Esta reportagem foi produzida pelos alunos Higor Martins, Lavínia Steinstrasser, Luiz Lerner, Maria Eduarda Nunes, Mariana Krajevski e Vitória Bordignon no âmbito da disciplina de Narrativas Multimídias II, ministrada pelo professor Vinicius Batista, no Curso de Jornalismo da Univali Itajaí. O objetivo é resgatar a memória histórica e arquitetônica da Casa Konder, patrimônio cultural situado em Itajaí. As informações históricas ligadas ao casarão foram apuradas pela equipe e receberam a devida autorização para publicação. As ferramentas utilizadas para convergência e compilação dos conteúdos são WordPress e Elementor, com publicação disponível nesta página do Jornal Cobaia.
No final do século XIX, enquanto Itajaí ainda dava os primeiros passos rumo ao seu desenvolvimento e crescimento, a semente de um dos patrimônios arquitetônicos e políticos mais imponentes do estado catarinense começava a germinar. A história da Casa Konder, no entanto, não começa com tijolos e telhas francesas, mas com um jovem de 19 anos desembarcando no Brasil por volta de 1874.
Nascido em 5 de março de 1854 na pacata cidade de Schweich, na região do Vale do Rio Mosela, na Alemanha, Marcos Konder Sênior (originalmente Markus) chegou a Santa Catarina como uma “encomenda”. O comerciante alemão Nicolau Malburg, que já exercia forte influência na região, buscava um professor particular e de confiança para instruir seus filhos. Homem de presença, com cabelos sempre penteados e trajando terno e gravata, Markus tornou-se sua opção. O jovem professor, motivado pela promessa de boa oportunidade profissional, concordou.
Konder assumiu a tarefa ensinando piano e alfabetização, mas sua inteligência administrativa logo o tirou das salas de aula e o colocou na gerência dos negócios da família Malburg. Com o tempo, o professor percebeu que seu futuro estava no comércio. Ele abriu seu próprio caminho no setor portuário, lidando com importações e exportações, e começou a desenhar o seu próprio império às margens do rio Itajaí-Açu.
Foi justamente através da música que o patriarca da família Konder em Itajaí encontrou o amor, em um episódio que revela muito sobre a sociedade da época. Konder passou a dar aulas de piano para Adelaide Flores, uma jovem morena, de cabelos pretos, filha de um poderoso proprietário de terras e chefe político da região de Ilhota.
O romance entre o imigrante e a aluna estava sob julgamento de uma elite ainda marcada pelo preconceito. O historiador Edison D’Ávila, figura conhecida no meio cultural e histórico da cidade, resgata um diálogo emblemático: ao revelar o noivado ao seu amigo, o Dr. Hermann Blumenau (fundador da cidade vizinha), Konder ouviu uma pergunta carregada do racismo estrutural da época: “Mas você vai se casar com uma mulata?”. A resposta do alemão foi categórica e definitiva: “Não, eu vou me casar com uma princesa”. Ao todo, o casal teve nove filhos, sendo Evelina, Arno, Marcos Jr., Adolpho, Victor, Maria, Adelaide, Elisabeth e Marieta.
Já com a família constituída e os negócios consolidados, Marcos idealizou uma residência que refletisse o sucesso de sua trajetória. À época, exportava madeira e produtos de colônias como Brusque e Blumenau, angariando recursos para comprar lotes às margens do rio Itajaí-Açu, onde também desenvolveu instalações ligadas à empresa. Em 1897, encomendou ao arquiteto e construtor alemão Reinhold Roenick um casarão que remetesse ao estilo neoclássico e às casas senhoriais da terra originária da família Konder.
Porém, afetado por uma grave doença, Konder viajou à Alemanha no ano seguinte em busca de tratamento médico, mas faleceu no porto de Hamburgo no dia 30 de maio de 1898, aos 44 anos, antes de ver sua obra-prima concluída. A primeira “inauguração” prática do casarão foi, na verdade, um ato de luto profundo: o corpo de Marcos Konder Sênior retornou embalsamado de navio para Itajaí e foi velado no interior da residência que ele sonhou, mas nunca chegou a habitar.
Paredes maciças, de tijolos brutos, feitas para durar uma eternidade. Janelas altas com marcos na cor branca e vitrais nas cores verde e laranja, as quais combinam com a cor das paredes, um verde pastel que em alguns pontos varia entre uma tonalidade mais clara e outra escura. Telhas alaranjadas, em sua maioria afetadas pelo clima chuvoso de uma vida à beira do rio Itajaí-Açu, moldam o topo do edifício de dois pavimentos, 450 m², construído no estilo germânico enxaimel.
À frente, uma varanda tão imponente quanto aqueles que um dia a frequentaram (os Konder e os Bornhausen, por exemplo), decorada com vasos de plantas, também verdes. Observando-a, chama a atenção uma placa com escritas em preto e vermelho fixada em uma das laterais da varanda, dizendo “CasAberta”, sendo o “A” pintado em vermelho e grifado tal qual o símbolo do anarquismo.
CasAberta era o nome de um dos sebos mais conhecidos de Itajaí, situado na Casa Konder, antiga residência dos Konder na cidade peixeira, ex-sede da Caixa Econômica Federal no município e futuro Casarão 83, conforme você descobrirá nesta reportagem.
Há mais de um século, desde o final dos anos 1800 e início de 1900, a grandiosa e robusta estrutura assentada sobre a rua Lauro Müller resiste, mesmo que de forma tímida e sem chamar muita atenção, às mudanças da capital nacional da pesca. Onde antes atracavam pequenas embarcações que circulavam pelas águas doces e salgadas do Itajaí-Açu, hoje o asfalto tomou conta, tanto que é difícil, durante o dia, observar com clareza e calma a Casa Konder – carros, vans, motos, ônibus, caminhões… todos enfileirados aguardando os 57 segundos de semáforo fechado da Lauro Müller, esquina com a Olímpio Miranda Júnior.
Se consultarmos os livros que contam o desenvolvimento de Itajaí ou falarmos com historiadores que conhecem nossa cidade tal qual a palma da própria mão, ouviremos sobre um cenário urbano rústico. Naquela Itajaí do século XIX, as casas que abrigavam os moradores, de pescadores a trabalhadores comuns, eram construções modestas feitas de madeira, a imensa maioria das quais sequer sobreviveu ao teste do tempo. É o que relata, por exemplo, o historiador Pedro Alvez, da Fundação Genésio Miranda Lins.
“Aqueles prédios que foram construídos em materiais com uma maior durabilidade são aqueles que acabam ficando para o resto da história. E são justamente esses prédios que foram construídos por pessoas de uma elite. Senão elas teriam construído em madeira e hoje a gente não saberia como era a casa deles. Então, por exemplo, se perguntar como era a casa de um pescador do século XIX, a gente não tem como saber, porque essas casas não sobreviveram”.
Além de nos ajudar a entender o contexto em que a Casa Konder surgiu, Pedro conta que o prédio era, de fato, uma construção singular à época. Projeto arquitetônico alemão, feito sob encomenda para a família imigrante. Aliás, a água era o principal meio de locomoção do período, servindo de ponte entre o Brasil e a Europa, mas também entre o litoral e o interior do estado catarinense. O rio Itajaí-Açu era o único caminho por onde passavam e chegavam as mercadorias, as pessoas e as influências, já que estradas rumo ao interior praticamente não existiam.
Foi exatamente às margens desse fluxo, e em meio à simplicidade de madeira dos demais peixeiros, que a Casa Konder foi erguida em alvenaria e com pavimentos sobrepostos. Para o olhar de um cidadão itajaiense daquela época, o casarão era intimidador, a prova inquestionável do sucesso comercial, político e financeiro dos Konder.
O visual e a estética externa corroboram com isso, mas internamente, só quem já teve a oportunidade de visitar a Casa consegue descrever – a começar pelos entalhes! Todas as portas e janelas (inclusive feitas de materiais grossos e resistentes) são entalhadas, todas. São desenhos esculpidos com muita atenção e profissionalismo, que misturam linhas retas, sérias, com formas circulares ou curvas de elegância e requinte… até as maçanetas são entalhadas!
Ao olhar para o chão, não há como não se impressionar. Pequenas lajotas quadradas e com desenhos simétricos nas cores bege, dourado, azul marrom e cinza formam um grande mosaico. Já as paredes, tal qual o piso, originalmente eram todas decoradas com pinturas únicas do rodapé ao sótão, inclusive com variações entre alguns cômodos.












Infelizmente, nem todos os proprietários da residência se importaram em preservar os traços originais e históricos da Casa Konder, diferente de Mário César de Souza, empresário e atual dono do local. Ele e a arquiteta Silvana Pitz são os protagonistas da história atual e futura do prédio tombado que, conforme você lerá mais adiante nesta reportagem, será o Casarão 83. A dupla se empenha dia após dia, juntamente a outros membros da equipe, no trabalho minucioso de recuperação do casarão.
Um exemplo deste trabalho são dois cômodos específicos do térreo nos quais foi possível encontrar as gravuras originais das paredes.
Subindo as escadas e chegando ao segundo pavimento, encontra-se o escritório da equipe. Sabe aquele estilo vintage carregado de personalidade? Já à primeira vista é possível notar que o espaço foi moldado por alguém com bom gosto… e até o cheiro é encantador, convidativo. Convidativo não só para sentir o peso histórico do casarão, mas também para sentir a brisa da varanda voltada à rua Lauro Müller, uma das mais antigas da cidade e que leva o nome do itajaiense que ascendeu ao governo do estado de Santa Catarina.
Você nunca espera observar o movimento de Itajaí daquele ponto. Ao fundo, os grandes prédios e hotéis que representam a evolução imparável da segunda maior economia catarinense. Mas, olhando para o que está “abaixo do seu nariz”, nota-se tanto os ladrilhos da varanda, fixados em posições não-complementares, quanto outros prédios históricos famosos na rua: Casa Burghardt, Casa Asseburg, Casa Malburg, Hotel Rota do Mar… todos eles valem um tour e, para isso, te recomendo acessar esse site e conferir a rota de pedestres que leva você a uma viagem pela Itajaí do século passado.
Também no segundo pavimento estão três cômodos maiores e um banheiro. O espaço é decorado com quadros, lindos quadros por sinal, mas o que chama a atenção são as estantes de livros vazias. Estantes que, muito provavelmente, já abraçaram centenas de obras presentes no sebo CasAberta. Quem sabe, até as obras que contam a história das famílias que ergueram na Lauro Müller os casarões hoje tombados como patrimônio cultural e histórico.
No início, a residência dos Konder nasceu como uma construção senhorial para abrigar a família e, ao mesmo tempo, servir de sede para o escritório de negócios de Marcos Konder “Sênior”. Com o passar dos anos, o perfil do espaço sofreu alterações significativas. Os jantares em família deram lugar aos debates acalorados quando a casa se tornou a sede local da União Democrática Nacional (UDN), transformando-se no coração político das estratégias partidárias de Itajaí e de Santa Catarina, conforme revela Edison D’Ávila, historiador, escritor e ex-presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Itajaí:
“O partido que se organizou contra Getúlio foi a União Democrática Nacional, cuja sigla era UDN. Eles, inclusive, foram os comandantes da UDN em Santa Catarina e em Itajaí. O coronel Marcos Konder foi presidente da UDN, e a sede da UDN passou a ser a Casa Konder aqui em Itajaí”.
Mais tarde, os negócios e os discursos políticos foram substituídos pela burocracia, quando a estrutura foi adquirida e ocupada pela Caixa Econômica Federal, na década de 1990. Foi nesse período que a Casa Konder viveu seu maior perigo, quase sendo demolida para dar lugar a uma agência moderna do banco. O local chegou a servir, por um curto período de tempo, como sede de parte do Arquivo Público Municipal.
Durante o ciclo mais recente de ocupação cultural, cedeu seus corredores para o sebo CasAberta, que preencheu os cômodos de literatura e reuniu apaixonados por livros durante mais de dez anos.
A arquiteta Silvana Pitz, responsável técnica pelas intervenções na obra, ajuda a compreender os detalhes mais escondidos. A grandiosidade estética já relatada está presente também, por exemplo, nos altíssimos pés-direitos. Iluminação suave, aroma amadeirado, elementos importados e valiosos à época agregam a estética requintada do casarão da elite peixeira do século passado.
Manter um casarão de 122 anos no centro da cidade com um dos metros quadrados mais valorizados de todo o país não é uma tarefa fácil, mas com certeza necessária. Conforme reflete o senhor D’Ávila, proteger essas alvenarias exigiu sacrifício em épocas nas quais a comunidade pouco compreendia a importância de não deixar o patrimônio desabar.
”A gente não tinha receptividade comunitária, não havia essa consciência. No início, havia forças contra esse processo de preservação e de tombamento. Mas, felizmente, um grande aliado de nós, defensores do patrimônio, foi a imprensa. E vocês são futuros jornalistas, né? […] Esse apoio divulgou na comunidade a importância dessa preservação e a partir dali, os governos – que vivem, como vocês sabem, pressões dentro da comunidade – conseguiram acompanhar a proposta. Como eu falei antes, a primeira lei de preservação é de 1982, mas ela só foi implementada em 1998, ou seja, 16 anos depois. Isso mostra a resistência inicial”.
O esforço dos defensores do patrimônio cultural e histórico e itajaiense não foi em vão. Hoje, você, leitor, tem a oportunidade de conhecer o que a arquiteta Silvana carinhosamente chama de “casarão”. “Ao mesmo tempo em que a Casa Konder tem essas características que expressam poder, ela é singela, ela tem essa coisa de ‘ah, vamos lá no casarão’, sabe? É algo acolhedor”, explica Silvana.
E você? Curioso para “ir lá no casarão” também?
Madeira, alvenaria e ornamentos traduzem uma herança que atravessou continentes. Erguida entre o final do século XIX e o início do século XX, a Casa Konder é “eclética”. Tem referências da tradição construtiva alemã trazida pelos imigrantes da região conhecida como Vale do Rio Mosela, localizado entre a França, Alemanha e Luxemburgo, na Europa.
A residência foi uma das primeiras obras do arquiteto alemão Reinhold Roenick, profissional responsável por trazer ao litoral catarinense referências arquitetônicas em evidência na Europa naquele período. Projetada para ser a segunda residência de Marcos Konder, a casa representa o encontro entre técnicas construtivas europeias e os materiais, o clima e a paisagem de Itajaí. Mais do que projetar uma edificação, Roenick ajudou a introduzir uma nova linguagem arquitetônica na cidade, marcada pelo refinamento estético, pelo rigor construtivo e pela valorização dos detalhes.
O sobrenome Konder, ou pelo menos os Konder que chegaram a Itajaí, vieram da cidade de Schweich. Foi de lá que os princípios do classicismo e do neoclassicismo atracaram na cidade peixeira e influenciaram a arquitetura local entre 1800 e 1900.
Localizada às margens do rio Mosela, Schweich possui um patrimônio arquitetônico marcado por diferentes momentos históricos, incluindo o famoso e tradicional modelo Fachwerk (do alemão, treliça), conhecido no Brasil como enxaimel.
A técnica enxaimel consiste na montagem de uma estrutura de vigas de madeira dispostas na horizontal, vertical e diagonal, com os espaços preenchidos por materiais encontrados na região onde a casa está sendo construída. Embora a Casa Konder não seja uma edificação em enxaimel, ela incorpora princípios construtivos e estéticos da arquitetura germânica que chegaram ao litoral catarinense com famílias imigrantes. Afinal, conforme explica a arquiteta Silvana Pitz, o casarão foi pensado para “importar” o estilo alemão da época para o litoral catarinense.
“As influências são claramente alemãs. A casa começou a ser construída em 1898 e foi inaugurada em 1904. Ela tinha vitrais, ladrilhos, telhas francesas, todo o madeiramento importado de pinho de Riga, pinturas murais decoradas e esculturas de porcelana na fachada”.
Cabe ressaltar que a escolha desses materiais demonstra que os Konder de fato tinham acesso a produtos importados, bem como havia a intenção de reproduzir técnicas e acabamentos comuns nas construções de alto padrão da Europa.
Além da influência germânica, a edificação tem uma forte aproximação com o classicismo, movimento que valorizava a simetria, a proporção a questão dos “monumentos”. Na arquitetura, é a característica de uma construção que transmite grandiosidade, imponência e importância – tudo que uma família de poder quer transmitir. Isso não significa necessariamente que o edifício seja muito grande, mas que sua composição visual desperta uma sensação de destaque e prestígio.
Esses princípios aparecem na organização da fachada, na composição dos volumes e na hierarquia dos elementos arquitetônicos. “Ela é uma casa muito requintada, com um refinamento que bebe da fonte do classicismo. A simetria, o frontão e diversos elementos mostram essa influência, que depois também incorpora características do neoclassicismo”, afirma Pitz. O resultado é uma arquitetura que torna até palpável a transição entre o século XIX e o XX, quando os modelos clássicos ainda predominavam, mas já incorporavam processos de construção impulsionados pela industrialização.
Olhando com mais atenção, é perceptível que as esquadrias (janelas e portas, por exemplo) são de tamanhos avantajados e possuem entalhes elaborados, complexos. Os vitrais e ornamentos vão ao encontro desse aspecto para formar um conjunto o qual reforça o cuidado artesanal empregado na construção. O telhado, com inclinação acentuada, remete às edificações do norte da Europa: “o próprio telhado tem uma inclinação bastante grande, quase suficiente para suportar neve. Isso demonstra a influência das origens dos imigrantes alemães que construíram a casa”, observa a arquiteta.
A Casa Konder também integra um conjunto de casarões construídos por famílias de origem alemã que se estabeleceram em Itajaí no período de expansão econômica da cidade.
Próximas ao porto e ao antigo eixo comercial da rua Lauro Müller, essas casas compartilham aspectos arquitetônicos parecidos, resultado tanto da origem comum de seus proprietários quanto da circulação de profissionais, materiais e referências construtivas europeias. Juntos, formam uma linguagem arquitetônica que ainda hoje nos ajuda a entender a formação urbana e cultural de Itajaí. Nas fachadas, por exemplo, está preservada a memória de uma imigração que encontrou na arquitetura uma forma de mostrar o poder e a influência de quem veio para conquistar.
Mais de um século após sua construção, a Casa Konder permanece como um testemunho material dessa imigração europeia e da arquitetura que marcou o desenvolvimento da cidade na época. A restauração realizada em 1980 permitiu recuperar elementos originais da edificação, preservando características que fazem dela um dos mais importantes exemplares da arquitetura histórica catarinense.
Esse valor foi oficialmente reconhecido em 23 de novembro de 2001, quando o imóvel foi tombado em nível estadual pelo Decreto nº 3.460. O tombamento garante a proteção de sua arquitetura e assegura que detalhes como a composição da fachada, os elementos decorativos, a volumetria e os materiais empregados permaneçam preservados para as futuras gerações. Mais do que conservar um edifício, preservar a Casa Konder significa manter viva a memória das influências culturais que ajudaram a desenhar a paisagem urbana de Itajaí.
A abertura do Casarão 83 nasce da paixão pela arquitetura e pela história. O antigo casarão da família Konder, que por décadas sobreviveu às transformações do centro da cidade peixeira, agora passa por um processo de restauração que busca preservar sua essência sem deixá-lo preso ao passado. A proposta é transformar o imóvel em um espaço cultural aberto às pessoas, o qual reunirá exposições, oficinas, literatura e outras manifestações artísticas. Ao mesmo tempo, recupera elementos originais da construção que teve origem há mais de um século.
Empresário e proprietário da, até então, Casa Konder, Mário César de Souza acompanha de perto cada etapa da obra e explica como esse trabalho é executado. “Chamamos uma especialista, a Márcia Escorteganha, para a restauração da antiga pintura nas paredes. Uma parte conseguimos fazer e, aos poucos, vamos fazendo o restante”.
O objetivo é restaurar parte das pinturas coloridas com arabescos (desenhos ornamentais que envolvem linhas curvas, espirais e elementos entrelaçados, voltados às formas da natureza como folhas e flores) da casa original. O processo é minucioso: com um bisturi, retiram cuidadosamente o revestimento até identificar a pintura antiga. Depois, encontram o tom exato da tinta e recompõem os desenhos no mesmo formato em que foram feitos durante a decoração inicial da Casa Konder. É um trabalho demorado, mas satisfatório quando o resultado começa a aparecer.
Na parede do salão principal, uma dessas pinturas já mistura tons de azul e verde. Acima da porta, a vidraça chama a atenção: um verde-água desenha semicírculos, dois triângulos curvilíneos em amarelo queimado enquadram um losango azul ao centro. São desenhos típicos dos vitrais do final do século XIX, inspirados na Art Nouveau, movimento em que as formas geométricas eram suavizadas pelas curvas.
Entrando na casa, é nítido que a reforma está presente em cada ambiente. O cheiro de tinta ainda é forte, enquanto madeiras, ferragens, baldes de tinta e ferramentas ocupam os cômodos, especialmente na porta próxima aos fundos do casarão.
Subindo as escadas, construídas com diversos tipos de madeira, chega-se ao escritório da arquiteta Silvana Pitz, que já foi explorado em tópicos anteriores mas que, de forma geral, não ficará aberto aos visitantes. É nesse ambiente que se entende uma parte considerável do esforço para transformar a Casa Konder no Casarão 83 sem que ela perca suas origens. Papéis espalhados sobre a mesa de madeira, tapetes e móveis antigos ajudam a compor o cenário. Um aroma delicado, refinado e aconchegante. A decoração, os móveis e o cuidado especial dedicado a cada detalhe na sala apenas reforçam o que já se sabe. Este é um projeto feito de corpo e alma por quem vive o casarão, da fundação ao telhado em estilo germânico.
Ao lado do escritório estão os restos do que um dia foi o sebo CasAberta. Resta uma pequena dúzia de livros e algumas estantes de madeira vazias, esperando para serem preenchidas mais uma vez. Também é possível perceber as marcas deixadas pelas diferentes fases da construção. Uma parede de tijolos denuncia uma reforma posterior. Os blocos são mais grossos e unidos por cimento, materiais que não faziam parte da técnica construtiva da época em que a casa foi erguida.
Junto a essa sala, que engloba a lateral do casarão, há outra voltada para a parte da frente da casa. O teto tem formato de “L”, lembrando o pequeno quarto do Harry Potter embaixo da escada. No projeto, Mário explica que esse espaço será ampliado: o teto será reconstituído e a sala ganhará alguns bons metros, criando um novo ambiente. Na sala de mesmo formato, no lado direito da casa, o processo se repetirá.
Entre os materiais da obra também estão blocos cerâmicos vazados, conhecidos como cobogó, com desenhos florais, encomendados de São Paulo especialmente para a restauração. Como esse tipo de peça deixou de ser fabricado em larga escala, foi necessário buscá-la em um fornecedor especializado para preservar a linguagem arquitetônica da casa. Assim como acontece com as pinturas originais, a preocupação da equipe é fazer com que cada elemento dialogue com a história do imóvel, respeitando suas características e evitando intervenções que descaracterizem o casarão tal qual os Konder o conceberam.
A restauração da obra original da Casa Konder foi conduzida com sensibilidade. Acima de tudo, com respeito pelo histórico de quem foram os Konder, os Bornhausen e as famílias que ali viveram. Respeitando o que as pinturas comunicavam e o que as marcas do tempo preservaram. A expectativa? Tornar a Casa Konder, mais uma vez, um novo reduto cultural de Itajaí.
Para isso, o projeto também prevê a criação de um acervo de autores catarinenses, formado a partir de uma doação do historiador e professor (inclusive ex-professor do Curso de Jornalismo da Univali) Magru Floriano, além de uma homenagem ao antigo morador da casa, o poeta Marcos Konder Reis. Um dos sonhos de Mário é instalar uma estátua do poeta em frente ao casarão, acompanhada de bancos para leitura e contemplação, em uma iniciativa idealizada pelo historiador Edison d’Ávila, que também auxiliou na construção dessa reportagem. Avança no poder público municipal, já com projeto aguardando execução, a ampliação do passeio (calçada, na linguagem popular) em frente aos casarões históricos da Lauro Müller.
Deixamos esta reportagem como um convite a você, leitor, para que visite, conheça, busque e viva um pedacinho da história da nossa pequena pátria, Itajaí.
Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.