Sociedade Cultural e Beneficente Sebastião Lucas Pereira

por Maria Eduarda Nunes Ferreira e Sophia Marciano Ribeiro

Origem e trajetória de luta

A Sociedade Cultural e Beneficente Sebastião Lucas Pereira, situada em Itajaí, é um clube negro fundado em 1952 e reconhecido como patrimônio cultural em âmbito municipal. Foi criada com o objetivo de ser um espaço de convivência para a comunidade negra, que era impedida de frequentar os clubes tradicionais da cidade até meados da década de 1980, devido a práticas racistas presentes em um contexto marcado pelas heranças da escravidão. 

Inicialmente, estava situada na rua Laguna e, desde 1957, mantém sua sede na Vila Operária. Ao longo do tempo, consolidou-se como um espaço de convivência social da comunidade negra, promovendo eventos como festas e leilões, além de dois bailes de destaque: o Baile das Debutantes e o Baile da Rainha da Primavera. 

No final da década de 1990 e no início dos anos 2000, desafios relacionados à dificuldade de manter o clube e sua entidade responsável colocaram em risco sua preservação como símbolo da resistência da cultura negra em Itajaí. A especulação imobiliária, os interesses comerciais e as disputas de poder pelos espaços da cidade levaram os movimentos sociais negros a reivindicarem sua proteção, cujo tombamento municipal ocorreu em 2007. 

O nome da entidade é uma homenagem a Sebastião Lucas Pereira, dirigente da Sociedade 13 de Maio [1903-1906], SOBI – Sociedade Operária Beneficente de Itajahy [1910], Sociedade Beneficente 15 de Novembro [1921-1931], Humaytá Foot-Ball Club [1923]. Funcionário da Casa Malburg & Cia.

Cultura e resistência

A Sociedade Beneficente Sebastião Lucas Ferreira, fundada em 1952, é reconhecida como um importante espaço de resistência da população negra em Itajaí. De acordo com José Bento, que apresentou a trajetória da entidade, o local foi criado em um contexto de exclusão, quando pessoas negras eram impedidas de frequentar clubes da elite.

Antes da fundação da sociedade, outras iniciativas já cumpriam papel semelhante, como o Clube Náutico Cruz e Souza, de 1919, e a Sociedade Beneficente 15 de Novembro. Esses espaços promoviam bailes, festas e encontros, funcionando como ambientes de convivência e valorização cultural.

José destaca que essas atividades iam além do lazer. Eram formas de manter viva a cultura afro-brasileira e garantir um espaço seguro de expressão em meio ao racismo da época. Em depoimentos históricos citados por ele, frequentadores relembram a importância desses encontros, como no caso de Maria Leocárdia Pereira, que afirmou: “Eu dancei muito nos bailes da sociedade”.

Assim, a entidade se consolidou como um símbolo de resistência, preservando tradições e fortalecendo a identidade da população negra em Itajaí.

 

Desafios e preservação

Atualmente, a Sociedade Beneficente Sebastião Lucas Ferreira enfrenta desafios relacionados à sua manutenção e preservação. Segundo Bento, o espaço passou por um período de enfraquecimento e, nos últimos anos, entrou em processo de reestruturação.

José Bento explica: “A sociedade passou por um período de enfraquecimento e, hoje, estamos em um processo de reestruturação, com a criação de uma comissão para reorganizar juridicamente a entidade e garantir a conservação do prédio, que é patrimônio histórico de Itajaí”.

Além das questões estruturais, José Bento também chama atenção para a permanência do racismo. Ele relata que manifestações preconceituosas ainda ocorrem na cidade, inclusive contra eventos culturais recentes, evidenciando que os desafios enfrentados no passado ainda se refletem no presente.

Diante desse cenário, a preservação da sociedade não envolve apenas o espaço físico, mas também a valorização da memória, da cultura e da história da população negra local.