Por: Duda Passos
No coração de uma boate onde a madrugada pulsa sob luzes vermelhas e copos cheios, circula Solange Sol. Aos 40 anos, ela é uma das veteranas da casa noturna em Blumenau, Santa Catarina. “Sou a mais velha ali. As meninas têm 20, 22. Eu tenho 40, mas tenho um corpo bonito e sei trabalhar”, diz, com firmeza e um cigarro na boca.
Solange começou cedo. Trabalha desde os 18 anos. Com o tempo, aprendeu que, na prostituição, não basta estar, é preciso saber permanecer. “Na noite, é você por você. Não dá pra confiar em ninguém. Tudo pode acontecer.”, relata. Mãe de dois, não mais tão meninos, confessa que sempre falou sobre a prostituição com naturalidade. Seus ex-maridos a encontraram nesta vida, mas após algum tempo juntos a vontade de não dividi-la com mais ninguém começou a aparecer. O motivo perpassa o ciúmes e de acordo com Solange, o amor.
O filho mais novo, Juliano Rocha Luz Junior, de 21 anos, é casado e trabalha numa lavação de automóveis. Em meio a uma conversa barulhenta o seu relato foi sucinto, “é um trabalho como qualquer outro, ela não rouba nem mata ninguem, então ta bom”. O jovem conta que já sofreu bullying quando era mais novo por conta do trabalho da mãe, xingamentos insinuando sua realidade eram frequentes, mas sempre brincou junto. As palavras sobre a naturalidade da situação repercutiu a todo o pouco momento de fala, mas a história da familia e seus planos para o futuro se mostravam diferentes.
Aos 13 anos, teve sua primeira bebida, já visitou casas de prostituição antes, mas sempre buscando as que a mãe não estava. Junior já viu Solange chegar em casa bêbada, acompanhada de amigas, rindo, falando alto. Depois dos 18 anos, ele se juntava a elas e bebia junto. Ria. Passava seu tempo com a mãe antes de ter que levantar para ir trabalhar, e ela dormir.
O filho mais velho, Tiago de 24 anos, não aceita o trabalho de Solange. A sua defensiva com as escolhas da mãe são nítidas para os familiares. Na casa, os quatro moram juntos – mãe, os dois filhos e a esposa de Junior – o espaço ficou pequeno e Junior revela a busca pela independência junto da esposa, mas o contato com a mãe, que mora na mesma casa, é feito quando ele precisa de dinheiro.
Na casa noturna onde atua, o sexo não é explícito, mas está sempre implícito. Ele se revela nos olhares, nas roupas, nas danças. O ambiente funciona como um teatro de desejos masculinos. E cada movimento tem seu papel na encenação.
Segundo Solange, os homens mais jovens buscam diversão, bebida, sinuca e a excitação de ver mulheres seminuas. Já os mais velhos procuram atenção. Muitos são casados e pagam apenas para conversar, dividir uma bebida ou sentir uma presença que falta em casa. A maioria vive uma vida dupla. Alguns, se interessam por outros homens, mas recorrem às mulheres da boate para viver essas experiências em segredo. “A gente atende os dois lados. Eles têm nome a zelar, família. Na noite, podem ser o que escondem durante o dia.” expõe Sol. Dessa forma, a busca pelas meninas vai além de sexo. A necessidade de atenção marca a entrada dos homens na boate.
O trabalho marcado por informalidade e tabus, deve cumprir a regras rigorosas. As meninas devem entender que o cliente não pertence a nenhuma delas, mas é da casa. Isso gera conflitos constantes entre o elenco principal. Mesmo que uma profissional esteja com um cliente, ele pode, a qualquer momento, trocar de companhia. Ciúmes e disputas são comuns, mas o dinheiro fala mais alto, quem paga escolhe, e as profissionais aprendem a lidar com isso.
Essa dinâmica cria um ambiente competitivo e solitário. “Na noite não tem amizade”, admite Solange. A união só acontece quando um cliente quer companhia de mais de uma mulher. Nesses casos, elas dividem a comissão, trabalham juntas e seguem sem criar laços.
Com a constante troca de parceiros, o estabelecimento impõe protocolos de segurança e higiene. Todas as mulheres fazem testes rápidos ao entrar na casa, o uso de preservativo é obrigatório e o descumprimento leva à expulsão. Se uma profissional não se cuida, pode ser multada, pois é foco de risco entre as mulheres.
Homens não podem trabalhar como profissionais na casa, mas são frequentadores assíduos. Alguns vão em busca de atendimento masculino, mas, como isso é proibido, cabe às próprias mulheres oferecer essa experiência. “Eles querem, e a gente atende.”, comenta rindo.
A performance é o motor da renda. Solange sabe que sua imagem é uma mercadoria: “Se for de calça jeans, você não ganha nada. Tem que ir quase pelada.”, fala com naturalidade enquando deita no seu sofá de casa. Ela costuma trabalhar de lingerie. Quanto mais provocação no salão, maior a comissão no fim da noite. Beijos entre mulheres, encenações, danças provocantes, tudo isso compõe um espetáculo que dura a noite toda. Os limites são impostos pelas próprias mulheres, elas aprendem a se defender sozinhas, mesmo que haja seuranças por perto. O homem não pode passar dos limites sem antes fechar o programa, não se tira a roupa no salão nem se toca nas meninas.
Para isso, a bebida é um dos fatores principais, estimula o homem, o faz entrar na fantasia e a cada drinque dividido com o cliente gera lucro para a mulher. Com o tempo, o beber vira rotina e fórmula para que a mágica aconteça, segura o cançasso e mantem alerta. “Quanto mais você bebe, mais você ganha. E a maioria das meninas usa droga. Eu não uso, mas vejo. Elas usam para aguentar. Para não ficarem bêbadas rápido.”, explica.
A maioria das profissionais, recorre a algum tipo de escape para se manter sóbria depois dos drinks, como tomar bastante água, fingir que está bebendo uísque quando é energético, controlar os goles. Mesmo assim, muitas acabam se rendendo ao uso de drogas para aguentar o ritmo, as substâncias anulam o efeito do álcool. Com os horários variados conforme o movimento, a jornada pode terminar antes da meia noite, se não hover clientes, ou então, se alguma das profissionais exagerar na bebida.
Solange não se envergonha da profissão. Trabalha desde o início da vida adulta e, para ela, parar só faz sentido quando um relacionamento exige. Foi o que aconteceu recentemente. Após conhecer um novo companheiro, deixou a noite depois de 40 dias de namoro. “Ele me deu um prazo de três meses para parar.”, relata. O prazo foi adiantado depois desta entevista, atualmente Solange está trabalhando de carteira assinada em uma empresa de serviços de limpeza. Porem a porta para a vida noturna nunca foi fechada e se for, não é por ela.