O hype da corrida: tendência passageira ou estilo de vida?

Descubra os motivos para a explosão do esporte e o que esta nova febre revela sobre os hábitos de saúde e bem-estar.

por: Matheus Souza, Letícia Machado, Massilon Neves, Lucas Lages e Giovana Accorsi

Bastam algumas deslizadas no Instagram para perceber que a corrida de rua tem se tornado uma tendência em Santa Catarina. Nos últimos anos, as ruas das cidades brasileiras passaram a ganhar um novo protagonismo: deixaram de ser apenas espaços de trânsito e protesto para se tornarem pistas de superação, saúde e pertencimento. As corridas de rua explodiram popularidade no Brasil e no mundo, conquistando um público diverso e fiel. Mas o que está por trás dessa febre? E mais importante: será que ela veio para ficar?

Mais do que um exercício físico, o hábito de correr tem feito parte da rotina de muitos catarinenses, reunindo desde atletas profissionais a iniciantes. Nesta reportagem, entenderemos sobre a popularização da corrida no Brasil, ouviremos especialistas sobre os benefícios da prática deste esporte, bem como casos de novos adeptos do esporte. Além disso, apresentaremos dados atualizados sobre o crescimento do esporte na região e mostraremos a experiência de fazer uma corrida de 6km. Nesta reportagem, você entenderá sobre este novo mercado de corridas – as maratonas, que estão surgindo a todo vapor, com cada vez mais adeptos. 

A recente popoularização da corrida no Brasil

De acordo com um levantamento publicado pela revista Veja, o mercado de corridas de rua registrou um crescimento de quase 30% entre 2023 e 2024: o maior avanço dos últimos anos. A pesquisa é considerada a mais abrangente sobre o setor no país e revela que esse tipo de evento não só aumentou em número, mas também em qualidade, estrutura e engajamento. O que antes era restrito a atletas ou grupos específicos, atualmente atrai iniciantes, famílias, idosos, jovens e até crianças.

Segundo um estudo da ABRACEO (Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua) com apoio da agência Esporte & Negócio, o Brasil registrou 2.827 provas oficiais em 2024, um aumento de 29% em comparação a 2023, quando foram realizadas cerca de 2.186 corridas. Esse crescimento sustentado levou o mercado a movimentar quase R$ 1 bilhão apenas em inscrições e R$ 2,5 bilhões em turismo esportivo.

O esporte mais praticando no mundo

Ao falar de mundo, o relatório “Year in Sport 2024” do Strava apontou que a corrida foi o esporte mais praticado no planeta em 2024, com o Brasil ocupando o segundo lugar, com mais de 19 milhões de corredores cadastrados. Além disso, dados divulgados pela CNN revelam que o número de clubes locais cresceu 109% no país, quase o dobro da média global (59%), enquanto as provas de longas distâncias (meias e maratonas) subiram em quase 10%.

Sendo assim, a corrida foi o esporte mais praticado do mundo em 2024, superando modalidades como ciclismo, musculação e natação. A pesquisa da CNN divulgada em abril deste ano mostra que 1 em cada 5 pessoas que praticam alguma atividade física regular escolheu a corrida como principal opção. A principal razão para essa popularidade está na acessibilidade da modalidade. Afinal, correr é gratuito, não exige equipamentos caros e pode acontecer de qualquer lugar. Além disso, os benefícios do esporte são benefícios rápidos para o corpo e a mente.

Outro fator que estimula o sucesso da corrida é o benefício emocional. Correr tem sido, cada vez mais, uma forma de autocuidado e de alívio para o estresse da rotina. “É uma pausa no mundo digital, uma conexão com o corpo, com o agora”, diz o relatório da CNN. A valorização do estilo de vida saudável pelas redes sociais e pelas marcas tem transformado a corrida em um símbolo de bem-estar, além de oportunidade de negócio.

A corrida como negócio rentável

Com esse notável avanço, o setor de corrida movimenta milhões de reais por ano no Brasil, não apenas com inscrições, mas também com a venda de equipamentos, turismo esportivo, alimentação, mídia e patrocínios. Grandes marcas já investem em provas próprias ou patrocinam eventos locais como forma de posicionamento institucional, associando seus nomes a um público que valoriza saúde, propósito e comunidade.

Mas toda essa movimentação levanta uma dúvida importante: estamos diante de uma mudança de comportamento permanente ou apenas surfando uma onda passageira? Será que as corridas de rua vieram mesmo para ficar, ou serão substituídas por outro hype fitness nos próximos anos?

Para responder a essas perguntas, conversamos com Marcos Pinheiro da Agência Sportion que é organizadora de corridas e maratonas. Profissional com mais de duas décadas de experiência em eventos esportivos, Marcos é organizador de corridas e apaixonado pela transformação que o esporte pode causar. Ele compartilhou sua trajetória no esporte, os bastidores das organizações, os desafios logísticos, a estrutura financeira das provas e sua visão sobre o futuro do mercado de corridas no Sul do Brasil.

Foto: Marcos Pinheiro da Agência Sportion, divulgada em sua rede social.

A história de Marcos no universo esportivo começou cedo, aos 13 anos, quando atuava como atleta amador de natação em Curitiba. Pouco tempo depois, migrou para o duátlon e, em seguida, encontrou na corrida sua principal prática. “Sou formado em Educação Física, minha primeira formação, e desde 2000 trabalho com eventos esportivos. São 25 anos atuando na área”, conta.

Segundo ele, o crescimento da corrida de rua é visível, especialmente em Santa Catarina. Para Marcos, o apelo do esporte está na sua simplicidade e no impacto positivo sobre corpo e mente. “É um esporte democrático e altamente saudável — física e mentalmente. Ele permite uma pausa no dia para se desconectar do mundo online e se reconectar consigo mesmo”, afirma. Apesar de reconhecer que parte desse crescimento se deve a modismos, como ocorreu com o beach tênis, ele aponta um diferencial fundamental: “A endorfina gerada é viciante”, o que aumenta a fidelização entre os praticantes.

A organização desses eventos, no entanto, não é tarefa fácil. Entre os maiores desafios está a mobilidade urbana. “As cidades estão muito densas, com grande número de veículos, e isso impacta diretamente quando se precisa bloquear ruas”, relata. Por isso, o planejamento com órgãos públicos e a sensibilidade para lidar com a rotina da cidade são indispensáveis.

Quando se trata da viabilidade econômica do setor, Marcos explica que o equilíbrio entre custo e receita é a base da estrutura financeira de uma prova. “A estrutura começa no break-even, entre os custos e a receita com inscrições e patrocínios.” Provas maiores, como maratonas, podem ser lucrativas, embora exijam altos investimentos. Já as provas menores, como as de 5 km e 10 km, demandam mais participantes para serem viáveis. “Com planejamento, é possível sim viver desse mercado”, garante.

Outro ponto importante, segundo ele, está na experiência entregue ao corredor. Marcos afirma que o sucesso de um evento está diretamente ligado à soma de fatores como kit de participação, camisa de qualidade, medalha bonita, percurso bem sinalizado e ambiente acolhedor. “O corredor quer se sentir valorizado”, resume.

Diante da pergunta central sobre a corrida ser moda ou tendência sólida, Marcos é categórico:

A corrida está ‘hypada’, é verdade, mas diferente de outras modas, ela tem uma taxa de conversão altíssima.

Foto: Marcos correndo no Molhe do Atalaia, em sua cidade Itajaí (SC). Divulgada em sua rede social.

Ele destaca que cerca de 60% a 70% dos iniciantes seguem praticando, número muito acima de outros esportes, cuja taxa de continuidade gira entre 1,5% e 2%. “Hoje, inclusive, temos mais corredores de rua do que jogadores de futebol no Brasil — profissionais ou amadores”, compara.

As marcas, por sua vez, também vêm se posicionando de forma estratégica nesse mercado. De acordo com Marcos, há um movimento claro de associar os valores da empresa à saúde e ao bem-estar. “Isso começa dentro da empresa, com os próprios colaboradores, e se expande para o público externo”, explica. Tanto marcas esportivas quanto outras de diferentes segmentos estão investindo nesse universo.

Sobre o perfil dos participantes, ele observa uma crescente democratização. “A variedade de perfis tem aumentado, com homens e mulheres de diferentes faixas etárias, níveis sociais e motivações.” Ainda que o valor da inscrição e o deslocamento sejam entraves para alguns, ele acredita que, no geral, é um esporte acessível.

O futuro, segundo Marcos, passa pela inovação. Com um calendário cada vez mais cheio, especialmente nas cidades grandes, o diferencial está em entregar experiências únicas. “Inovar é essencial”, defende, citando corridas noturnas, temáticas, em trilhas ou com obstáculos como caminhos criativos para atrair o público.

Por fim, ele ressalta o papel social das corridas: promover saúde e bem-estar. Contudo, lamenta que o apoio público ainda seja tímido. “Infelizmente, o apoio do poder público ainda é limitado em muitos casos. A organização e realização dos eventos dependem muito da iniciativa privada.” Para ele, diante dos benefícios coletivos da prática, seria essencial ampliar os incentivos institucionais.

Preparar antes de correr: o treino invisível que garante saúde e desempenho nas ruas

A corrida é um dos esportes mais acessíveis do mundo. Com um par de tênis e disposição, milhares de pessoas se lançam todos os dias em parques, ruas e praias com o objetivo de melhorar a saúde, aliviar o estresse ou bater metas pessoais. Mas o que muitos ignoram é que, antes de sair correndo, é preciso preparar o corpo para esse desafio. E essa preparação pode ser o fator determinante entre uma trajetória de evolução ou um caminho repleto de lesões e frustrações.

Para entender melhor como funciona essa etapa muitas vezes negligenciada, acompanhamos na prática uma sessão de preparação física específica para corredores, conduzida pelo professor e personal trainer Rodrigo Bachmann, profissional que há mais de duas décadas atua na formação de atletas e amadores em Santa Catarina. O que parecia um simples aquecimento virou uma verdadeira aula sobre consciência corporal, fortalecimento e prevenção.

Segundo Rodrigo, é comum ver iniciantes motivados pelo desejo de mudar de vida mas sem preparo adequado. “Muita gente acha que correr é só sair por aí, colocar um tênis e pronto. Mas o corpo precisa estar pronto para esse impacto. A musculatura precisa estar forte, o core precisa estar ativo, e a postura precisa estar bem ajustada”, afirma.

Durante a sessão, percebi na prática a diferença que faz começar com exercícios educativos e fortalecimento leve, focando em musculaturas estabilizadoras, como glúteos, abdômen e tornozelos. Rodrigo explica que essa base é o alicerce da corrida: “Correr sem preparo é como querer construir um prédio sem fundação. Vai desmoronar.”

A corrida é um esporte de repetição. Um passo errado, repetido milhares de vezes em cada treino, pode se transformar em uma lesão séria. Entre as mais comuns estão dores no joelho, fascite plantar e canelite todas, segundo o personal, possíveis de serem evitadas com um bom trabalho de força, mobilidade e consciência postural.

“Você precisa ensinar o corpo a se mover bem antes de exigir velocidade ou distância. A musculação e os exercícios funcionais ajudam a manter o corpo alinhado, o quadril estável e a coluna protegida. Isso melhora até o desempenho. Você gasta menos energia para correr, porque o corpo está mais eficiente”, explica Rodrigo.

Para iniciantes e veteranos

A preparação física não é exclusiva de quem está começando. Para quem já corre há algum tempo ou participa de provas, ela é ainda mais importante. O desgaste acumulado, a repetição do gesto esportivo e o aumento na intensidade dos treinos exigem uma estrutura corporal sólida.

“O corredor precisa pensar como um atleta. Treinar força pelo menos duas vezes por semana, trabalhar equilíbrio, mobilidade e, claro, respeitar os momentos de descanso. Não adianta querer correr todo dia e achar que o corpo vai aguentar para sempre”, alerta Rodrigo.

Ele também destaca a importância de planejar os estímulos ao longo da semana e acompanhar sinais de fadiga ou dor. “A preparação inclui também alimentação, sono e recuperação. Tudo isso influencia no desempenho e na saúde do corredor.”

Mais importante do que correr rápido é correr com saúde e por muitos anos. E isso só acontece quando a gente prepara o corpo para essa jornada.

Foto: Matheus Souza | Rodrigo Bachmann e Matheus, testando os treinos específicos para iniciantes e praticantes de corrida.

Repórteres encaram 6 km para entender o universo da corrida de rua

Para sentir na pele o que vivem milhares de catarinenses que trocam o sedentarismo pelas passadas firmes no asfalto, os repórteres Giovana e Lucas aceitaram um desafio especial: percorrer 6 quilômetros pelas ruas da cidade. Entre suor, fôlego e superação, eles mostraram que correr é mais do que um esporte — é um estilo de vida. Confira como foi essa experiência!

Supervisora escolar conta como a corrida transformou sua rotina, sua saúde e sua forma de enfrentar a vida

Economista e supervisora escolar que entrou na corrida.

Sirlene de Souza, 50 anos, é daquelas pessoas que reúnem múltiplas formações e experiências em uma só caminhada  ou melhor, em muitas corridas. Economista, pedagoga, psicopedagoga, licenciada em Educação Física e especialista em Educação Física Escolar e Inclusão, ela também atua como supervisora escolar na Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED/SC). Mas foi na corrida que encontrou uma forma de se reconectar com ela mesma e cultivar equilíbrio emocional em meio à rotina intensa.

A prática começou como uma alternativa simples às outras atividades físicas que já fazia, como a caminhada e o ciclismo. Mas logo virou algo maior. “A corrida me encantou por ser algo que eu consigo fazer sozinha e, ainda assim, traçar desafios que me dão a certeza de superação dia após dia”, conta.

A conexão entre corpo e mente, reforçada pelo hábito de correr, impactou não só sua saúde física, mas também sua clareza mental e disposição. “Parece que a corrida organiza minhas ideias e me dá a segurança do que fazer, como se eu estivesse sempre correndo em direção à chegada”, revela Sirlene.

O hábito começou ainda na infância, em um momento simbólico: ao precisar recuperar a nota em Educação Física, foi desafiada a correr cinco voltas no campo. Mais tarde, voltou às pistas para acompanhar uma amiga em tratamento contra o câncer. Desde então, não parou mais. Mesmo após enfrentar um raro rompimento na meninge  que a obrigou a diminuir o ritmo seguiu correndo dentro dos seus limites, respeitando o corpo e valorizando o processo.

Para quem deseja começar, ela dá um conselho direto e motivador: “Aos que ainda não sentiram a sensação de correr, corra… Comece mesmo sem vontade. Depois, o corpo liga automaticamente, o cérebro dá o comando e, quando você vê, já está habituado”.

Hoje, Sirlene coleciona provas, amigos e histórias, e segue levando a vida em movimento. Porque, como ela mesma diz:

“Eu me permito viver correndo.”

Esta reportagem foi produzida na disciplina de Narrativas Multimídias II, do curso de Jornalismo da Univali, sob orientação do professor Vinicius Batista.