Do Malte
ao Barril

Por: Ana Júlia Kamchen, Ana Luiza Moreira, Luiza Eugenia Formento e Maria Eduarda Macedo. 

São momentos dourados do malte ao barril que fazem do grão, tão semelhante ao trigo ou arroz, parte de uma cultura artesanal centenária.

Como um dos decretos alimentares mais antigos da Europa, no dia 23 de Abril de 1516, a “Reinheitsgebot” foi promulgada pelo Duque Guilherme IV da Baviera. Em português, a “Lei de Pureza da Cerveja” instituiu que a cerveja, por sua vez, deveria ser composta apenas por água, malte de cevada e lúpulo.

Mais de 500 anos depois, a cultura europeia herdada por imigrantes se conserva na região do Vale Europeu, em Santa Catarina.

 



01.

Um gosto amargo, um gole seco. Essa foi a primeira impressão dos catarinenses com a tradicional cerveja artesanal. E dizem que a primeira impressão é a que fica, mas nessa trajetória, o ditado popular perdeu. Com a influência alemã por todo o estado, e predominância no Vale Europeu, a busca por degustar uma boa cerveja era algo que faltava em seu cotidiano. Apenas em 1858, a primeira fábrica cervejeira foi criada, Schossland & Hosang, fundada por um imigrante alemão. A fábrica localizada em Blumenau ficou aberta até 1923. Hoje, a cidade conta com inúmeras cervejarias, além de festas tradicionais, como a Oktoberfest, que valorizam os traços da cultura alemã.

Já em 1995, Brunhard Borck decidiu que abriria a sua fábrica de cervejas artesanais no Vale Europeu, para dar continuidade à tradição da região. Mesmo sem conhecer nada sobre o assunto, foi para a Hungria em Outubro de 1995 visitar as micros cervejarias. Lá, o mais novo empresário no ramo das cervejarias comprou sua fábrica por 125 mil dólares – aproximadamente 105 mil reais na época. 

Em 1996, um contêiner com 15 tanques e uma cozinha completa chegou em Timbó, mesmo sem um local fixo para posicioná-los. Borck ainda havia contratado, por seis meses, um cervejeiro húngaro para ensinar todo o processo. Sem ele saber húngaro, e sem o cervejeiro conhecer portugês, o tempo juntos foi um verdadeiro desafio. As primeiras cervejas experimentadas pelos moradores da região não tiveram sucesso, elas eram diferente de tudo que os catarinenses conheciam. Então, a nova cervejaria Borck teve que mudar o foco de sua produção, e por alguns anos, tiveram que focar na tradicional Pilsen. 

Diferente da cervejaria familiar, a Schornstein foi fundada em 2006 por um grupo de empresários na cidade mais alemã do Brasil, Pomerode. Seguindo a Lei da Pureza, a cervejaria não é micro, muito pelo contrário, a exportação para grandes estados, como São Paulo, é frequente no dia a dia da fábrica. 

“Só conhecia ela na garrafa e no copo”



02.

Em Pomerode, a cultura alemã é preservada em cada detalhe. As escolas mantêm as aulas de alemão, a arquitetura permanece característica e a gastronomia cresce sem perder as raízes. Para decidir o nome da cervejaria localizada no centro da cidade, em um prédio tombado pelo patrimônio histórico e acompanhado de uma chaminé de 30 metros de altura, não foi diferente. Schornstein, em alemão, significa chaminé. A ideia dos administradores foi deixar os moradores locais sugerirem o nome, pintando a parede frontal da obra com tinta preta e escrevendo em laranja “….? Bier. 06/06/2006”, a data de inauguração.

Quem constatou a importância dos milhares de tijolos maciços para a história do empreendimento foi um professor de história conhecido de um dos sócios envolvidos. “Estávamos bastante inclinados a colocar o nada sugestivo nome de POMERNBIER. Certo dia, esse professor parou defronte à obra e ficou olhando, encontrou um dos sócios e disse: ‘Vocês estão procurando um nome? Está aí o nome’, e apontou para a chaminé”, explica Gilmar Sprung, sócio fundador da cervejaria. A partir desse momento, a chaminé nunca deixou de fazer parte dos logos e da história da Schornstein.

 

Para a família timboense de quatro integrantes, uma das poucas certezas era que o nome da cervejaria deveria ser o sobrenome do quarteto: Borck. Quando criança, atleta de ginástica artística, Michele Borck (36) já escutava de outras pessoas que possuía nome de cerveja, especialmente por a Kaiser Bock fazer sucesso na época. Era uma cerveja de baixa fermentação e textura aguada, apesar do estilo ser geralmente encorpado, que em 2012 deixou de ser fabricada com regularidade. Seu Borck e a filha contam a história da cervejaria de forma intercalada, um relembrando detalhes preciosos da trajetória e complementando as informações do outro. Mesmo em idade avançada, ainda é ele quem resgata a maior parte das memórias durante nossa conversa de quase duas horas.

Michele cresceu acompanhando a mãe, Gladis, na cozinha do bar da cervejaria. Bar esse que ficou fechado por mais de 18 anos, reinaugurando recentemente, no dia 06 maio de 2022. Seu plano inicial não era seguir no ramo cervejeiro: “Eu tinha minha vida, iniciei administração, depois abandonei e fui fazer moda. Antes de me formar, em 2004, eu vim ajudar minha mãe na administração”, explica. Pouco mais de três anos depois, a mãe anunciou que pararia de trabalhar e caberia à Michele assumir a posição.

Atualmente, Michele administra a empresa juntamente com o pai e o irmão, Thiago, que é formado em engenharia química e coordena toda a produção interna da fábrica. “Ele não gosta de aparecer, tanto que eu tomei a frente, e deixei que a “cara” fosse a minha. Inclusive, eu nunca fiz cerveja, mas agora quero aprender”, relata a mãe de Gabriel.


03.

Diferente de seu filho, Brunhard Borck só participou da fabricação das cervejas muito no início. Neto de imigrantes alemães, ele gosta de dizer que nunca “botou a mão na massa de verdade”. A trajetória dos sacos de malte até às canecas de chopp envolve um processo controlado, composto por muitas etapas e “pontos certos”. Na Cervejaria Borck, do cozimento do malte até à chegada ao copo correm cerca de 20 a 25 dias.

A malteação, mosturação, filtragem, fervura e resfriamento foram explicadas, no tour particular que recebemos com seu Borck dentro da fábrica, num tom de voz tranquilo, uma postura envergonhada contrastando com os imponentes tanques abastecidos. Com os braços cruzados atrás das costas, ele respondia com rapidez os questionamentos de quatro estudantes que não entendiam do assunto de uma forma que só alguém com muita bagagem sabe fazer.

A seleção dos ingredientes, o preparo e armazenamento são partes de uma atividade onde cada minuto de cozimento, grau de temperatura e grama de cevada influenciam no sabor final, tornando-a mais amarga ou não, com aromas excêntricos e sabores criativos, ou não. Na Borck, são sete rótulos fixos no momento, mas pai e filha gostam de ter sempre algo novo para apresentar, como a Catarina Sour de edição comemorativa, feita para o dia das mães, que é o primeiro estilo de cerveja brasileiro a ser reconhecido internacionalmente.

“Além de todos esses estilos oficialmente registrados, ainda existe a criatividade de cada um de querer adicionar mais alguma coisa lá no meio. Hoje em dia, com o Google, é uma maravilha”, seu Borck comenta, com um sorriso tímido como ele, deixando claro que é receptivo às novas tecnologias e empolgado com as possibilidades. Avô participativo e carinhoso, ele também conversa com o neto Gabriel durante a entrevista, falando ainda mais baixinho do que seu normal. Entre as peripécias de avô e neto, até uma turbina éolica foi construída.

"O foco hoje em dia é levar a boa cerveja para todos os brasileiros"

Na Schornstein, a produção começou tranquila, atendendo ao bar da fábrica com regularidade e estabelecendo um local de diversão e referência na rua Hermann Weege, antes totalmente abandonada. O objetivo era abastecer o pub e eventuais estabelecimentos ou comemorações que fossem combinados. “No projeto inicial, a produção seria de 6 mil litros por mês, destinados aos bons alemães e simpatizantes da cultura em Pomerode”, afirma Gilmar.

Nem nos sonhos mais ambiciosos os empresários imaginaram que a demanda aumentaria tanto. Dez anos depois da inauguração, com uma reforma no bar em 2012, eles decidiram abrir a fábrica para comercialização dos rótulos engarrafados. Até o momento, era só produzido chop. O investimento trouxe bons resultados, o alcance acelerou e a necessidade de fortalecimento também. Em 2019, observando o mercado internacional sentir os primeiros impactos da pandemia de Covid-19, ocorre a fusão com outras duas cervejarias: a Leuven, de Piracicaba e a Seasons, em Porto Alegre. Forma-se assim a Companhia Brasileira de Cerveja Artesanal, que recentemente recebeu a Unicorn no grupo.

Para os sócios, foi uma forma de abraçar novos públicos e se fortalecer como grupo empresarial. A Schornstein tem um público mais velho e tradicional, a Leuven alcança os mais jovens, produzindo no chamado “estilo belga”, e a Seasons tem foco em produzir uma experiência “mais premium”, sem pasteurizar as cervejas e favorecendo seu gosto e aroma.



04.

A fábrica da Schornstein acorda antes do sol nascer. A caldeira, os tanques de infusão e filtragem iniciam os trabalhos às cinco horas da manhã. Cerca de 40 funcionários participam da sequência de processos que, ao fim do dia, geram em torno de 12 mil litros de cerveja artesanal.

Na Borck, sendo uma microcervejaria com processos bastante manuais, a produção é mais lenta. “Não importa se é um micro cervejaria ou se é uma Ambev da vida, o processo é o mesmo. O que produzimos aqui em um ano, só na fábrica de Lages eles levam sete minutos”, afirma o proprietário.

Comparando de forma mais clara, a produção anual da Cervejaria Borck fica em aproximadamente 180 mil litros por ano. Essa quantidade é produzida pela Schornstein em uma média de duas semanas e pela Ambev em sete minutos.

“No começo, a gente não precisava fazer muita força para vender. A gente não tinha vendedor externo, nada, a gente só atendia o telefone”, conta Michele. Segundo a família, em 2005 foi o ano em que mais venderam, o auge do faturamento. A necessidade de uma pessoa para ofertar os produtos da Borck é bastante recente, só em 2021 que contrataram um vendedor específico para estar na rua.

Segundo a equipe de visitação da Schornstein, 60% da produção nos tanques vai para barril, o resto vai para a garrafa ou algumas vão para latas. O objetivo da empresa atualmente é mudar um pouco a imagem de que cerveja artesanal é só para um público com grande condição financeira, buscando aproximar a população local que enxerga a cervejaria como “muito burguesa”.

A Cerveja com Alma. Assim é o slogan da Schornstein. Com cerca de 17 rótulos fixos, entre long-necks e garrafas, a produção é cerca de 80% no estilo Pilsen, uma cerveja suave com alta drinkability. Ou seja, você toma uma atrás da outra com facilidade. Em 2016, a Pilsen da empresa chegou a receber medalha de bronze na Copa Cervezas de América, realizada no Chile e competindo com outros mil rótulos inscritos.

Às sete horas da noite, as máquinas param de funcionar, os funcionários se preparam para ir embora e mais de dez mil litros de cerveja terminam de ser feitos. Um dia comum em que a ala preenchida com 22 tanques comportando até seis mil litros possuem leveduras fermentando o chamado mosto, líquido extraído do malte, junto ao lúpulo. 

/ ANO - BORCK
0 mil L
/ DIA - AMBEV
0 mil L
/ 15 DIAS - Schronstein
0 mil L



05.

As milhares de pessoas que passavam por Pomerode, Timbó e demais cidades da região norte de Santa Catarina, caracterizada pela tradicional herança europeia, deixaram de frequentar os estabelecimentos turísticos e festivais por quase dois anos. A pandemia do Covid-19 incentivou o consumo de cervejas artesanais, mas impediu que os bares e restaurantes funcionassem.

Enquanto todos estavam em casa, as ideias evoluíam: o isolamento social foi encerrado oficialmente em 2021, e desde então o turismo vem crescendo ainda mais na região e em todo o mundo. “Lazer” é o principal motivo da viagem para 83% das pessoas envolvidas na pesquisa da “Industry Insights”, do início de 2022, e Santa Catarina é considerado o 5º destino preferido dos brasileiros para viagens nacionais.

Dessa forma, as cervejarias se reinventaram por meio de novos empreendimentos, aproveitando a onda turística. Em maio deste ano, a Cervejaria Borck reinaugurou seu bar anexo à fábrica, fechado por mais de dez anos, com o intuito de voltar ao mercado com presença e fazer dele a maior fonte de capital para a empresa. Seguindo a intenção de reinvenção e a veia turística de Pomerode, a construção do parque temático “Alles Park”, no centro da cidade, promete ampliar ainda mais o número de visitantes da cidade e conta com o próprio café-bar da Schornstein, o “Schornstein Kneipe”. O Bar foi inaugurado na segunda- feira, dia 26 de julho, apenas duas semanas antes da inauguração do parque temático, no dia 08 de julho.

Festivais como a Oktoberfest, a Festa do Imigrante e a Festa Pomerana também não ocorreram nos últimos dois anos. Para as cervejarias da região, essa época do ano – outubro e janeiro, respectivamente – é considerada a de maiores expectativas e litros de chopp vendidos. A previsão para 2022 é receber sete cervejarias artesanais diferentes no típico festival de Blumenau, do dia 5 a 23 de outubro, entre marcas da região. A Festa do Imigrante, de Timbó, também ocorre nesse período, nos dois primeiros finais de semana do mês de outubro. Enquanto isso, a Festa Pomerana é aguardada pelos pomerodes e público turístico para janeiro de 2023.

A cultura brasileira de origem alemã em um verde vale cercado de montes. Assim, as cervejarias artesanais da região do vale europeu carregam histórias e são grandes responsáveis pela movimentação turística e econômica das cidades do norte catarinense, engarrafando muito mais do que um produto milenar para todo o país.





06.

O dia nublado e com temperatura amena, beirando 16º graus, trouxe Julio Calegalo de Curitiba, para a cidade mais alemã do Brasil. Atualmente, Pomerode vem crescendo e se destacando por carregar raízes culturais, musicais, e gastronômicas, fazendo com que turistas de vários lugares conheçam a cidade com pouco mais de 30 mil habitantes. O passeio pomerano é um dos destinos mais conhecidos dos visitantes, que através da rota do centro da cidade, desfrutam uma galeria a céu aberto, com opções de gastronomia, compras e lazer.

Julio e sua família andaram mais de 210 km para conhecer o destino, que segundo o distribuidor de alimentos, é muito comentado no Paraná. “Lá em Curitiba a gente ouve falar muito dessa região, e sua influência alemã, conhecer esse lugar é sentir-se na Europa”. Segundo dados da Secretaria de Turismo e Cultura da Prefeitura Municipal, a cidade recebe milhares de visitantes mensalmente. O número é ainda maior nos meses de fevereiro a abril, durante a Osterfest, a tradicional festa de Páscoa, conhecida por ter a maior árvore de ovos pintados do Brasil, que em 2022 registrou mais de 200 mil turistas.

E claro, que a cerveja não pode ficar de fora dessa rota, aliás, como falar do destino mais alemão do Brasil sem lembrar da bebida mais adorada da região. Júlio escolheu experimentar a tradicional Ipa da Schornstein.

"Estou bebendo a Ipa, da Schornstein, o aroma é sensacional!"


O portal Norte Wolfgang Weege chama a atenção por sua construção, que é uma réplica do Portal de Stettin, cidade alemã que foi a capital da Pomerânia entre 1720 e 1945. Outro charme do município são as construções em enxaimel, um modelo específico de arquitetura alemã. Para os amantes de cerveja, a visita na fábrica da cervejaria Schornstein, é uma atração imperdível, sendo possível conhecer todo processo de fabricação da bebida, os visitantes também podem aproveitar para conhecer o bar oficial Schornstein Kneipe, feito de tijolos com uma chaminé de 30 metros de altura.

Seja no aroma da cerveja, nos ovos de páscoa pendurados em uma árvore, ou nos telhados em enxaimel, em cada lugar de Pomerode percebe-se detalhes únicos, que contém um significado em especial. O Julio e outras centenas de milhares de pessoas levam lembranças da cultura mais germânica do Brasil.

Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias I, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.