidade que eu tenho hoje, então eu não aguentei a pressão e mandei uma carta para ela. Meu pai recebeu a resposta dela, estava muito ansioso e pedi para que ele lesse para mim na hora. Ela disse que estava com outro cara e que ele pagou para abortar um filho que ela esperava de mim”.
Jefferson perdeu o chão, saiu da clínica e se mudou para uma casa de apoio em Itajaí. Ele tinha dois empregos como segurança para manter a mente ocupada. Mas não permaneceu muito tempo ali, pois seu coração estava em Joinville, com sua família.
Companheira n° 3: “Aculmuladora compulsiva”
De volta a Capital das Flores, Jefferson conheceu sua terceira companheira enquanto trabalhava num supermercado. Foi ela quem o fez sentir-se amado. “Foi a pessoa que, num momento em que eu precisava, me abraçou”
Durante o relacionamento, o casal acabou engravidando, então nasceu sua filha. “Eu não queria, cara! Mas aí veio a Jasmine, uma menina muito linda, loirinha, tem olho verde e tudo”.
Mas Jefferson não estava feliz com sua companheira, que sofria problemas psicológicos. A, agora, ex-mulher de Jefferson, é acumuladora compulsiva, fato que a fez perder a guarda da criança, que vive com uma família acolhedora. Antes disso, quando trabalhava como segurança de um bailão, o homem apaixonado encontrou mais um amor que o fez reencontrar a pedra da sua vida.
Companheira n° 4: “Amor mafioso, fácil de entrar, difícil de sair”
Jefferson refez a vida ao lado dessa nova parceira. “Eu era muito dedicado, trabalhava, não escondia nada dela, a gente sempre tinha dinheiro, sabe, levava ela em vários lugares bacanas. Eu sempre fui um cara centrado e com os pés no chão”.
Ele era fiel a sua esposa, cuidava do dinheiro da família e tinha uma boa condição de vida. Trabalhava num restaurante durante o dia e a noite numa hamburgueria, ambas como motoboy, para garantir o sustento da casa. Enquanto isso, sua esposa cuidava da mãe que debilitada. A mulher tinha três filhos, dois homens e um menino, que tinham um relacionamento difícil com o padrasto.
Porém, a pedra sempre esteve à espreita e num momento de fraqueza ela estava lá para fazê-lo cair. A esposa de Jefferson saiu para uma viagem e não retornava as ligações do marido, que ficou tenso. Quando estava trabalhando como motoboy, ele reencontrou a sua segunda companheira. O encontro inflamou seus sentimentos e o fez usar o crack.
Jefferson perdeu o chão, saiu da clínica e se mudou para uma casa de apoio em Itajaí. Ele tinha dois empregos como segurança para manter a mente ocupada. Mas não permaneceu muito tempo ali, pois seu coração estava em Joinville, com sua família.
Sua esposa atual não era apenas uma mulher do lar que cuidava de sua mãe com afinco, ela também era assaltante. Os assaltos não eram um entrave para Jefferson, o problema foi saber que o seu coração não era o único que sua companheira usava e que ele era traído constantemente. Abalado com a descoberta, ele terminou o relacionamento.
Após a separação, Jefferson recaiu e teve que se internar num centro terapêutico em Joinville. “Eu passei 18 dias, nos 18 dias eu passei bem mal, daí eu não aguentei ficar na casa. Quando saí pude fazer ligações, eu liguei para casa do meu pai e liguei para ela. Ela falou que tinha perdido o carro que eu passei pra ela, que o carro foi apreendido”.
Jeferson conseguiu ir atrás e recuperar o veículo, mas alguns dias depois, sua ex-companheira foi presa. A mulher tinha participado de um assalto com o mesmo carro que fora apreendido. Como ela estava sendo investigada, foi presa alguns dias depois.
Uma nova jornada Pró-Vida
A pedra foi amarrada no pescoço de Jefferson e ele foi lançado ao mar para afundar. Após o término e a prisão de sua ex- esposa, ele ficou dois meses na casa de um traficante usando drogas. Seu carro, aquele que serviu para o crime, o ajudou a evitar outro, aquele que o levaria à morte pelo não pagamento de dívidas.
Seu pai não queria vê-lo e o pensamento suicida era recorrente. Jefferson saiu da casa do traficante e ficou na rua pensando e esperando que a pedra findasse o seu caminho. Mas como diz o ditado: água mole, pedra dura, tanto bate até que fura. A insistência de Jefferson deu fruto e seu pai resolveu lhe dar uma última chance: a chance pró vida.
“Eu quero que meus filhos se orgulhem de mim. Eu sei que o tempo não vai voltar, mas posso correr atrás dele”
O pai de Jefferson o trouxe pra o Centro de Tratamento Alternativo Pró-Vida, em Itajaí, local de sua primeira internação. Ele só pôde aceitar seu destino. Na comunidade terapêutica, Jefferson foi percebendo que a pedra do seu caminho era pequena se comparada com a cruz que o seu Salvador carregou. “Tu conhece o amor de Jesus Cristo na tua vida. Através das escrituras, através dos devocionais, e percebe todo esse amor”.
Muito grato ao Tio Luis, Jefferson vê um futuro esperançoso, com menos pedras atrapalhando seu caminho. “Quando eu sair daqui, quando fechar os meus seis meses, eu vou sair sabendo o que fazer, sabendo que direção tomar. Com 42 anos, eu só dei cabeçada e não quero continuar assim. Eu quero que um dia os meus filhos se orgulhem de mim. Eu sei que o tempo não vai voltar, mas posso correr atrás dele”.
Pouco a pouco
O menino Rafael não teve problemas quando criança. “Minha infância foi boa, como toda criança, estudei, completei o segundo grau, foi normal”. Ele mantém contato com os pais, que são separados. O pai vive em Itajaí e a mãe em Chapecó.
O homem, que trabalha como soldador naval, teve seu primeiro contato com substâncias ilícitas aos 24 anos de idade, na época, só bebia e fumava cigarro. “Eu casei com uma menina que fumava maconha, e eu comecei também. Íamos para muita festa eletrônica”.
Logo, a maconha começou a não ser o suficiente para preencher seu vazio, então a cocaína entrou no seu caminho. Porém, o pó sujou a vida de Rafael, já sua esposa não o acompanhou no vício, consumindo apenas maconha e em drogas sintéticas. Com o tempo, eles acabaram terminando.
A cocaína fez um estrago grande em sua vida, mas o crack foi o responsável por destruir o pouco que ainda lhe restava. “Eu comecei a usar crack comendo, quando acabava cocaína eu botava na boca para amortecer. Aí um dia caí na besteira de experimentar na lata. Não parei de usar nenhum dia. Dei fim em tudo, em carro, em moto, tudo que eu tinha”.
A cocaína fez um estrago grande em sua vida, mas o crack foi o responsável por destruir o pouco que ainda lhe restava. “Eu comecei a usar crack comendo, quando acabava cocaína eu botava na boca para amortecer. Aí um dia caí na besteira de experimentar na lata. Não parei de usar nenhum dia. Dei fim em tudo, em carro, em moto, tudo que eu tinha”.
“Não parei de usar nenhum dia. Dei fim em tudo, em carro, moto, tudo o que eu tinha”
Quando Rafael diz que “perdeu tudo”, ele não está sendo alegórico. Ele morava numa kitnet, seu pai deu uma para cada um dos filhos. Como Rafael estava usando crack todos os dias, seu pai impôs uma medida restritiva de 1 km, impossibilitando ele de entrar em sua casa. “Passei 20 dias morando na rua. Sem saber né? Porque eu nunca tinha morado, não sabia a malandragem, tinha vergonha de pedir”.
Rafael só não ficou completamente desassistido por causa do senso materno de sua mãe. “Todo dia ela me mandava o dinheiro. Ela pagava por pix: o café, o almoço, e a janta. Ela mandava o dinheiro, mesmo sabendo que era para droga. Mãe é mãe”.
Várias vezes
Mesmo quando era apenas usuário de cocaína, Rafael sempre buscou ajuda. Já foram cerca de 12 internações, ficando no máximo um mês em cada uma delas. Nestas clínicas, ele observou diversas realidades. Em algumas internações, Rafael cuidava de animais, como bois, porcos e cabras, e em outras ele tinha uma jornada de trabalho começando às 8h e saindo às 17h30min. “Tem clínica que tu cava buraco para depois tapar, só para dizer que está fazendo alguma coisa”.
Várias internações mascaram um tratamento. Rafael conta que em certas clínicas, após 20 dias de internação, os usuários são colocados na rua para vender de porta em porta. “Envolve dinheiro, né? Querendo ou não, envolve muito dinheiro. De certo eles devem receber”.
A questão da Vida
Assim como em todas as suas internações, Rafael decidiu por si só dar um basta nas drogas, mas desta vez o local escolhido foi diferente. “É até engraçado porque é tão pertinho da minha casa, eu moro a quatro minutos daqui (Pró-Vida). Eu sempre quis ir para longe, fui pra Blumenau, fui para Curitiba, Ilhota… E aqui eu me senti bem, porque o recomeço não tá no lugar físico, tá aqui dentro (aponta para a cabeça). E esse tratamento é com o espírito e com a alma”.
Rafael tinha um plano de ficar apenas 100 dias no Pró-Vida, mas o tratamento especial que recebeu o fez mudar de ideia. “Eu falei para o Luis, que eu vou me sentir envergonhado se eu não ficar os 6 meses, pela pessoa dele, porque eu vejo o que ele faz aqui. É, a pessoinha que é o Luis, só de estar do lado dele você se sente bem”.
Questionado sobre seus sonhos no futuro, sobre continuar com seu trabalho, comprar uma casa ou ir ver a sua mãe, Rafael afirma que nada disso lhe interessa. “O meu sonho esse ano é parar de usar droga. Eu não quero mais voltar para esse vício, que não é vida para mim, não dá. Eu sou muito compulsivo, e se uso droga é todo dia, todo dia, todo dia…”.
“A pessoinha, que é o Luis, só de estar do lado dele, você se sente bem”
Luis Augusto é diretor do Centro de Tratamento Alternativo Pró Vida, onde se dedica há 29 anos. Formado em Educação Física, pela FUMBA, ainda jovem teve a oportunidade de fazer parte na construção da entidade e, posteriormente, assumir o projeto que já ajudou milhares de dependentes químicos.
Nascido no interior do Rio Grande do Sul, mais precisamente, em Rosário do Sul, Luis cresceu em uma família humilde. O pai metalúrgico e a mãe telefonista sustentavam, ele, e os outros quatro irmãos. Por ser o segundo filho, para ajudar os pais, resolveu trabalhar desde seus treze anos entregando telegrama pela cidade em que residia. Aos dezesseis anos trabalhou de ótico e aos 18 entrou para o exército.
Muito disciplinado e praticante de esportes, Luis se destacou no exército chegando à patente de Cabo E.v e passando na prova para Sargento. Ao completar 21 anos, resolveu seguir seu sonho. Passou no vestibular para Educação Física e com o dinheiro que juntou, conseguiu iniciar a faculdade na cidade próxima de onde nasceu, Bagé (RS).
Para continuar pagando seus estudos, o então educador físico trabalhava de ajudante em academias da cidade, conseguindo, assim, alugar um apartamento de dois quartos com outros 10 colegas. “Só não havia confusão, porque eu nunca me importei de fazer as coisas. Sempre pensei, ‘é para mim que vou fazer. Se vou lavar a louça, vou usar a louça”.
Mudança de direção
Formou-se em Educação Física, faculdade em que conheceu sua ex-esposa. Com a preocupação de sustentar sua filha, se dedicou ao ensino de natação onde se destacou em sua profissão. Por ser um bom jogador de futebol, foi chamado para treinar o time de base da Arábia Saudita, mas pelas inseguranças que passaria, não pôde aceitar. Então, ao fazer um levantamento sobre o melhor Estado e cidade para educadores físicos, Luis e sua família se mudaram para Chapecó (SC).
Chamado para trabalhar na primeira academia de natação da cidade, o professor ficou cada vez mais conhecido e se dedicou também em aulas particulares para a elite do município.
Já com sua segunda filha, Luis começou a frequentar a igreja em que um dos alunos pastoreava. Ao passar do tempo, os laços entre o pastor e Luis, e suas famílias, foram se estreitando.
O pastor tinha o desejo de construir uma comunidade terapêutica, mas Luis, estabelecido e com seu projeto de vida já formado, negou a proposta. Foi fazendo trabalho voluntário na Casa de Recuperação Nova Esperança (CRENVE), que o professor acabou se apaixonando pela causa. “O Pró-Vida começou lá em Chapecó. Eu já comecei a gostar, era uma casa com 6/8 pessoas. Eu ia fazer gincana, passava os dias lá, eu ia junto com a mãe (esposa), nossas famílias se encontravam. Então eu fui me apaixonando pelo ministério.”
Novamente convidado para ajudar a “tocar” a comunidade na cidade, aceitou. O projeto foi aprovado, mas o que Luis não imaginava é que não seria para Chapecó e, sim, para Itajaí. Sem ter dúvidas de sua escolha, resolveu apostar.
“Eu disse: sim. (…) Não sabia explicas o porquê. Eu não tinha dúvidas no meu coração.”
Inicialmente, a clínica seria para dependentes químicos soropositivos. Ao ser discutido com o Governo Federal, como havia um boom do HIV, surgiu a ideia de fazer a instituição voltada aos filhos dos dependentes químicos. Mas questionaram: “A gente vai cuidar das crianças. E os adultos vão ficar na rua usando drogas?” Com este pensamento, voltaram a ideia principal. “Eu disse: sim. E o pessoal até me chamou de louco. Mas era de Deus. Estava apaixonado pelo ministério e não sabia nem explicar o porquê. Eu não tinha dúvidas no meu coração.”
Deixando a mulher e sua segunda filha, Amanda, Luis veio para Itajaí com a filha mais velha. Ele e Natália moravam de favor na casa da família do pastor que iniciou o projeto. Logo após, a igreja a qual o projeto pertencia, cedeu uma casa para que sua família pudesse se estabelecer.
Primeiramente, Luis Augusto trabalhou como monitor. Fazia plantões ficando semanas na “casa”. Passados dois anos, foi eleito o diretor e já com recursos para contratar, o projeto foi aumentando.
Há 18 anos à frente da instituição, agora com três filhas, Luis reconhece que sem a família o apoiando, não conseguiria. “Se os filhos não se apaixonam pela profissão dos pais não dá certo. Graças a Deus que as minhas sempre me deram suporte e estrutura para continuar. O ministério desenvolveu esse amor, não só em mim, mas em minhas filhas também”
“O ministério desenvolveu esse amor, não só em mim, mas em minhas filhas também”
O Centro de Tratamento Alternativo Pró Vida completa, em fevereiro, trinta anos. A comunidade terapêutica acolhe não apenas portadores de HIV, mas qualquer pessoa do sexo masculino. Estão internos, hoje, 38 homens. O projeto trabalha não apenas com os usuários, mas com suas famílias para que a reintegração ao lar seja um auxílio e apoio.
A ONG já ajudou muitas vidas ao longo desses trinta anos. Os desafios sempre foram grandes e agora são cada vez maiores. Com a pandemia, a dificuldade financeira aumentou, assim como a dependência química. Para a arrecadação de verba, o Pró Vida faz almoços beneficentes e montou um bazar na própria instituição.
Enquanto os usuários forem negligenciados, Luis afirma que não desistirá desta luta. Não são apenas homens recuperados, são famílias restauradas. “É pelos restaurados que voltaram à sociedade, constituem família e levam uma vida saudável que tudo isso passa a valer à pena. Se não fosse pelos Xandão´s , Guarinha´s, Tolentino´s, Celsinho´s, (nomes de alguns restaurados, se referindo à outros que também se recuperaram) tudo isso teria sido em vão.”
“É pelos restaurados que voltaram à sociedade, constituem família e lavam uma vida saudável que tudo isso passa a valer à pena.”
Produção textual por
Deivid Gustavo
Gráficos e design por
Felipe Oliveira e Luisa Simões.
Fotografia por
Deivid Gustavo, Felipe Oliveira, Lucas Koerich e Luisa Simões.
A reportagem sobre o projeto foi desenvolvida ao longo de junho e julho de 2022. Envolveu entrevistas com todos os residentes da época, os voluntários, e o responsável, no sábado, dia 4 de junho.