Os problemas que levam ao analfabetismo no Brasil

Quando crianças, uma das maiores realizações que conquistamos é conseguir identificar as sílabas presentes nas placas que existem ao nosso redor. Esse é um pequeno passo para o início da alfabetização e é comemorado e incentivado com orgulho pelos pais, responsáveis e professores. Apesar dessa ser a realidade de muitos, 11,3 milhões de brasileiros acima de 15 anos não sabem ler e escrever

O analfabetismo é o reflexo da exclusão que havia no Brasil. A partir do momento da independência do Brasil e das eleições para o governo, um dos critérios para ter o direito ao voto era saber ler e escrever, ou seja, quem usufruia desse direito eram apenas os homens brancos e com uma renda consideravelmente alta. Apesar de todos terem conquistado o direito de escolher seus representantes, pessoas que não possuem o domínio da leitura e da escrita ainda são excluídas socialmente. A desigualdade educacional é uma consequência do cenário nacional de desigualdade social. 

A sociedade é grafocêntrica – centrada na escrita -, logo, as oportunidades de emprego e até mesmo a aceitação social cobram as habilidades de escrita e leitura dos indivíduos. Quem não se enquadra nesse quesito fica à margem da sociedade e, muitas vezes, sente vergonha da sua situação. Por isso, muitos não se sentem confortáveis em pedir ajuda ou de voltar às salas de aula.

Através do Censo Escolar 2020 – uma pesquisa feita pelo Inep -, é possível perceber uma queda no total de matrículas para o ensino básico. Foram 569 mil matrículas a menos do que em 2019. A evasão escolar é uma das maiores responsáveis pela taxa de analfabetismo no país. Muitas crianças não ingressam na escola ou a abandonam para trabalhar e cuidar das tarefas domésticas. Quando elas crescem, geralmente perdem o interesse em voltar a estudar. Outro problema é a infraestrutura das escolas para atender os jovens, sendo que muitos deles moram longe das instituições de ensino e enfrentam dificuldade na locomoção.

Além do analfabetismo absoluto, outro fantasma que assombra até mesmo alunos do ensino superior é o analfabetismo funcional. Nessa variação se enquadram as pessoas que, apesar de saberem ler e escrever, não conseguem interpretar textos simples ou fazer operações matemáticas mais complexas. Uma das suas causas é a qualidade e o investimento no ensino dos níveis básicos. 

O EJA e o Projovem são programas criados pelo governo para que quem abandonou a escola volte a estudar. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) também é conhecida como supletivo e é destinada para aqueles que abandonaram, não completaram ou não tiveram acesso à educação formal na idade designada. Já o Projovem é um programa destinado a jovens que moram em áreas urbanas e que têm entre 18 a 29 anos. Outro critério para se inscrever nessa modalidade é saber ler e escrever, mas não ter concluído o Ensino Fundamental.

Dados e Estatísticas

Confira abaixo alguns dados, estatísticas e números que vale a pena você prestar atenção.

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No século passado, a Unesco instituiu o dia 8 de setembro como o “Dia Internacional da Alfabetização” para incentivar o letramento pleno da população mundial. Mesmo com as melhorias ao acesso à escola nos últimos anos, ainda existem em todo o globo 750 milhões de jovens e adultos que não sabem ler. Se comparado à população dos países, esse número só é inferior à China e Índia, que possuem mais de 1 bilhão de habitantes.

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Segundo os dados da Pnad Educação (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) divulgados em 2020, 11 milhões de brasileiros não sabem ler e escrever. Esse número só é menor que a população da cidade de  São Paulo, que possui 12,2 milhões de habitantes.

Art. 205

Na Constituição Federal de 1988, o Art. 205 estabelece que: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

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O estudo “Retratos da Leitura no Brasil”, feito pelo Instituto Pró-Livro, em 2019, entrevistou 8.076 pessoas de 208 cidades e 50% delas declararam que não possuem o hábito de ler pois não conseguem compreender o conteúdo, apesar de serem tecnicamente alfabetizadas.

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O Censo Demográfico de 2019, feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), revelou que 69,5 milhões de adultos acima de 25 anos não completaram a educação básica. Esse número equivale a 51,2% da população adulta do país.

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Dados de 2018 do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostram que três em cada dez jovens e adultos entre 15 a 64 anos são considerados analfabetos funcionais. Isso equivale a 29% da população ou 38 milhões de brasileiros. Já são dez anos que esse percentual está estagnado.



O que dizem sobre o assunto?

Clique nos nomes que aparecem abaixo e descubra o que alguns pensadores, escritores e artistas já disseram sobre alfabetização, formação de leitores, a importância da leitura e da educação, entre outros assuntos relacionados.

“O ser humano é aquilo que a educação faz dele”

Immanuel Kant foi um filósofo prusso do século XVIII. Ele escreveu algumas das principais obras da modernidade filosófica e foi membro da Real Academia das Ciências de Berlim. Ele fundou a teoria do idealismo transcendental e o criticismo, no qual pretendia delimitar os limites do conhecimento humano. Suas obras falam principalmente sobre lógica, metafísica, teoria do conhecimento, ética e filosofia moral.

“Educai as crianças e não será preciso punir os homens”

Pitágoras foi um filósofo, matemático, astrônomo e músico grego pré-socrático. Nasceu na em, aproximadamente, 570 a.C. e viveu boa parte de sua vida na antiga região da Magna Grécia, onde fundou a sua escola filosófica. Ficou conhecido principalmente por unir seus conhecimentos filosóficos, astronômicos e geométricos em um conceito, formando a doutrina do pitagorismo.

“Vamos travar uma gloriosa luta contra o analfabetismo, a pobreza e o terrorismo. Vamos pegar nossos livros e nossas canetas, pois são as armas mais poderosas. Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução”

A paquistanesa Malala Yousafzai ficou conhecida mundialmente após ser baleada na cabeça por talibãs ao sair da escola em outubro de 2012, quando tinha 15 anos. Ela cresceu em uma região bastante conservadora do Paquistão e, em 2008, o líder talibã exigiu que as escolas interrompessem, por um mês, as aulas ofertadas às meninas. Malala sempre lutou contra esse sistema e a favor dos direitos das mulheres à educação.

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos”

O brasileiro Rubem Alves foi um importante psicanalista e educador do século XX. Escreveu diversos livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis. É um dos fundadores da Teologia da Libertação e um dos principais pedagogos da história do Brasil. Sempre foi um intelectual polivalente nos debates sociais nacionais.

“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”

Paulo Freire foi o educador brasileiro mais influente e reconhecido mundialmente. É conhecido pelo seu método de alfabetização de adultos e desenvolveu um pensamento pedagógico político. Ele considerava a conscientização do aluno como o maior objetivo da educação.

Entrevista: Marina Farias Martins

Marina Farias Martins se formou em 2009 na UFPel (Universidade Federal de Pelotas - RS) no curso de Letras, Licenciatura em Português/Inglês e respectivas literaturas. Em 2012, concluiu seu mestrado em Inglês sobre os estudos linguísticos e literários pela UFSC. Aos 36 anos, leciona Português e Inglês no Instituto Federal Catarinense campus São Francisco do Sul. Seu foco de estudo e pesquisa sempre foi voltado à literatura. Ela também atua no PROEJA - Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade Educação de Jovens e Adultos - do IFC no período da noite.

Qual o perfil dos alunos do EJA?

No EJA, a maioria é adulto ou são jovens adultos que saíram do Ensino Médio porque foram reprovando ou por várias razões, então eles têm no máximo 20 anos ou pessoas que retornaram mesmo para a escola e têm 50 anos ou por aí, mas normalmente já têm família e têm um trabalho.

Quais são as principais diferenças no planejamento de aula entre o Ensino Médio e EJA?

Eu gosto muito do EJA. Fui uma das professoras que ajudou a fazer o desenho do curso, que é um pouco diferenciado, pois tenta ser um pouco mais integrado e voltado para a questão da cidadania, da inserção deles na sociedade. Então, só para dar um exemplo, eles não têm Geografia e História separados, eles têm Cidadania e Direitos Humanos e ali abordam questões que estariam nessas outras disciplinas no caso. Também tem uma outra disciplina que é bem diferenciada, Questões Contemporâneas I e II, então a ideia é realmente abordar questões que estão acontecendo no mundo a partir de noções de Sociologia, História, Geografia e Filosofia. A preparação é bem diferente. Não é uma questão de capacidade, mas o perfil dos alunos é diferente. O aluno do Ensino Médio que trabalha é raridade, a maioria é realmente só estudante a questão da idade, que mesmo que seja repetente ele é um aluno que vai até os 18, normalmente, é mais difícil o aluno que tenha mais de 20 anos no Ensino Médio, o próprio sistema diz para ele ir para o EJA e, claro, eles acabam tendo um ritmo um pouco mais acelerado, tu consegue trabalhar mais conteúdo, o foco é diferente e muito no ENEM.  Então o foco é diferente e esse tempo que eles ficaram fora da escola é uma coisa que faz diferença assim também, para questão da confiança também, não só a questão de você estar acostumado a fazer, mas pensa os estudantes depois das férias, quando volta em março ainda se organizando e tentando recobrar o que aprendeu. Agora pensa, tu passar dois, três, dez, quinze anos fora da escola é um ritmo diferente que tem que se acostumar. De certa forma o sistema foi dizendo para eles que não pertenciam a escola, questões de família, marido ciumento ou que não quer que a mulher trabalhe, tudo isso são fatores que precisam ser levados em conta. É uma aula à noite também, então tu tem que pensar coisas que não são focadas apenas na teoria. Uma hora e meia de teoria a noite ninguém presta atenção. Nunca digo que o aluno não sabe, tento ir sugerindo para ajudar ele a desmistificar essa coisa de ‘eu não sei’, ‘eu não consigo’, ‘eu não vou’ e fazer o contrário, construir de novo a confiança em si próprio. Buscar temas que sejam atuais, temas relacionados com a vida deles, relacionados com o mundo do trabalho, com a sociedade, a questão da cidadania é muito forte, coisa que o adolescente não tem tanto, mas o adulto já está bem mais consciente.

Como é possível fazer com que quem passou muito tempo longe das salas de aula tenha vontade de retornar?

Tem uma questão prática que envolve políticas públicas, que é dar um suporte para essa pessoa. Ela tem que ter um apoio financeiro para pegar o transporte até a escola e para comer alguma coisa. Imagina, tu trabalhou o dia inteiro, não tem dinheiro e vai estudar sem comer. Então, o mínimo é que ela consiga ter transporte e alimentação. Depois, na própria sala de aula, ela vê que esse ambiente é feito para ela mesma, para acolher e incluí-la e no trabalho em sala de aula. Acho que a pessoa vai sentindo, vai construindo pouco a pouco essa questão de ‘Eu consigo, eu posso, eu vou adiante’. A gente está com bem poucos alunos no EJA, nosso curso foi esvaziando e a pandemia foi pior ainda. Agora, estou dando a disciplina de Projeto IV, que é o projeto final deles e eu tenho uma aluna só. Ela deve ter a minha idade e faz crochê. A gente percebe que ela tem bastante questões de ortografia, de português e no projeto quando propomos algo logo ela fala ‘não sei, prof, mas vou tentar’ e ela faz maravilhas. A gente estimula muito isso, elogiando e valorizando o trabalho feito. Agora vai ter a FEPEX e a gente quer que ela apresente. Então, o fato dela apresentar já dá um reconhecimento de ‘olha só o meu trabalho vale tanto a pena que ele tá sendo apresentado numa Feira de Ensino Pesquisa e Extensão’. Então, eu acho que muitas vezes a escola deixa de lado o noturno, principalmente o EJA, não pensa nos eventos, não pensa na inclusão deles, talvez porque eles já não participam ou porque é um aluno que tu tem que puxar sempre. Ele é de fato um aluno que tu carrega mais pela mão. Acho que seria isso da nossa parte e do Governo seria a assistência e não é assistencialismo, é assistência, é o mínimo.

Como você percebe a evolução dos seus alunos do EJA?

No EJA é bem frustrante, porque tu tem alguns alunos que estão evoluindo super bem e somem. Eles fazem muita força para voltar ao estudo, então ele não é a prioridade, o que é diferente para os alunos de médio que são obrigados a estarem lá. Isso, às vezes, é muito frustrante, porque tu tem alunos que rendem super e param, e normalmente o aluno não te avisa que vai parar. Acho que ele próprio se sente frustrado com isso e imagina que vamos tentar convencê-lo a ficar, então essa é uma parte bem difícil. Os poucos que realmente tu consegue acompanhar uma evolução é muito bacana, principalmente na questão do raciocínio, da questão da vida, de refletir sobre as coisas, eu acho que mais isso, de se tornar mais crítico, de começar a perceber as coisas de será que isso realmente é isso. Às vezes, as matérias de conteúdo eu não sei se teriam tanta diferença, mas em termos de comportamento imagino que sim e acho que confiança que adquirem. Eles veem que uma turma de 25 alunos termina em 4, 5. Dez foi o máximo que a gente formou e eles tão naqueles 10, então isso é muito bacana. É um reconhecimento pelo esforço deles, porque estão lutando contra toda uma situação que não é favorável. A cada semestre temos um projeto específico, então eles fazem essa questão que é mais prática, digamos assim, e isso dá uma sensação interessante, de estar colocando em prática o que aprenderam na teoria.

Quais são as consequências que o analfabetismo traz para a sociedade?

Eu penso muito nisso não só em termos de analfabetismo, mas na questão de variação linguística também e falo bastante com os meus alunos sobre. Por exemplo, tem uma pessoa com fala bem do interior e menos escolarizada, a gente naturalmente diz que essa pessoa fala errado. Aí a gente vê um político falando bonito, quando na verdade o conteúdo daquela pessoa que a gente pensa que fale errado, provavelmente seja muito mais relevante do que a pessoa que tá falando um monte de abobrinha, mas falando de um jeito mais formal, com palavras mais complexas. A nossa sociedade toda é organizada de um jeito que faça com que as pessoas acreditem que elas não têm voz e isso é muito perigoso, Não é a voz de ir no Facebook e ficar colocando alguma opinião que as pessoas não vão dar bola, mas é de tu pensar que realmente pode dizer o que precisa, pode buscar seus direitos. O analfabetismo mesmo é muito triste, imagina tu não conseguir pegar um ônibus, isso para a pessoa é muito frustrante, tu não lê o teu remédio, tu não sabe se ele é o remédio certo ou não que você tá tomando, tu não poder ver uma receita ou ler um contrato de aluguel, são coisas básicas. Mas o analfabetismo funcional é que a gente não se dá conta. Ele também é muito sério. Eu leio as coisas e acredito em todas, porque não tenho senso crítico e não consigo formar a minha própria opinião. Ela é formada no que os outros dizem e isso é bem perigoso. Indo mais além, eu que gosto de literatura e tu não pode ler livros é todo um mundo que se fecha para ti e eu acho que isso é super necessário, imagina tu ter um mundo sem livros faz muita diferença. Em termos de cidadania, óbvio. Mas em termos também de vida, de ser humano, como um ser integral, faz toda a diferença.

Quais as principais causas para não reintegrar essas pessoas na sociedade?

Tem uma questão social óbvia de que a sociedade já está organizada para facilitar a vida de quem já é fácil e tu inverter isso é muito complicado. A gente tá lutando para manter o nosso EJA e realmente tu tem que fazer isso porque tu quer e porque tu acredita nisso, mas é mais fácil a gente dizer se temos só três alunos vamos fechar e seguir a vida. A sociedade já tá organizada pra quem está fora continuar fora. Essa história de meritocracia não acredito em nada, porque o tipo do tu não consegue porque não quer, não tem como é só olhar a nossa situação. Eu sei que eu fui super privilegiada, eu tô onde tô porque estudei e tive acesso a tudo que precisava e daí eu vou me comparar a uma pessoa que não teve esse mesmo acesso, não tem como, não é igual. Eu acho que a nossa contemporaneidade tá muito na direção das mídias, a gente é muito WhatsApp e Facebook e é pouco livro, é pouco ler um artigo inteiro, tu não tem paciência. Tu lê manchete, não lê a notícia completa e com aquilo tu já sai falando. Esse senso de questionar as coisas a gente deveria ter, acho que isso é muito importante, de alguém te falar uma informação e tu pensa em buscar a tua informação e aprender a buscar as fontes. É aí que entra saber diferenciar quais fontes valem ou não a pena e onde procurar as informações corretas e verdadeiras. Toda escrita é tendenciosa, ela sempre vai ser, não existe neutralidade, mas algumas são mais e outras menos. Se um texto fosse de uma universidade, teoricamente seria um conhecimento um pouco mais científico, um pouco mais pesquisado do que uma notícia num jornal, eu tenho a consciência de que o veículo vai nessa direção, eu posso ler, mas tendo consciência. Ao invés de estarem nessa direção, estão muito na de em quantos caracteres do twitter conseguem escrever. A vida virou um grande tweet e o que cabe nesses caracteres. Antigamente, a gente admirava mais essa questão de leitura e hoje parece coisa de nerd. Então, essa inversão não tem só a ver com questão governamental ou coisas assim, acho que isso também é um fator que influencia.

Quais são as causas do afastamento das salas de aula?

A questão de precisar trabalhar, a questão familiar, no caso das mulheres principalmente, os filhos e o marido. A questão da reprovação, porque aí tu vai cansando da escola depois de reprovar por vários anos, porque a escola também não é feita para todos, ela é feita para os melhores. Tu não tem paciência com aqueles que têm mais dificuldades ou que vão ficando para trás. São poucos os casos que as pessoas realmente não quiseram estudar por preguiça, isso quase não existe. Isso de uma turma vai ser no máximo 10% e, normalmente, vão ser os mais jovens, pelo menos no nosso contexto.

Como a escola pode se adaptar e voltar o olhar para as pessoas com mais dificuldades de aprendizagem?

Isso passa muito por quem tá fazendo a escola. É sempre uma questão pessoal dos professores, diretores e da gestão. Em termos de gestão escolar, eu acho que a formação dos professores faz diferença, porque tem momentos de formação que estimula esses professores a trabalhar dessa forma. Entretanto, se for só do professor vai variar muito de acordo com o perfil. Se ele é um profissional que sempre tenta pensar em todos os alunos na questão didática e que tenta inserir todos, é uma demanda maior e, consequentemente, um tempo maior. Tu tem que explicar mais vezes, tem que ter paciência. O aluno vai evoluir de acordo com ele próprio. Ele não vai evoluir para chegar no aluno que é o melhor da turma, porque são pessoas distintas, mas, às vezes, esse aluno evoluiu 80% em relação a um que já era bom. Então, será que essa evolução, mesmo que ele tenha passado de 2 para 6, não é muito mais interessante do que a evolução do aluno que passou de 8,5 para 9? Em relação à escola, essa questão de formações, de ter mais diálogo e mais estímulo nessa direção. Nos próprios projetos integradores, tu tem mais possibilidade de não dar só a teoria na sala de aula. No projeto, tu pensa em outras coisas, pensa na questão da sociedade, usa outras habilidades muito mais práticas. O centro da sala de aula nunca pode ser o professor, só que sempre é. Isso tinha que mudar completamente e quando acontecer aí as coisas podem mudar mesmo, porque o aluno vai ter mais interesse, provavelmente vai aprender mais, vai querer ir adiante e buscar mais coisas relevantes e agregadoras.

Como reverter o analfabetismo funcional nas salas de aula?

Eu comecei a trabalhar com Inglês e eu gostava muito. Eu achava que era o que mais gostava. Porém, quando comecei a ensinar Português, achei muito mais relevante. O inglês é gostoso porque você vê a pessoa evoluindo em uma língua estrangeira, mas a pessoa conseguir fazer isso com sua própria língua é muito mais libertador, porque aí ela pode fazer o que quiser. A língua é poder. Eu fico frustrada que focamos muito em regras gramaticais e isso é só 30%, no máximo, da língua portuguesa. Língua portuguesa é expressão oral e escrita e é a leitura. É tu se expressar e ler qualquer coisa que queira. Então, a gente tinha que ter mais momentos em sala de aula de leitura variada. Tem que ter tempo de leitura. Tem que ter paciência para leitura. Se o aluno não lê em casa, ele tem que ler e discutir em sala de aula. Eu faço leitura em voz alta e os alunos me acompanham com o texto em mãos, depois comentamos o que foi lido. Questionamos o uso de determinadas expressões ou o que o autor quis dizer com aquilo, isso vai aproximando o aluno do texto. É muito difícil quem escreva mais do que no Whatsapp, tu escreve e-mail no trabalho, mas não escreve outro tipo de texto. Então, se não é a escola que dando essa oportunidade, não tem outro lugar que possibilita isso.

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