Algumas pessoas estão desenvolvendo ansiedade e medo no retorno das atividades presenciais. No exterior, a síndrome foi batizada de Forto (Fear of returning to the office)
Depois de mais de um ano e meio de pandemia, várias cidades brasileiras estão retomando as atividades de forma presencial. A volta à rotina, porém, tem gerado medo, ansiedade e falta de ar entre quem não se sente preparado para voltar à antiga rotina, com deslocamento e convivência em ambientes fechados. No exterior, esse medo ganhou o nome de FORTO (“fear of returning to the office”).
Esse termo descreve o medo do retorno ao trabalho, mas não somente pelo medo de contrair o vírus da COVID-19, e sim o de socialização. A psicóloga com especialização em Psicanálise pela PUC-SP Fernanda de Santos Lourenção comenta que as pessoas estão agindo de forma mais reservada. “Muitas pessoas que eram extrovertidas passaram a agir de uma forma mais reservada. E quem já tinha uma característica mais introvertida, muitas vezes até “usou” da pandemia para evitar se socializar, mesmo seguindo todas as descrições de cuidado ao COVID-19”.
Com a necessidade do isolamento social, pessoas de todo o mundo foram afetadas, mas aparentemente os impactos foram maiores no Brasil. Segundo o estudo “Rastreando o Coronavírus”, uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos em 16 nações, o Brasil é o país que mais sofre com ansiedade por conta da pandemia. 53% dos brasileiros declararam que seu bem-estar mental piorou no último ano.
A estudante de Psicologia Maria Isabel Costa (20) destaca as mudanças de vida ocasionadas neste período. “Com a pandemia as pessoas acabaram se adaptando e se familiarizando com a ideia de trabalhar em home office, estudar on-line, e ficar em casa desenvolvendo novas maneiras e formas de realizar as tarefas que faziam antes de forma presencial. Isso gerou de certa forma um “casulo”, e as pessoas começaram a se desprender da ideia e necessidade de viver no meio das pessoas e de tumultos.”
A volta às atividades presenciais traz dificuldades de transição. As pessoas estão mais sensíveis a palavras, a tons de voz, contrariedades e estímulos, destaca Fernanda. “Em casa, conseguimos controlar melhor o ambiente. Com esse retorno temos que lidar com aspectos incontroláveis.”
A jovem Samara Fagundes (19), que trabalha em uma concessionária de veículos, comenta que já colocou a “culpa” na pandemia em diversos momentos para deixar de sair de casa. “No primeiro ano eu frequentava apenas o mercado, evitava todos os lugares possíveis, por medo da infecção e também para evitar o convívio com outras pessoas.”
Outro aspecto a ser levado em consideração são as maneiras de afeto que foram totalmente diferentes neste período. Chegar em um ambiente, abraçar, cumprimentar e beijar, por exemplo, foram extintos da nossa rotina por conta do distanciamento. O nosso cenário atual vem se encaminhando para esse retorno e a pergunta que fica no ar é de como será esse contato nos próximos meses e anos.
As pessoas se conectam de forma digital, através de chamadas de vídeo, conversas em aplicativos e redes sociais, frisa a estudante Maria Isabel. “Todos estamos ansiosos para ter por perto as pessoas que amamos e admiramos. Mas, esse período de reclusão serviu para selecionarmos melhor as pessoas que temos ao lado. Nem toda fuga é doentia e nem todo contato é saudável.”
O medo do retorno pode afetar até mesmo as tarefas do dia a dia. É necessário que as organizações tenham sensibilidade e paciência para lidar com essa transição, destaca a estudante de Psicologia Maria Isabel, que sugeriu algumas dicas que podem ajudar neste processo.
Proteção: nesse processo de retomada, mantenha o distanciamento e continue seguindo todos os protocolos de segurança.
Cuide de você: se coloque sempre como prioridade e cuide de você. Tire um tempo para praticar exercícios, fazer as coisas que gosta e se arrumar. Aliás, você precisa se sentir bem e com confiança.
Durma bem: dormir bem é passar o dia bem, por isso, o descanso é fundamental e uma boa noite de sono vai te ajudar.