por Luiz Lerner e Mariana Krajevski
Sambaquis, fotos antigas, ferramentas e cerâmicas ocupam hoje o lugar de centenas de memórias de quem, no século passado, utilizava a Estrada de Ferro de Santa Catarina (EFSC) para percorrer o bairro Itaipava, em Itajaí, rumo aos grandes centros urbanos. A então Estação Engenheiro Vereza, que começou a ser construída em 1926 e teve suas atividades encerradas em 1971, tornou-se a partir de 2010 o Museu Etno-Arqueológico de Itajaí.
O espaço de 6 mil metros quadrados busca preservar a memória ferroviária, a etnografia rural e o patrimônio arqueológico da região. Além de uma série de itens e documentos históricos relacionados à história da EFSC, o local é, conforme a pesquisadora Sandra Jatahy Pesavento em seu artigo História, Memória e Centralidade Urbana, um dos “rastros da cidade antiga que ainda se dão a ver”.
Localizado na rua Av. Itaipava, nº 3901, o museu tem como origem a construção da Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC), iniciada em 1906 sob a liderança de um consórcio alemão. No bairro Itaipava, as obras da estação começaram em 1926 e o local foi batizado em homenagem a Telasco Vereza, engenheiro-chefe responsável pela ferrovia.
O trecho férreo completo rumo ao Porto de Itajaí foi inaugurado oficialmente em 18 de dezembro de 1954, com a presença do então presidente João Café Filho. Durante seu funcionamento regular, a estação operou como um polo econômico e social estratégico para os colonos, sendo utilizada para o transporte de passageiros, madeira, gado e farinha, além de disponibilizar serviços de telégrafo e cofres tidos como altamente seguros para a guarda de economias da população rural.
O crescimento do transporte rodoviário e a redução no volume de cargas despachadas provocaram a posterior desativação da ferrovia no Vale do Itajaí. Em 12 de março de 1971, a locomotiva 331 fez a sua última viagem documentada, determinando o encerramento das atividades na estação Engenheiro Vereza. A partir de 1981, a administração pública municipal reaproveitou o prédio, transferindo para lá a sede da Secretaria de Desenvolvimento Rural. O espaço também funcionou como Sub-Prefeitura de Itaipava até o ano de 2004.
Para Sandra Vanzuita, diretora executiva da Fundação Genésio Miranda Lins, responsável pela memória histórica e documental de Itajaí, a importância do Museu está não apenas no fato de o local preservar a história ferroviária catarinense, mas também a história das primeiras comunidades que habitaram as terras hoje chamadas de Itajaí. “Os sambaquis mostram como era a vida dessas populações, do que se alimentavam e como se organizavam, revelando uma história muito anterior à chegada dos colonizadores”, explica.
O reconhecimento formal da importância arquitetônica e histórica da estação da Itaipava ocorreu em 30 de julho de 2002, quando o edifício, sendo o único exemplar remanescente das estações originais construídas em Itajaí, foi tombado como patrimônio cultural pelo município. O decreto que previu a criação do museu foi assinado em 2003 e, no ano seguinte, o imóvel foi cedido administrativamente à Fundação Genésio Miranda Lins, o que marcou o início do processo de restauração predial. A inauguração oficial do Museu Etno-Arqueológico ocorreu em 25 de junho de 2010, durante o calendário de comemorações do sesquicentenário da cidade de Itajaí.
Atualmente, o museu exerce uma função social, educacional e científica que envolve tanto a comunidade itajaiense quanto cidades vizinhas e de diferentes regiões. Além de abrigar um laboratório equipado e expor artefatos etnográficos, peças ferroviárias e registros de populações pré-históricas e indígenas habitantes da região, o complexo sedia atividades contínuas de educação patrimonial. “Estão expostos no Museu peças de cerâmica, crânios inteiros de povos originários, entre outros itens que nos ajudam a entender como se davam as relações sociais na época e até mesmo como se deu a colonização“, enfatiza Sandra Vanzuita.
Com o objetivo de integrar a comunidade e converter o museu em um centro de convivência, são disponibilizadas oficinas gratuitas de violão, judô, capoeira, argila e teatro no local. Tais atividades, segundo detalha a pesquisadora Sandra Pesavento, tornam o Museu Etno-Arqueológico apreciado pela comunidade do bairro, sendo um dos “lugares dotados de carga simbólica que os diferencia e identifica”.