Tanto pacientes quanto profissionais que trabalham com a depressão tiveram de se adaptar a um novo sistema, migrando do presencial para o online.
Ao longo dos anos a depressão tomou um espaço expressivo no mundo. De acordo com o último levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta 322 milhões de pessoas. Um dos meios de combater a depressão é através de tratamentos psicológicos individuais ou em grupo, realizados por profissionais e terapeutas. Contudo, o tratamento desta doença que tanto precisa de atenção precisou de algumas mudanças durante a pandemia. O atendimento online foi uma alternativa para que pessoas que sofrem deste mal não fiquem desassistidas.
É o caso de um jovem que preferiu não se identificar. O garoto conta que a transição entre o presencial e online foi tranquila por conta de sua afinidade com os meios tecnológicos. “Sinto um pouco de diferença sim, me sinto um pouco mais aberto no presencial, e acho que a maior dificuldade no online é a questão da conexão”, relatou. Outra paciente de depressão que optou por não ser identificada relata que, no começo, se adaptar ao online foi um pouco conturbado. Porém, com o passar do tempo, foi se adaptando. Segundo ela, o atendimento remoto não influencia na sua vontade de se abrir e se sentir à vontade.
A depressão, que é considerada pela OMS o mal do século, requer o envolvimento de muitos, desde familiares e pessoas íntimas como rede de apoio até a necessidade do trabalho de uma equipe multidisciplinar com acompanhamento de médico psiquiatra e psicólogo. Segundo o médico psiquiatra Dr. Rafael Franco, dependendo do quão avançado estejam os sintomas da depressão, o atendimento online se torna uma boa alternativa. De acordo com o doutor, pessoas que sofrem deste mal comumente sentem a perda de vontade e energia para realizar atividades simples como sair de casa.
Ao tratar a depressão, é necessário extrema delicadeza e muito profissionalismo. Por mais que houvesse a opção do atendimento remoto, houve pacientes que optaram por manter a presencialidade. Foi o que aconteceu com a psicóloga Rafaela da Cruz. Mesmo que tivesse disponibilizado a opção do atendimento online, seus pacientes preferiram continuar no presencial. Para Rafaela, nada pode substituir o contato ao vivo para poder analisar o comportamento do paciente. “A depressão requer atendimento de mais de um profissional. A terapia é essencial pois esse diagnóstico é bem debilitante”, afirma a psicóloga.
Caroline Corrêa, psicóloga e psicopedagoga, acredita que o momento pós pandemia trará maior acesso da comunidade para com a psicologia por conta dos atendimentos onlines. Esse meio tecnológico, que já é tão enraizado na vida das pessoas, pode ser um fator importante para levar o acesso aos atendimentos psicoterapêuticos. Para a psicóloga Janaina Baptista esse “novo normal” dos atendimentos onlines permanecerá. “Acho que esse novo modelo veio para ficar, talvez não tão intenso quanto antes, mas de uma maneira mista, alguns presenciais e alguns onlines, ele possibilita isso”, declarou.
Um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que a mudança abrupta causada na vida e no trabalho das pessoas veio acompanhada de impactos na saúde mental. Segundo o estudo, os casos de depressão aumentaram em 90% e o número de pessoas que relatam sintomas da doença mais que dobrou entre os meses de março e abril deste ano. De acordo com a psicóloga Caroline Corrêa, o isolamento social, o medo de contaminação e todas as consequências que a pandemia trouxe foram fortes agravantes para o adoecimento mental de muitas pessoas.
A pandemia trouxe consigo inúmeras modificações no dia a dia. Alterando a maneira de viver e conviver. Os atendimentos também tiveram de se adaptar e a eficácia do modelo online varia de pessoa para a pessoas. Para a psicóloga Daniela Flores a questão de eficácia depende do paciente. “Não tem a ver com o diagnóstico em si, tem a ver com o paciente e com a individualidade de cada um”, afirmou ela.
Contudo, por mais que haja a alternativa à distância, a presencialidade dos acompanhamentos faz falta. “Justamente pela minha especialidade trabalhar em cima do vínculo entre médico, paciente e seus familiares, percebi que os resultados não são os mesmos da prática diária presencial”, contou o Dr. Rafael Franco, mostrando a falta que faz nos seus atendimentos a presencialidade.