Arthur acordou com o alarme de sua mãe tocando. O dia nem amanheceu e ela já está se arrumando para chegar a tempo no trabalho. Ouviu mais uma movimentação na casa e deduziu que era o seu irmão se preparando para sair à procura de emprego. Ele sempre escutou de seus professores que estudar e brincar são as únicas obrigações de uma criança. Mas ele não acreditava neles. Afinal, o seu irmão teve que abdicar disso para conseguir trazer uma renda a mais para dentro de casa.
Como não conseguiu voltar a dormir, foi tomar café da manhã com eles, mesmo ao som dos protestos da matriarca. Recebeu o rotineiro beijo de sua mãe e fez um toque com o seu irmão, antes que eles saíssem para mais um dia de luta. Na pequena sala, esperava seu amigo enquanto criava diálogos e situações em que ele era o super-herói. Três batidas na porta foram ouvidas, esse era o sinal que estava na hora de ir para escola.
No caminho, mais amigos foram se juntando àquela dupla. Enquanto alguns do grupo riam, conversavam e discutiam, Arthur apenas observava. Aos sete anos, não tinha noção do mundo, mas para ele aquele lugar sempre seria o mais bonito que já viu. As ruas eram estreitas e íngremes, as casas pequenas e amontoadas, as pessoas muitas vezes estavam com medo ou esboçavam um sorriso malicioso. Ele, porém, via as ruas como caminhos coloridos, as casas como porto seguros e as pessoas como conhecidos que sempre o cumprimentavam simpaticamente.
Algo estava diferente naquele dia. Nem o som das risadas infantis era capaz de aliviar o clima pesado que se instaurou no local. As poucas pessoas que estavam na rua, aparentavam pavor. Um pouco longe, sirenes das viaturas policiais eram ouvidas, mas nada fora do comum. Por um momento, Arthur se sentiu em uma das suas histórias de super-herói. Homem armados estavam escondidos nos becos ou andavam atentos no meio da rua. Com sua visão periférica, percebeu uma movimentação e um corpo foi ao chão. Foi ali que o caos começou.
A brincadeira de esconde-esconde, uma das suas favoritas, não o ajudou naquele momento. Ele não conseguiu se esconder, muito menos sair correndo como faria no pega-pega. Estava estático no lugar. Conseguia ouvir alguns barulhos, como se fossem seus amigos brincando de estalinho, só que o som era maior. E seus amigos não estavam mais do seu lado.
Enquanto observava algumas pessoas correrem, gritarem e se esconderem, como se todos resolvessem participar de uma grande brincadeira, ele sentiu sua barriga arder. Depois a perna. Por último no seu peito e, assim, seu corpo foi de encontro ao chão. Arthur, naquele momento, se juntava a João Pedro, Ágatha, Ítalo Augusto, Maria Alice, João Vitor e a tantas outras crianças mortas por balas perdidas.
O choro e o grito desesperado de uma mãe pedem por justiça, mas como consegui-la se não possui as respostas das perguntas fundamentais? De onde veio o tiro fatal que levou seu menino? Veio da milícia? Da polícia? Dos traficantes? Já não importa mais. Sua morte foi mais uma baixa para mais um tiroteio que aquela comunidade presenciou.
Arthur estirado no chão, envolto em uma poça de sangue, se tornou para mídia mais uma notícia, para a polícia mais uma estatística e para a comunidade mais uma criança levada por disputa de território. A mãe e o irmão, devastados com a perda, buscarão forças para continuar suas rotinas, mas sempre irão esperar ouvir as risadas de quem um dia foi a alegria da casa.
Ilustração: Denis R. Balduino




