Por trás da vitrine

por: Bernardo Roa, Eduarda Machado,
Gabrielle Rudolf e Maria Eduarda Passos

O que vem à sua mente quando lê a palavra puteiro?

Você atravessa a rua ao cruzar com uma "profissional das esquinas?"

Talvez imagine um lugar escuro, abafado, com luz vermelha piscando, batons borrados e risadas forçadas. Talvez pense em degradação, em pecado, em algo que deve ser mantido à margem — tanto da cidade quanto da consciência. Prostíbulo. Bordel. Zona. Casa das Primas. Puteiro. Vários nomes para o mesmo espaço: um lugar onde se vendem e se compram corpos — ou, mais precisamente, presenças, fantasias, escuta, tempo. Um espaço geralmente frequentado por homens que buscam, ali, não apenas sexo, mas uma mulher que os acolha por alguns minutos, que valide suas fragilidades, que encene seus desejos sem o peso do afeto.

Mas e elas? Quem são essas mulheres que habitam a noite? Que atravessam o olhar moralista da sociedade com salto firme e batom vermelho? Prostituição, segundo o dicionário, é a atividade de cobrar por atos sexuais. Mas, para quatro estudantes de jornalismo, esse significado se dilatou ao ouvirem os relatos de quem sobrevive à sombra do preconceito. Não encontraram apenas prostitutas. Encontraram mães. Encontraram filhas. Encontraram mulheres. Histórias de dor e resistência, de escolhas complexas em contextos adversos. Vidas atravessadas por julgamentos — muitos deles lançados por aqueles que secretamente batem às suas portas.

Essa profissão, que já foi vista como ritual sagrado em algumas culturas antigas ou como negócio altamente rentável em outras épocas, hoje é marcada por rótulos e estigmas que reduzem quem a exerce a menos que humano. Mulheres que são chamadas de puta, vadia, piranha — ofensas que brotam, ironicamente, da boca de muitos dos mesmos homens que as procuram, que as desejam, que pagam por elas.

Por isso, antes de continuar a leitura, fica o convite: deixe o preconceito e o moralismo neste parágrafo. Abra a mente e, sobretudo, o coração. Há muito mais por trás da vitrine do que você imagina.

SEJAM BEM-VINDOS À CASA DAS 7 MULHERES

Noite com clima agradável, cheiro de estrada e cigarro fedido, música estrondosamente alta, luz baixa. Espelhos, mesas e cadeiras, um pole dance. Um jukebox atualizado que mais parecia uma máquina de karaokê. Meninas de salto alto, roupas curtas e justas, esperando o trabalho chegar até elas.

Por fora, tirando as suas paredes cor de rosa e o pequeno banner com o nome do estabelecimento escrito, o lugar se assemelha com uma humilde residência. Mas a casa é uma presença. Respira junto com a estrada. De dia, dorme, quieta, quase morta, recolhida atrás de um portão enferrujado. À noite, acende-se em lampejos.

Com o ligar da luz vermelha, a frente antes coberta agora deixa exposta uma pequena entrada, onde as meninas fazem a recepção, e uma janela circular, permitindo que os visitantes possam ter um vislumbre do que os espera. Aos poucos, a casa se transforma em um boate com vida. Luzes coloridas. Mesa de sinuca. Bar. Palco com pole dance. Tudo isso acompanhado por uma música estridente vinda do jukebox.

Quando o movimento ainda está devagar, a mesa de sinuca é a atração principal. As meninas te desafiam para uma partida que, após apostar um shot ou outro, acaba virando três. Entre uma tacada e outra, surgem piadas, pequenos flertes e algumas dicas sobre como aproveitar melhor a noite. O jogo quebra o gelo e garante movimento nos horários mais lentos.

No palco, o varão metálico se impõe com discrição, como parte fixa da mobília. Pelo valor certo, ele é usado como suporte para as performances da casa. A ferrugem nas bordas denuncia o tempo e o uso, mas ele continua ali, firme, esperando pela próxima dança – mesmo que seja a última.

Atrás do balcão, um jovem limpa copos e serve bebidas com a mesma indiferença com que observa o movimento. Mesmo muito novo, já viu de tudo por ali — brigas internas, relacionamentos infiéis, paixões irreais e promessas que não durariam até o amanhecer. Já sabe o nome dos clientes mais assíduos e o drink preferido das meninas. Cumpre sua função sem muita conversa.

Com apenas uma opção sanitária para os clientes – um espaço claustrofóbico com três mictórios e uma luz de teto vermelha mais forte que a do lado de fora – o puteiro não se preocupa com a possibilidade de uma clientela feminina. Caso venha a acontecer, as visitantes precisam contar com que uma das moças da casa tenha boa vontade e as leve para o banheiro exclusivo.

Ao lado, uma porta de vidro fosco impede o visual do interior do escritório da cafetina, mantendo sua privacidade. Compreensível pois a sala também se conecta com a casa em que ela mora com o marido e o filho. É o espaço onde o profissional e o pessoal se misturam sem cerimônia, administrando com punho de ferro corpos e crises.

Uma porta próxima ao jukebox leva aos quartos. De um lado, os destinados aos encontros com os clientes; do outro, os quartos onde as garotas descansam. Todos são simples, com colchões gastos e arrumados o suficiente para suas respectivas funções. A limpeza fica por conta das próprias garotas, que lidam com o essencial para manter tudo em ordem. Apesar da falta de conforto, a rotina segue em seu ritmo previsível.

Algumas meninas vivem no bordel de terça a domingo, passando poucos dias em suas reais residências, raramente convivendo com suas famílias. Nas segundas, voltam brevemente a ser filhas, mães ou esposas. Fingem normalidade nos supermercados, sorriem para os vizinhos e fingem não notar os olhares atravessados. A mala nunca é desfeita por completo, como se a permanência em casa fosse sempre provisória.

A arte é o espelho da sociedade, seja de seus conflitos ou de suas conquistas, mas também é importante destacar o impacto que a arte pode causar em diversos grupos e tribos da sociedade. Mas onde se encaixaria o bordel batizado de “Casa das 7 mulheres”, nome que faz referência ao livro de Letícia Wierzchowski que retrata, pela visão de mulheres reais e fictícias, a Guerra dos Farrapos?

Na obra, observamos as protagonistas vivendo à sombra da Revolução Farroupilha, aguardando ansiosamente notícias dos homens que lutam na guerra. Durante esse período de isolamento, elas expressam emoções profundas e enfrentam suas próprias batalhas internas. A narrativa destaca a força, a resiliência e o amadurecimento dessas mulheres que, mesmo distantes do campo de batalha, vivem intensamente os impactos da guerra.

Já no caso do puteiro, a guerra enfrentada não é por desavenças políticas, mas sim pela sobrevivência em uma sociedade que ainda marginaliza corpos femininos. Na “Casa das 7 Mulheres”, o que se vê é outro tipo de trincheira: a batalha diária contra o preconceito, a hipocrisia moralista e a violência simbólica (e muitas vezes física) que recai sobre quem vive à margem das convenções.

Assim como as mulheres do romance de Wierzchowski, aquelas que habitam este espaço também carregam cicatrizes e esperanças, desafiam os papéis que lhes foram impostos e tentam construir, à sua maneira, uma narrativa de resistência. Entre espelhos opacos, lençóis gastos e risadas que beiram o desespero, essas mulheres encenam, todos os dias, uma luta silenciosa por dignidade, autonomia e afeto – muitas vezes negado pelo mundo lá fora.

O bordel, portanto, se transforma em metáfora. É palco de encontros entre desejos e misérias humanas, mas também um território onde as vozes caladas da história ecoam, como sussurros de uma guerra não oficial, mas igualmente brutal. Nesse sentido, a arte continua sendo espelho – ainda que quebrado – da sociedade em que vivemos. E no reflexo torto do puteiro, podemos vislumbrar verdades que muitos preferem ignorar.

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Quem somos

Somos um site de reportagem multimídia dedicado a contar histórias reais e humanas sobre a prostituição, com foco nas vivências e vozes de quem vive essa realidade. O projeto foi desenvolvido por quatro estudantes de Jornalismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali): Duda Passos, Eduarda Machado e Gabi Rudolf, do 3º período, e Bernardo Roa, do 7º período. Esta produção faz parte da disciplina de Técnicas de Reportagem, orientada pela professora Vera Sommer, e tem como objetivo principal o desenvolvimento prático das técnicas jornalísticas, como a entrevista, a apuração, a escuta ativa e a escrita. Acreditamos no poder do jornalismo como ferramenta de empatia, reflexão e transformação socia

Depoimentos

Backstage

Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias II, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.