VITÓRIA

Por: Eduarda Machado

Vitória. Nome feminino que sugere a ideia de triunfo e sucesso. Escolhido por Maria para enfrentar mais um dia de trabalho. Inicialmente tímida, com a cara fechada, vestido preto vazado que dava de ver toda a roupa de baixo, preta também. Usava um modelo de meia que vem até a coxa e tem um prendedor de renda. Pele morena, 20 anos, magra, nova naquele lugar e para aquele lugar.

Inicialmente uma partida de sinuca, até então sem palavras trocadas. Na segunda partida, algumas risadas e perguntas, mas nada de conversa profunda. Fim da terceira partida, perdemos. Já era hora de ir embora, devia deixá-la trabalhar, mas precisava ir ao banheiro, nesse momento veio o choque, não havia banheiros femininos, apenas mictórios, mulheres não vão naquele local.

Quando Maria tinha de 13 para 14 anos, se apaixonou por um homem mais velho, se entregou a ele e engravidou. Era muito nova para isso, mas a mãe a obrigou a casar e para ela, era o melhor a se fazer naquele momento, construir sua família.

Se encontrou durante quatro anos em um relacionamento abusivo, no começo era tudo mil maravilhas, até que chegou no ponto onde seu marido chegava de madrugada bêbado em casa e a agredia, ela era muito nova, achava que isso era normal, cresceu sem seu pai em casa, então não tinha um exemplo de homem na sua vida.

Um dia, quando estava com sua filha no colo, ele chegou em casa e bateu nela. Nesse dia tudo acabou, não aceitava que isso iria acontecer com sua filha também. Juntou suas coisas e voltou para a casa da mãe, que a acolheu e recebeu de volta.

Nesse meio tempo, uma amiga de Maria apresentou um site de encontros adultos. Trabalhou nisso durante dois anos até se encontrar com uma outra amiga que a ofereceu um trabalho em uma casa noturna numa cidade próxima dela. Conheceu o local e ali ficou durante três meses. Foi onde nos conhecemos.

Me permitiu entrar em seu espaço e das meninas que trabalham ali. Fui ao banheiro e começamos a conversar sobre faculdade, ela ainda não faz, mas trabalha ali para pagar a mensalidade de seu futuro próximo, pretende sair dessa vida e acredita que a universidade abrirá novas portas.

A boate em que nos conhecemos aparentava ser limpa e organizada, mas era apenas um show teatral, como a própria performance de quem trabalha na casa. Por trás das cortinas uma cafetina maldosa, que impõe regras e as multa por qualquer coisa.

Elas são obrigadas a ficar lá de quarta a domingo, trabalhando das 19h às 06h sem pausa, com direito a uma bebida por noite – chamada de quentinha-. Durante o dia, tem que limpar a casa toda, comprar sua própria comida e cozinhar, levar lençol, travesseiros e se sujeitar a viver com ratos por toda a parte. Um banheiro feio e mal acabado, com azulejos quebrados, tinta manchada, janela com madeira podre e fechada com uma caixa de papelão de sapato.

A vida ali não era nada glamurosa, muito pelo contrário, Maria conta que não ganhava mal, mas tudo era motivo de multa, se a cafetina visse que alguma das meninas queria sair dali a multava até que ficasse com saldo negativo e tinha que trabalhar de graça até pagar sua dívida.

O trabalho ali muitas vezes é tido como fácil, mas ela conta do nojo que sente muitas vezes dos clientes e de si mesma, das cenas que se passam em sua cabeça, de homens que a seguram com força e do medo que ela sente. “Não tem como sentir prazer na noite”, revela.

Certo dia, o filho da chefe, que trabalha no bar do bordel, se encantou por Vitória, porém ele tem apenas 16 anos e nunca tinha acompanhado uma mulher. No começo ela não quis fazer isso, achava que não era o correto, mas a mãe conversou com ela e a pagou para dormir com seu filho. O menino se apaixonou por ela, comprou presentes para sua filha e flores para ela, mas não era isso que Maria queria.

Depois disso, decidiu que o melhor seria sair dali. O menino andava triste, não queria mais trabalhar, nem conhecer mais ninguém. Como aquele é o único filho da cafetina, ela conversou com Maria e chegaram a um acordo. Saiu dessa casa e foi para outra em uma cidade vizinha.

Ficou dois meses no novo local e determinou que seus dias nesse emprego terminaram. Arranjou outro, um diurno, onde receberá um pouco menos, mas poderá assinar sua carteira em um futuro próximo. Maria, quer que sua filha cresça bem longe do mundo que vive. Sonha em comprar seu próprio terreno, ter uma vida simples, mas com boas condições