Feridas que não cicatrizam

O peso psicológico da violência contra a mulher no Vale do Itajaí

Por Emanuele Correa, Júlia Kato e Luiza Kramer 

14.02.2025

Hoje, eu falei para o Luiz que se ele fizesse algo eu pegava a Maria e ia embora.

Ele colocou uma faca na mesa. Não disse nada, só olhou para mim. 

Não levantou a faca, mas olhou para ela por muito tempo.

Me deu mais medo do que se tivesse pegado a faca e apontado para mim.

Ele estava pensando.

Hoje eu decidi que eu vou embora.

Ana

 

A Epidemia Invisível

Nos últimos anos, Santa Catarina tem enfrentado uma realidade muito dura quando o assunto é violência contra a mulher. Segundo o Observatório da Violência Contra a Mulher (OVM), de 2020 a 2025 foram registradas mais de 430 mil ocorrências de violência, o que representa, em média, 198 casos por dia. As agressões variam desde violência física até psicológica e moral, todas previstas na Lei Maria da Penha, que completou 19 anos em 2025.

Em 2025, a situação se agravou com o aumento dos feminicídios: entre janeiro e julho houve um crescimento de 36% em relação ao mesmo período de 2024. Apenas em Novembro foram registrados nove feminicídios no estado, revelando que a violência contra mulher em Santa Catarina não apenas persiste, como também se intensifica.

A figura da mulher na sociedade, desde o início, foi ensinada a lutar. Porém, diferente dos homens, suas batalhas foram condicionadas aos outros. O ciclo que se perpetua até hoje e que se manteve vivo por séculos, culturalmente ensina que abrir mão do próprio desejo é uma virtude feminina. A violência contra a mulher não é apenas uma questão de agressão física; ela nasce desse pensamento, que legitima as ações dos agressores e pune suas vítimas.

Embora muitos avanços tenham sido feitos nas últimas décadas, ainda é muito recente o reconhecimento dos pequenos abusos que iniciam esses ciclos. Grande parte da população é conivente com discursos como “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, que alimentam as primeiras consequências do abuso: a perda dos vínculos e da autoestima.

A mulher inserida nessa realidade, aos poucos, se acostuma e troca suas prioridades. As agressões físicas costumam ser um divisor de águas nesses ciclos, mas a violência começa muito antes disso. A partir da violência física, a prioridade da mulher passa a ser sobreviver.

13.09.2024


“Isso não é roupa para você, Ana”.

 

Luiz me disse isso hoje enquanto eu experimentava um vestido para festa do trabalho dele. 


Perguntei o porquê, ele me disse que eu engordei. Realmente engordei, depois que a Maria nasceu meu corpo mudou. 


Achei que ia ser temporário e com tempo ia voltar ao normal. 

 

Meu corpo não voltou, nem o interesse dele por mim.

 

– Ana

17.10.2024

Ontem, eu e Luiz tivemos uma briga feia por causa da minha mãe. Ela me disse que tem percebido que ele está muito agressivo.

Ele vive dizendo que ela não gosta dele e, por isso, atrapalha nossa relação.

Depois de muita gritaria, ele sentou no sofá e começou a chorar.

Disse que não sabia o que estava fazendo de errado, e eu fiquei com o coração partido.

Fomos dormir em silêncio, e eu inventei uma desculpa para não irmos à casa dela no domingo.

Às vezes, eu me pergunto por que cedo tão fácil.

– Ana

22.11.2024

Maria ficou doente a semana inteira, algo que ela pegou na escola.

Onze e meia ela me chamou, não estava passando bem.

Quando o Luiz chegou, eu me dei conta. O arroz no fogo e o cheiro de queimado.

O estouro foi a última coisa que ouvi antes de ver a panela sendo jogada na parede.

Ele foi trabalhar sem almoço, e eu passei a tarde inteira limpando a cozinha

– Ana

O Rompimento do Ciclo

Quando uma mulher decide buscar ajuda, o caminho quase sempre começa na delegacia. É ali que se inicia um processo que não é apenas administrativo, é emocional, delicado e muitas vezes determinante para interromper um ciclo de violência que, em muitos casos, se estende por anos. Em Santa Catarina, esse primeiro ponto de acolhimento é a DP-CAMI (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso), estruturada para receber, ouvir e agir de forma rápida e responsável.

Logo no primeiro atendimento, a prioridade é evitar que a vítima reviva a dor repetindo sua história várias vezes. O protocolo busca impedir qualquer forma de revitimização, garantindo que ela seja ouvida com respeito e proteção. “Estamos prontos para atender da melhor forma possível e fazer os direcionamentos necessários para resguardar a integridade física e psicológica dessas mulheres”, afirma a delegada de polícia de Itajaí, Katlyn Patricia de Jesus. 

Até 12 de setembro de 2025, o município de Itajaí registrou 2.463 ocorrências de violência doméstica, entre elas 813 ameaças, 538 lesões corporais, 151 casos de violência psicológica e 6 feminicídios. Para a delegada, mais do que números, os registros revelam uma mudança significativa de comportamento. Não é apenas a violência que cresce, mas também, a coragem de denunciar. O fortalecimento das redes de apoio e a maior circulação de informações mostram às mulheres que a denúncia é um caminho possível e que elas não estão sozinhas.

15.12.2024

 

Deixei a Maria na escola e peguei um ônibus até a delegacia. 

Não sei bem o que fui fazer, mas não consegui entrar. 

Fiquei sentada lá na frente por duas horas. 

Quase entrei, mas peguei o ônibus de volta. 

Quando cheguei em casa, Luiz gritou comigo porque eu não lavei a roupa.

 
 

 Ana

Após o registro da ocorrência, começa um processo imediato de proteção. Uma de suas principais ferramentas é a medida protetiva, encaminhada ao Judiciário, que tem até 48 horas para decidir sobre sua concessão. “A medida protetiva salva vidas. Em Itajaí, nenhum dos feminicídios registrados envolvia mulheres que tinham medida protetiva em vigor. Se tivessem, suas vidas poderiam ter sido resguardadas”, reforça Katlyn.

A violência psicológica aparece como uma das formas mais graves de intimidação. Muitas mulheres chegam à delegacia abaladas, após longos períodos de controle e manipulações que corroem a autoestima e dificultam o reconhecimento da violência. “Ela deixa marcas invisíveis e, por isso, é uma das mais difíceis de identificar e comprovar”, explica a delegada.

Entre os feminicídios registrados no município, um dado chama atenção. A maioria é cometida com faca, não com arma de fogo, o que evidencia a intensidade da agressão e a proximidade entre agressor e vítima, um tipo de violência que ocorre dentro do espaço doméstico e revela intenção direta de matar.

Mais do que registrar ocorrências, o trabalho da Polícia Civil também é preventivo. Palestras, ações educativas e programas em escolas buscam interromper ciclos de violência antes que eles se tornem irreversíveis. “Gostaria de deixar uma mensagem para todas as mulheres. Vocês não estão sozinhas. Busquem ajuda. A denúncia é um ato de coragem que pode salvar vidas e nós estamos aqui para acolher e proteger”, enfatiza Katlyn.

20.01.2025

 

 

Hoje de manhã acordei com uma sirene.

Fiquei tão assustada que pulei da cama.

Olhei pela janela e vi uma viatura da polícia.

Uma hora depois, chegou o IML.

Eles estavam levando a Neide, minha vizinha,

a mesma que ouvi brigar com o marido há dois dias.

Agora ele é o principal suspeito,

e, segundo o jornal, ela levou quinze facadas.

 

 

– Ana

O Acolhimento

Muitas mulheres não denunciam seus agressores por medo das represálias, perda da guarda dos filhos ou dependência emocional e financeira que as mantém presas ao ciclo de abuso.

Nesse cenário surgem redes de apoio como a Casa Alva, uma organização que acolhe mulheres e seus filhos vítimas de violência doméstica na região de Balneário Camboriú, Camboriú e Itajaí. Oferecendo acolhimento e apoio para que essas mulheres possam reconstruir suas vidas além da violência sofrida. É importante ressaltar que muitas dessas mulheres não possuem rede de apoio ficando a mercê de seu agressor.

O trabalho realizado vai muito além da proteção imediata. A Casa Alva atua na reconstrução da autonomia dessas mulheres, disponibilizando abrigo sigiloso, suporte financeiro, orientação, apoio psicológico e incentivo à educação dos filhos. Cada passo é pensado para que elas possam retomar o controle de suas vidas e perceber que são capazes de recomeçar.

A forma de ingressar na casa é através do encaminhamento, que acontece na própria delegacia após o registro do boletim de ocorrência. Durante o acolhimento a mulher permanece um período de 90 dias e após isso os profissionais da casa analisam se essa já tem condições de morar sozinha, caso não, a permanência delas é estendida para mais 90 dias.

Entretanto, se a acolhida ainda não conseguir se manter depois desses 6 meses, o prazo é estendido novamente ou é realizada a procura de um local seguro para ela e para os filhos. São também encaminhados para projetos sociais de assistência, emprego e educação, para que dessa forma consigam reconstruir e ressignificar suas vidas.

11.02.2025

 

 

 

Luiz chegou em casa cheirando a bebida e perfume de mulher.

Fiquei furiosa e perguntei onde ele estava.

E aí, foi tudo muito rápido.

Quando vi, eu estava no sofá, deitada, com as mãos dele no meu pescoço.

Eu me debati, mas ele me segurou.

Com o tempo, meu corpo perdeu a força.

Até que ele parou, apavorado.
Saiu de cima de mim como se estivesse envergonhado.

Ele foi dormir sem dizer nada.
E eu liguei para o 180.

 

– Ana

Entre as formas de violência, a psicológica é a mais difícil de identificar. Muitas mulheres passam a acreditar nas falas negativas dos agressores, enxergando-se como péssimas mães ou pessoas incapazes.

“Elas acreditam tanto no que sempre falaram para elas, que deixam de se conhecer. Então, a gente traz uma reflexão: quem é você? Você é uma boa mãe. Você sofreu, mas você consegue, afirma Michele de Souza, assistente social da Casa Alva.

Essa manipulação pode levar à depressão, outros tipos de transtornos mentais e até mesmo ao estresse pós-traumático, corroendo vínculos familiares e afetando diretamente a relação com os filhos. A Casa Alva busca resgatar a autoestima dessas mulheres, lembrando-as de quem realmente são.

“Você não é aquilo que os outros definem. Você é aquilo que carrega. E o que carrega é precioso”, declara Michele. O ciclo da violência só se rompe quando a mulher reconhece que viveu um relacionamento abusivo e deixa de normalizar esse tipo de vínculo. Essa consciência é essencial não apenas para sua saúde emocional, mas também para proteger os filhos dos efeitos devastadores da violência.

Ainda assim, muitas têm dificuldade de romper o ciclo,  devido à dependência emocional com os agressores, e acabam retornando para eles. É nesse momento, que o acolhimento contínuo e a escuta sensível se tornam fundamentais para mostrar que sempre existe uma nova chance de recomeçar.

“Mesmo que ela volte para o agressor, não tem problema. Estaremos aqui para mostrar que existe uma nova chance de sair. Até que ela entenda que não merece passar por nenhum tipo de humilhação”, declara Michele.

O Recomeço

Quando uma mulher rompe com o ciclo, precisa aprender a viver de novo e parar de apenas sobreviver. Esse é o recomeço.

Ele não vem de maneira fácil, é um longo processo, confuso e cheio de incertezas, e é nesse contexto que o Instituto Entrelaços desempenha seu trabalho. Fundado em 2023 pelas psicólogas Marina Benedet e Aline Yohana, o Entrelaços, juntamente com órgãos públicos, presta serviços às acolhidas, facilitando e fornecendo informações necessárias para reestruturar suas vidas.

“Existe muita dificuldade em voltar a confiar efetivamente, e muitas vezes, há também a dificuldade de acessar o sofrimento daquilo que foi vivido”, declarou Marina Benedet, cofundadora do Instituto Entrelaços.

É muito comum que após romper com o ciclo de violência a mulher sinta as consequências da dependência, e é nesse momento que entra em cena o Programa Reencontro.

“Quando pensamos no trabalho do Entrelaços, pensamos necessariamente na articulação com a assistência social. O Programa Reencontro tem um convênio com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, e a relação com esses setores é indispensável. Sem essa integração, não é possível garantir a segurança da mulher, o trabalho simplesmente não acontece”, afirmou Marina.

Algo que é evidenciado pelo trabalho do Instituto é o perfil psicossocial das mulheres acolhidas. O projeto é uma iniciativa sem fins lucrativos que atende mulheres encaminhadas por meio de medidas protetivas. A maioria são as chamadas migrantes internas, ou seja, mulheres que deixaram seus estados, tendo como única rede de apoio seus parceiros, que, em muitos casos, são os autores da violência sofrida.

No entanto, a falta de vínculos não está necessariamente relacionada à condição financeira. Nos atendimentos particulares de Marina, muitas dessas mulheres apresentam uma condição socioeconômica relativamente favorável, mas ainda assim vêm de redes de apoio fragilizadas. Nem todas são migrantes; algumas mantêm relações que, de alguma forma, acabaram enfraquecendo seus vínculos com família e amigos.

Com a falta de vínculos é comum que a mulher passe a acreditar e depender unicamente de seu parceiro, ficando vulnerável e resultando na perda de sua autoestima. Em situações de violência, o conceito de autoestima não está ligado apenas à aparência da mulher. 

“Temos que pensar o quanto conseguimos ter esse carinho e afeto pelo que é nosso. O ‘nosso’, nesse campo, é algo maior, seja o nosso corpo, a nossa aparência, mas também os nossos desejos, valores, projetos de vida. E muito disso, com certeza, se perde quando as mulheres passam por uma situação de violência”, declarou Marina.

15.02.2025


Não consegui dormir nem um minuto ontem à noite.
Tinha medo do que poderia acontecer.
Cada vez que ele se mexia na cama, meu coração parava.

De manhã, esperei que ele fosse trabalhar para começar a agir.
Arrumei a Maria, peguei nossas coisas, tranquei a casa e fui rumo à delegacia.

Na delegacia, me encaminharam para uma psicóloga.
Fiquei em silêncio por muito tempo, não sabia por onde começar.

Ela me explicou o que aconteceria dali para frente.
Que existia um lugar seguro para mim e para Maria.
Mas que, para isso, eu precisaria fazer um B.O. contra Luiz.

Chorei muito depois disso, a culpa me corroendo.
Mas eu precisava fazer isso.
Por Maria e por mim também.


Ana

16.08.2025

 

Depois que fui para a Casa Alva, comecei a ver as coisas de um jeito diferente.

Sem a presença do Luiz, tudo ficou mais estável.

Ele não sabe onde estamos.

E agora há uma medida protetiva contra ele.

Não foi fácil falar sobre o assunto. Muitas vezes duvidei de mim, mas depois de um tempo percebi que a violência começou muito antes da agressão física.

Tive auxílio do Programa Reencontro, que me ajudou a recomeçar.

Agora tenho um emprego.

Maria está em uma boa escola e voltamos a ver minha mãe.

– Ana

20.12.2025

 

Faz quase um ano que não vejo Luiz.

Nunca pensei que essa seria minha vida, mas não faria nada diferente.
Depois de sair da Casa Alva, aluguei uma casa para mim e Maria.
Nosso novo lar.

Agora tenho meu dinheiro e minha liberdade.

Continuo em contato com as pessoas que me ajudaram.

Lá fiz muitas amigas que passaram por algo parecido.
Penha, Ângela, Leila, Elisa, Eloá…

Eu ainda tenho cicatrizes, mas agora tenho força para curá-las.

Pela primeira vez em muito tempo, minha vida não é controlada pelo medo.

Quero que Maria saiba disso, que ela também pode ser corajosa

– Ana

Escutamos o relato de Stela Maris Ribeiro Coelho, uma mulher de 65 anos que compartilhou parte de sua história de vida. Em seu primeiro casamento, ainda muito jovem, enfrentou diversas formas de violência, incluindo agressões físicas e violência psicológica. Diante dessa realidade, tomou uma decisão difícil, mas extremamente corajosa: se separar, levar sua filha ainda pequena e recomeçar sua vida.
 
Com o passar do tempo, Stela conseguiu se reerguer. Trabalhou, cuidou de si mesma e, aos poucos, construiu um novo caminho. Hoje, está casada novamente e vive uma relação feliz. Teve mais dois filhos, ganhou netos e é cercada por uma família unida e amorosa. Sua trajetória mostra que romper o ciclo da violência é possível e pode abrir espaço para uma nova história, marcada por superação e esperança.

Ana é uma personagem fictícia, porém nasceu a partir de um recorte de mulheres reais e fortes que passam por isso todos os dias. Para mudar essa situação, é preciso proteger e prestar mais atenção em nossas Anas. Se você conhece uma Ana, ou se identifica com ela, não fique calada: busque ajuda.

Esta reportagem foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.